quinta-feira, 10 de abril de 2008

Die Angst des Tormanns beim Elfmeter



A Angústia do Guarda-redes no Momento do Penalti – 1971
Realização: Wim Wenders

Argumento: Wim Wenders; Peter Handke
Director de Fotografia: Robby Müller
Editor: Peter Przygodda
Música: Jügen Knieper
Actores: Arthur Brauss; Kai Fischer; Erika Pluhar; Libgart Schwarz
Produtores: Thomas Schamoni Peter Genée; Wim Wenders
Produção: Wim Wenders Produktion

Título original: Die Angst des Tormanns beim Elfmeter
Língua original: Alemão

Conforme solicitado e a pensar no futuro comentário sobre Peter Handke...

POEMA do DIA

Foi assim
Todo o mar que eu via
se precipitou logo no meu coração
Que é de sal

E os peixes cristalizaram
com os olhos mortos
para as suas manhãs refractadas

Escutando bem
ouve-se como ao pé das estátuas
música de uma fanada melancolia.

SEBASTIÃO ALBA
Génese, A Noite Dividida

quarta-feira, 9 de abril de 2008







no vazio da cama que o relógio desperta

Estico o corpo ao longo do leito.
Fechando os olhos, devagarinho,
Logo oiço um piar de passarinho
A parecer voz, que é do teu peito

Estendo esse lado à atenção
A entender o que diz tal pio
E lanço-me a mim o desafio
De ouvir o que pia o coração

Solto do sonho, vejo serem as horas
Que, da parede, piam cada segundo.
Sozinho, há muito que me demoras;
E eu esqueço-te num sono profundo.

Asas do desejo


WINGS OF DESIRE 1987
Director: Wim Wenders
Screenplay: Wim Wenders; Peter Handke
Director of Photography: Henri Alekan
Editor: Peter Przygodda
Music: Jürgen Knieper
Production Design: Heidi Lüdi
Cast: Bruno Ganz; Solveig Dommartin; Otto Sander; Curt Bois; Peter Falk
Producers: Wim Wenders; Anatole Dauman

Para o amigo J. que ontém me lembrou desta obra prima...

POEMA do DIA

Gosto da tua boca quando sabe
a chocolate, a vinho tinto de Portalegre,
a mar (é sempre a mesma coisa, tem
de aparecer sempre o mar), pensando
bem gosto da tua boca sempre.

Às vezes a tua boca ri e nada sabe,
ri porque prevê a hora certa da minha alegria.
Também eu mergulho no mar, porém
logo secos ficam meus cabelos quando
me lembro que hoje é outra vez dia de S. Nunca.

HELDER MOURA PEREIRA
A Tua Cara Não Me É Estranha

terça-feira, 8 de abril de 2008

arranjo floral

Cadeias de vermelhos laços
Prendiam-nos trocado olhar
Como se grinaldas de braços
Onde nos queríamos amarrar.

Cada gesto meu não me pertencia
E desprendias-te do teu por igual,
Inventando uma dança em fantasia
Que de dois seria, um arranjo floral.

Deixa beijar-te o gesto sem tocar a mão
Roubando do poeta os ditos d’encantar,
Que assim, o que se te toca é o coração;
E no céu, só se sentem saudades a voar.

Espaço

Lancem o meu corpo no espaço
Unam meu coração
(ensalivem-lhe solidão)
Pedaço por pedaço

segunda-feira, 7 de abril de 2008

lendo no escuro

Contorno suavemente as tuas palavras,
A socorrer-lhes o (meu) sentido íntimo
Mas não tenho atrito e elas são vidradas
Deixa-me a dúvida de sentir o que sinto.

Apalpo o fôlego que como som lhes sobra
E tento escutá-las só com os gestos da mão
Afago-as mais ao peito, ponho-me à prova:
Se é o teu ou o meu o respirar do coração.

Mas as palavras esgotam-se no escuro
E eu confundo cada um dos corações;
Aproveito e digo amo, num sussurro,
Como quem soletra as suas orações.

Inquérito

Na sequência do meu regresso, acompanhado do Sr. Nogueira (cf. postagem de 30.03.08, infra), foi transmitida uma entrevista/resposta do eng. Campos (íntimo do aludido Nogueira) onde dava palavra a interrogações de A Informação, nos idos de 926. Célere, veio ilustre anónimo colocar questões similares, em nome do Sr. Nogueira e dirigidas à penasuave. Sendo eu apenas copista, comprometi-me a aproveitar o compromisso inicial de AM e fui insistindo para que fornecesse letra ao oportuno inquérito. Vacilou e, mais à frente, exigiu o – impossível – anonimato. Negociou-se novamente e condescendeu.
As questões colocadas (cf. comentário 1, 31.03.08.0:33, infra) são idênticas às que respondera o engenheiro poeta, salvo na percepção da inexistência de livros e consequente transmutação daqueles em textos ou escritos. Daí a desnecessidade da repetição.

As respostas colhidas são as que se seguem:

1) Os filhos, mesmo quando alguns, desvairados em leviandade, se suspeitam ilegítimos, são sempre, na justa medida em que a razão nos acautela o sentimento, igualmente estimados. Sejam eles prosados, sejam eles poéticos, nascem de actos de arrependimento, impossíveis de graduar.
2) Admirar-me-ia que a ousada desvergonha do reconhecimento me chegasse à vista. E ainda bem: seria sintoma de um deleite prematuro e, por isso, precário, filho eventual da congeminação de um autor hipotético que não da vera arte da obra. Mas não querendo iludir a demanda, sempre acrescento que o Sr., meu tutor, tem alguma apreciação favorável aos poemas do mar.
3) Longe disso. Creio que têm o efeito contrário, ainda que não possa apresentar dados. Quase suspeito que o amor nem sequer é uma aventura. Não tenho certezas, porém.
4) A única compensação moral é poder dizer que perdi o tempo que igualmente perderia e acrescentar poder desconfiar como o perdi.
5) Todos os protagonistas dos meus escritos têm existência real. Sucede que eu (quase) a não tenho, o que dificulta exponencialmente a percepção. Não tomo, de todo o modo, a realidade como uma coisa muito segura.
6) O acto de escrever é uma pulsão narcísica. Porém, nada indica que seja pior que todas as outras que nos preenchem os dias. Nesse contexto, não representa qualquer militância, mesmo que todas represente. Nada fazemos por acaso, mas só o acaso nos permite fazer. No mais, com todo o respeito, não percebo o sentido de “preocupação intelectual” e talvez, se ainda a entendo, a única que tenha é a de não dar muitos erros ortográficos.

Felicidade

Segundo Óscar Wilde existem duas tragédias na existência: não satisfazer todos os desejos; satisfazer todos os desejos. Muitos indivíduos chegam a determinada fase da vida e apercebem-se que não conseguiram obter aquilo que pensaram que era necessário para ser feliz. Outros obtiveram tudo o que projectaram ter para serem felizes e não o são.
Para ambos o mundo parece vazio e entediante. O que é que lhes poderá trazer a felicidade? O Sol?

domingo, 6 de abril de 2008

O amor é discutível

A. e B. (nomes desactivados) enredaram-se em propósitos, quando o tempo era ainda colorido de esperanças e ambos repartiam a certeza de um futuro radioso. O Sol que os iluminava desde a adolescência seria a brasa que os havia de manter unidos, juntos à lareira do encanto.
Duas semanas depois da boda, porém, as camisas não apresentavam a goma bastante nos colarinhos, e B., apoquentado com os deveres profissionais, fez notar o seu ténue desencanto. A., à primeira vista solícita, chamou à colação as desgraças no tampo da sanita.
Felizmente que, quando ainda esvoaçam as sobras do encanto primeiro, a serenidade impõe o diálogo partilhado. Foi assim que discutiram prós e contras e, não querendo cada qual a humilhação do outro, aceitaram mandar fazer outra casa de banho e comprar camisas com botões no colarinho.

O amor é comestível

A. e B. (nomes verdadeiros de pessoas fictícias) tinham a habituação que o contrato matrimonial acarreta em sossego. Cumpriam os deveres com parcimónia, mas às sextas, quando os cinco úteis chegam ao pórtico de um fim-de-semana idealizado, A. esquecia-se da dor de cabeça e lia mais rápido o Kafka com chá de menta. Era então que B., matemático incorrigível, repisava as contas e se consolava na alegria íntima de 1/7 ser valor bastante ao débito. Não tanto pela quantidade – esclarecia-se – mas pelo valor da insistência periódica, pela certeza da regularidade.

O amor é perecível


A. e B. (nomes precisos de imprecisos seres) iam mantendo a conformidade do hábito. Tudo se nos entranha - consolavam-se, assim que descobriram que a frase publicitária era do Sr. Pessoa. Mas se o uso revigora o músculo – dizem os clínicos -, não garante o mesmo grau de entrega mental. Consta que B. encontrou no escritório uma doce estagiária, amiga de crepes de chocolate, e que A. passou a desconfiar não lhe bastarem cautelas diabéticas. O açúcar, tal como o mel, nunca se deteriora, mas o amor não é exactamente assim. As dores de cabeça passaram a percorrer a totalidade dos dias.

A felicidade é (im) possível

Tudo é eterno enquanto dura, disse-lhes o Conservador. A. e B. acabaram por concordar.

Queria sair
Do mundo que entijola;
Queria fugir
Desta caquéctica gaiola
Onde se escondem sabores
Gastos de esperas ocas
Gozados na ilusão d’amores
A fingir de entregas moucas

Pastelaria Catita.6

E prosseguiu, aprimorando uma letrinha legível, desenhada no que o excesso de carinho pode olvidar a saudade:
As palavras para reflectirem a imagem da minha funda tristeza não são minhas. Com efeito, não tenho palavras. E – peço-lhe, como recompensa ao respeito – que não tome estas palavras como um jogo delas mesmas. É sentido que elas de todo me falecem. Que seria capaz de inventar para lhe entregar em ditos um tão imenso padecimento de alma? Não sou poeta, menina Rosarinha. E que fosse! Que arte de fingimento poderia criar para mentir a verdade do que sinto? É que a verdade, a menina sabe, nunca seria bastante. Rasguei-me de todos os encargos psicológicos a que a vida me acorrentou para poder resplandecer no seu olhar uma vida nova. A menina Rosarinha assumiu um compromisso que tomei por eterno; e, sabendo embora que tudo o é apenas enquanto dura, como do amor dizem os sabedores, o nosso caso quedou-se antes do nascimento, mera promessa, dolorosa ilusão.
Calisto acendeu a telefonia, à espera de um intervalo musical que lhe recompusesse as ideias.

Pastelaria Catita (resumo dos capítulos anteriores)

Tinha o coração desarrumado, logo naquela hora do dia em que o Sol se habituou a mandar beijos. As acácias já não filtram as venturas luminosas e, com o tempo em que se perdera, receava perder o troco dos olhos, que marcara na agenda rosa. Foi com a Pastelaria Catita ao alcance da vista que viu o vulto fugidio do senhor Calisto. Não era menina de arremessar um grito. Susteve a lágrima e o passo.

O Senhor Calisto regressou tombado de desânimo. Carregava uma sombra pesada que lhe fazia de vulto, mas a noite respeitosamente escondia. Antes de recuperar o Amarelo, resolveu abeirar-se do rio, olvidando por instantes o cacimbo. Ali lavou os olhos, a estender a vista na corrente.

A noite ia já escurinha quando volveu a casa. Pensou frigir um ovo, a burlar o estômago. Mas atormentava-o o desencontro. Tinha que deixar nas letras o desgosto que o atravessava. No papel rosado, redigiu
Menina Rosarinha. Predilecta.
Daqui lhe entoa, suplicante, o Calisto que seus olhos apartaram, deixando os dele turvados de pranto.

O pai balouçava-se na cadeira de castanho, escondido nas folhas do Notícias. Rosarinha fez por disfarçar o desencanto, mas a um pai que filha engana? Rosarinha foi esquentar uma verbena para melhor acolher os lençóis saudosos.

Os lençóis contornavam-lhe o corpo, a enrugar as mesmas desgraças. A luz do candeeiro trôpego escrevia sombras na cal da parede. Em vão tentou conciliar o repouso. Do quarto ao lado, ouviu o pingar de um choro miudinho. Virou-se de encontro à almofada e chorou pelos dois.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Ao Sol, uma felicidade possível

Ia até ao mercado vender cebolinho,
Logo de manhã, a compitar a aurora
Nos tempos mortos fazia d’adivinho
Entretendo a vista, esperando a hora

Lia os traços nas mãos dos mancebos
Dizia baixinho o que tinham de sorte
Guardando-as na vista e nos enlevos,
Medrosa de destapar rasgos de morte

Até que um dia, estava a feira deserta
Veio um rapaz de olhos cor de laranja
E ela, encadeada no Sol, logo desperta
Disse, Contigo meu coração se arranja

Ficou uma história feliz, vejam só…
Felicidade antes parecida impossível
Pois debaixo do Sol aquece-se o dó,
A confundir o obscuro no que é visível

Sol


Para todos os que buscam...

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A FELICIDADE É IMPOSSÍVEL

5
Alexandre acabou o curso de Direito e tendo obtido qualificação, por parte da ordem dos advogados, começou a exercer, como quase todos, com alguma dificuldade, mas muita motivação. Maria, por seu lado, cursou e concluiu psicologia. O seu mundo foi atulhado por teorias e convicções sobre determinismos comportamentais que, por vezes, justificavam a existência e, por vezes, só a confundiam.

A FELICIDADE É IMPOSSÍVEL

4
No início tudo parecia seda e mel. Os pais do Alexandre eram funcionários públicos com algumas posses e os pais da Maria eram empresários de sucesso, que fabricavam anilhas. Os progenitores, com as melhores intenções, permitiam, através de uma mesada, ao jovem casal uma vida desafogada enquanto estes acabavam os seus cursos superiores.
Mas os anos foram passando e o esmalte dos dentes foi sofrendo um desgaste que amarelece a vida.

Aqueles que carregam

Aqueles que carregam
A morte nos braços
Como quem carrega um filho
Inconsciente
São apenas o reflexo
Da mediocridade
Que nos consome a todos

Não acredito que se possa viver
Sabendo que já se nasceu morto

BOHUMIL HRABAL

Por se falar em Kundera, por – sempre – se lembrar Kafka, um outro sublime nome merece referência. Custará pronunciar, mas escreve-se assim: Bohumil Hrabal. Nasceu em Brno em 1914, licenciou-se em Direito, mas foi ferroviário, operário siderúrgico, agente de seguros, figurante de teatro e outras mais coisas. Foi proibido no seu país. Diz que a sua obra é quase toda autobiográfica. Diz dele Kundera que “é uma das incarnações mais autênticas da Praga mágica; é o incrível casamento do amor plebeu e da imaginação barroca”.
De entre os seus títulos (A terra onde o tempo parou, Comboios rigorosamente vigiados e – o mais aclamado – Eu que servi o Rei de Inglaterra) pode destacar-se “Uma solidão demasiado ruidosa”, livro que tem início com esta citação de Goethe: Só o sol tem direito às suas manchas.
Como acentuou o Le Monde des Livres, Nunca Hrabal disse tantas coisas em tão poucas páginas. E nunca ele mergulhou tão profundamente no escuro. Para dele voltar a sair, como habitualmente, resplandecente, de brilho e de riso. Uma solidão demasiado ruidosa é um mergulho no inconsciente do mundo.

“Quando a minha mãe morreu, chorei para dentro, não soltei nem uma lágrima. Ao sair do crematório, vi como o fumo da chaminé se elevava para o céu… a minha mãe subia maravilhosamente aos céus e eu, que trabalhava já há dez anos na cave do depósito de papel velho, desci para a cave do crematório, expliquei que fazia algo de semelhante com os livros, depois esperei, e quando a cerimónia acabou vi que tinham queimado ao mesmo tempo quatro mortos e a minha mãe fora a terceira. Sem um gesto, olhava os últimos restos humanos; vi o empregado retirar os ossos e moê-los num moinho de mão, moeu também os da minha mãe num moinho de mão, e só depois depositou os últimos restos da minha mãe numa lata, e eu lá estava parado a olhar fixamente, como quando se afastava o comboio que transportava os belíssimos livros para a Suiça e a Áustria, a uma coroa o quilo. Pensava nos fragmentos dos versos de Sandburg: de um homem sobra um pouco de fósforo que chegaria apenas para uma caixa de fósforos, e ferro que não daria mais do que um gancho para um adulto se enforcar.” Uma solidão demasiado ruidosa, Ed. Afrontamento, 1992.

A FELICIDADE É IMPOSSÍVEL

3
Conheci a Maria e o Alexandre quando ainda éramos adolescentes. A vida naqueles dias era fácil, apesar de considerarmos que era difícil e inútil.
Nada o fazia esperar, mas quando reparamos os dois estavam apaixonados e pouco tempo depois casados. O mundo parecia que se abria como uma rosa para aqueles dois jovens adultos, que sorriam enquanto partilhavam champanhe e pupilas gustativas.
Mas o futuro quase sempre é estranho e ganancioso…

caminho


No espaço que perdeste o rasto
Fui percorrer lamúrias de procura
Imaginando aquele pleno fausto
De te rever, justo à cintura.

Dava passo a passo
Sonhando o devaneio
De te intentar no espaço
Que se cuida ser a meio.

E me castigava desses pensamentos
Os que imaginava, só nesses momentos
Serem quase carnais e até obscenos
Quando só mortais, simples acenos.

Pois era o caminho que dava o alento
E ia sozinho, sem tino ou provento.
O caminhar é isso, só e afinal:
O encantar o sentimento pessoal.


"De que gosto? de literatura, whisky escocês e de adormecer logo. O trabalho é um rentável entretém que me ocupa as horas mortas. Vejo os filmes em casa, de todas s séries. Incomodam-me os barulhos das pessoas sentadas ao meu lado e gosto de rever as cenas mais macabras. por isso vivo sozinho. Quando preciso, conheço um massagista que é negro e silencioso como a noite. E de inverno nado. A minha mulher a dias vem todos os dias quer esteja ou não constipado. Se fosse mais bonita e menos surda casava com ela sem qualquer preconceito. Já julguei ser um génio. Agora acho-me um mero mortal desencontrado. Vivo, é já o bastante. Não vou a lado nenhum, mas isso já tu sabias". Pedro Paixão, A minha vida.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

ROTH - KUNDERA

ROTH – Lo característico de su prosa es la constante confrontación entre lo privado y lo público (…) usted continuamente nos está haciendo ver que los hechos políticos están gobernados por las miesmas leyes que los privados, logrando así que su prosa se convierta en una espécie de psicoanálisis de la política.

KUNDERA – La metafísica del hombre es la miesma en la esfera privada que en la pública. Tomemos, por ejemplo, el outro tema del libro, el olvido. Este es el gran problema privado del hombre: la muerte en cuanto perdida del yo. Pero, qué es el yo? Es la suma de todo lo que recordamos. Así, lo que nos aterroriza de la muerte no es la pérdida del futuro, sino la pérdida del passado. El olvido es uns forma de muerte que siempre está presente en la vida. Ése es el problema de mi protagonista femenino, que trata desesperadamente de preservar la evanescente memoria de su amado marido difunto. Pêro el olvido es también el grande problema de la política…

ROTH – En la sexta parte de su libro de las variaciones la principal protagonista, Tamina, llega a uns isla en la que solo hay niños. Éstos, al final, la acosan hasta la muerte. Es un sueño, un cuento de hadas, una alegoría?

KUNDERA – No hay nada más ajeno a mí que la alegoría, es decir la historia inventada põe el autor para ilustrar alguns tesis. Los hechos, reales o imaginários, han de tener significado per se, y el lector ha de rendirse ingenuamente a sua fuerza y su poesía. Siempre me ha perseguido esa imagen. Incluso, durante cierto período de mi vida, la soñaba de modo recurrente: alguien se encuentra de pronto en un mundo de niños, del que no puede escapar. Y la niñez, que tanto amamos y que tantos sentimientos líricos nos evoca, resulta ser un puro horror…

Philip Roth, El oficio: un escritor, sus colegas y sus obras.

terça-feira, 1 de abril de 2008







A FELICIDADE É IMPOSSÍVEL

2
A ideia de terem um filho, surgiu à Maria, num dia em que conversava (apresentava queixas) desinteressadamente com a sua mãe.
Para mim que conheço pessoas que resolveram ter um filho, quando morreu uma pessoa supostamente especial, esta ideia não me é nada estranha. Parece, no entanto, que o Alexandre, sentindo que aquela desinteressada ideia tinha como motivo final o quebrar de distâncias e o apertar (ainda mais) das ilhargas que o apertavam, não se mostrou muito favorável à ideia. Além do mais a concretização daquele pequeno objectivo passava por, sabe deus por quantas, horas e noites de partilha sexual e havia tantos programas inúteis a passar naquela televisão que os mantinha, ainda, unidos.

1.º de Abril

Dizias que é dia dos mágicos
Que da cartola tiram coelho
E com as artes de fantásticos
Te deixam bonita ao espelho

Não vês que é 1 de Abril, Vera!
E esqueces o encanto de tua graça
Que a tua mãe, mentirosa bera,
Te deixou a disfarçar e por pirraça

Waste Land

I. THE BURIAL OF THE DEAD

APRIL is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade,
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.
And when we were children, staying at the archduke's,
My cousin's, he took me out on a sled,
And I was frightened. He said, Marie,
Marie, hold on tight. And down we went.
In the mountains, there you feel free.
I read, much of the night, and go south in the winter.

T.S. Eliot (1888–1965). The Waste Land. 1922.

El-Rei

Quando chego - o piano estala agoiro,
E medem-se os convivas logo inquietos-
Recuam as paredes, sobem tectos-
Paira um luxo de Adaga em mão de Moiro.

Meu intento, porém, é todo loiro
E a cor de rosa, insinuando afectos.
Mas ninguém se me expande... Os meus dilectos
Frenesis ninguém brilha! Excesso de Oiro.

Meu Dislate a conventos longos orça.
Pra correr minha Zoina, aquém e além,
Só mítica, de alada, esguia corça...

-Quem me convida mesmo não faz bem:
Intruso ainda - quando, à viva força,
A sua casa me levasse alguém...

Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 31 de março de 2008

O Amante

O amante surge por trás
Como se fosse um criminoso
Cobrindo o Sol
E o ar
Criando o vazio com a sua presença

Sou filho pródigo
Em casa alheia
Alimentando a carne crua
Sentindo e vendo o pulsar
Destes rostos sem misericórdia
Ou sentimento

Nas horas
De abandono
Em que esta cidade
Estranha se dobra sobre si
Como uma cólica
Há sempre uma consciência de absurdo
E de desperdício

…
Nasce todos os dias para a vida
Ignorando
A ausência
Daqueles que a amam

E eu apenas sou a memória
Daquilo que fui

A FELICIDADE É IMPOSSÍVEL

1
A noite era a parte mais difícil do dia. A perspectiva de partilharem a mesma cama era aterradora para os dois. Por isso ficavam calados os dois, à espera do sono que não vinha, fingindo estar concentrados no programa que dava na Televisão, mas que, na verdade, não viam.
O ritual encenado que todos os dias praticavam na hora de deitar era um lento arrastar de corpos vazios onde já não havia nem alma nem química.
A distância era a única forma de lhes ser possível manterem uma imagem de normalidade que transpirava para o exterior.






domingo, 30 de março de 2008

de regresso, o Sr. Nogueira

Regresso de vista saudosa e encanto renovado, depois de uma ausência de recomposição, coisa que habitualmente se insinua como férias. Andei pela Estrada, saboreando o rigor de Cormac e fui-a percorrendo na lembrança dos tempos últimos do pai de Roth. Os génios não se distinguem e se – para alguns – apenas lá andam próximos, continua a não se saber como os graduar. E não é caso disso. Também já espreitei a Rosa Vermelha, na esperança que, todos os dias, menos custe a vida.

Depois de tantas ignorâncias, de si mesmo inconclusivas, regresso agora ao Sr. Nogueira (usando a expressão de AM) ou, de outro modo dito, ao Sr. Pessoa, agora na pessoa de Álvaro de Campos, engenheiro naval e poeta.

Trata-se de uma carta-resposta a um inquérito de A Informação, redigida no ano de 1926. As seis perguntas que justificaram a resposta eram:
1) Qual é, dos seus livros, aquele que mais estima?
2) Qual deles lhe trouxe mais admiradores?
3) Deve às suas obras alguma aventura amorosa?
4) Qual foi a maior compensação moral que lhe deu a literatura?
5) Algum dos protagonistas dos seus livros teve existência real?
6) Qual é a sua maior preocupação intelectual ao escrever
?

“1 – (…) Agrada-me estridentemente a “Ode Triunfal”, inserta em Orpheu 1. Sei bem que a “Ode Marítima”, trazida por Orpheu 2, tem mais construção e arredores; mas não esqueço que escrevi a primeira com emoção em linha recta, e que ela é a obra prima da sensibilidade moderna. São favores que devo aos Deuses: não quero ser ingrato para com eles, desreconhecendo-os.
2 – Tenho influído indeterminadamente em várias composições subsequentes, por não ter o segredo de ter influído nas anteriores. Mas não sei se me têm admirado aqueles que me têm admirado. O certo é que não tenho podido passar a minha emoção intelectual para os copistas da minha expressão dela. Mas contento-me com o que não me descontenta, e basta…
3 – Não costumo pôr à arte a canga da sexualidade. Confesso, contudo, que devo a uma obra minha, mas de maneira indirecta, uma aventura amorosa. Foi em Barrow-in-Furness, que é um porto na costa ocidental da Inglaterra. Ali, certo dia, depois de um trabalho de arqueação, estava eu sentado sobre uma barrica, num cais abandonado. Acabava de escrever um soneto – elo de uma cadeia de vários – em que o facto de estar sentado numa barrica era um elemento de construção. Aproximou-se de mim uma rapariga e entrou em conversa comigo. Viu que eu estava a escrever versos, e perguntou-me, como nestas ocasiões se costuma perguntar, se eu estava a escrever versos. Respondi, como nestes casos se responde, que não. A tarde, segundo a sua obrigação tradicional, caía lenta e suave. Deixei-a cair. É conhecida a índole portuguesa e o carácter propício das horas, independentemente das índoles e dos portugueses. Foi isto uma aventura amorosa? (…).
4 – A única compensação moral que devo à literatura é a glória futura de ter escrito as minhas obras presentes.
5 – (…) As coisas são sensações nossas, sem objectividade determinável, e eu, sensação também de mim mesmo, não posso crer que tenha mais realidade que as outras coisas. Sou, como toda a gente, uma ficção do “intermezzo”, falso como as horas que passam e as obras que ficam, no rodopio subatómico deste inconcebível universo.
6 – Não tenho preocupação intelectual ao escrever. Tenho a única preocupação de emitir emoções, deixando à inteligência que se aguente com elas o melhor que puder. Tenho o desejo de ser de todos os tempos, de todos os espaços, de todas as almas, de todas as emoções e de todos os entendimentos. Mesmo que tudo é nada para a alma que não cata piolhos na lógica, nem olha para as unhas na estética. Não podendo ser a própria força universal que envolve e penetra a rotação dos seres, quero ao menos ser uma consciência audível dela, um brilho momentâneo no choque nocturno das coisas… O resto é delírio e podridão”.






sábado, 29 de março de 2008

Rosa Vermelha Em Quarto Escuro




O regresso de Pedro Paixão, agora em nova editora.
"Salvo nos momentos de paixão em que vivemos a tremenda certeza de estarmos a ser quem somos. A sua última paixão chama-se Cate Blanchet. Uma actriz de cinema australiana. Uma actriz não é bem uma pessoa. Não é forçada a ser sempre uma mesma pessoa. Muda de pessoa. Tudo lhe pode acontecer. Muito diferente da habitual ansiedade de saber se algo vai ou não acontecer. A paixão é um engano em que nos queremos enganar mais do que tudo. Uma partida pregada pela vida que depois nos reconduz ao lugar quotidiano ao qual pertencemos e nos vai construindo e desfazendo. Dia a dia, todos os dias. O castigo de ter querido ser mais do que se é. Do que se pode. Ela pensa várias vezes em coisas deste tipo. Coisas que apelida do tipo inútil. Que não parecem ajudar. sem aprofundar muito. Com receio de pensar demais nisso e ficar retida algures numa dúvida cheia de perigos..."

MEANINGLESS LINES

I became good, and was despised.
I became bad; I hated was.
If good or bad I was not prized,
In good or evil, equal loss.

I became bad and good by turns,
And thus did but unite two ills.
The spleen that now within me burns
Therefrom, nor good nor evil stills.

Fernando Pessoa, Poesia Inglesa

sexta-feira, 28 de março de 2008

DOUBT

Tell me, tell me who dreams most -
He who sees the world aright
Or the man in dreaming lost?

What is true? What is't that seems -
The lie that's in reality
Or the lie tht is in dreams?

Who is unto truth less near -
He who sees all truth a shadow
Or he who sees dreams all clear?

He who is a good guest, or he?
Who feels alien at the feast?

Fernando Pessoa, Poesia Inglesa

caixa vazia

Palavras que ainda oiço agora
deslizam entre
a caixa da costura e os panos.
Abre-se as gavetas em escada,
cheias e ecos.
Os panos estão velhos e corroídos
por um pó azul estelar.
Sei-o porque hoje
bateu no céu o vento como panos.
Devagar abre-se
a caixa da pobreza de Pandora
que nos oferece desde o nascimento
a sua escassez.

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO, Cenas Vivas

Já a raiz é rio



As raízes/depois de pensadas/pesam

Um fio/com o peso da germinação/então um rio/condiz/raiz/com o chão

Já a raíz é rio/e sai do chão/com peso para cima/tal como cai/do pensamento a rima

É mais perfeito o peso/da raíz/quando se diz/que o pensamento a gera

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

Reflexões sobre o Sr. Pessoa



WHAT is the self? I cried./Come, show me where it lives./What is the coin it gives/ to buy my fratricide?

I know that I have brothers/who shyly haunt my dwelling/como whwn there's no foretelling/ depart to solace others:

and sometimes they and I/exchange our names and faces/ and walk familiar places/ under a changing sky.

One self would keep me tethered/chewing one cud of dreams/ forgetting the wild moon - beams/ ans storms that I have weathered.

Construct a thick-walled tower/and seal it with a name/the tower will stay the same/ but the name lose its power.

Be singular, be one/deny the spirit's flowing/in dying or in growing/ brook no companion

and find when night comes down/you journeyed round and round/ a barren patch of ground/ not moved through fied and town.

The poet eyed the key/that turned in the self's door/eyed ceiling, walls and floor/askance, distrustfully

wanting no final choice/of mask or diagram/no sealed-in 'this I am':/ needing his plural voice.

JOHN WAIN



Quase

Um pouco mais de sol – eu era brasa.
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada, foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim… -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mão de herói, em fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os meus precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

(….)

Mário de Sá-Carneiro

quinta-feira, 27 de março de 2008

Pastelaria Catita (V)

Os lençóis contornavam-lhe o corpo, a enrugar as mesmas desgraças. A luz do candeeiro trôpego escrevia sombras na cal da parede, ritmando o virar das páginas do livro gasto de surpresas. Em vão tentou conciliar o repouso. Do quarto ao lado, ouviu o pingar de um choro miudinho. A pena crescia-lhe ao pensar na do pai. O ridículo do desencontro invadia a casa. Virou-se de encontro à almofada e chorou pelos dois.

Teatro 2

O primeiro intrelocutor é um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um rabo mui comprido e üa cadeira de espaldas. E começa o Arrais do Inferno ante que o Fidalgo venha.

DIABO - À barca, à barca, houlá!
que temos gentil maré!
- Ora venha o carro a ré!
COMPANHEIRO - Feito, feito!
Bem está!
Vai tu muitieramá,
e atesa aquele palanco
e despeja aquele banco,
pera a gente que virá.
À barca, à barca, hu-u!
Asinha, que se quer ir!
Oh, que tempo de partir,
louvores a Berzebu!
- Ora, sus! que fazes tu?
Despeja todo esse leito!
COMPANHEIRO Em boa hora! Feito, feito!
DIABO Abaixa aramá esse cu!
Faze aquela poja lesta
e alija aquela driça.
COMPANHEIRO Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!
DIABO Oh, que caravela esta!
Põe bandeiras, que é festa.
Verga alta! Âncora a pique!
- Ó poderoso dom Anrique,
cá vindes vós?... Que cousa é esta?...
(...)

Auto da Barca do Inferno
Gil Vicente

Teatro 1

SCENE I. King Lear's palace.
Enter KENT, GLOUCESTER, and EDMUND


KENT
I thought the king had more affected the Duke of

Albany than Cornwall.
GLOUCESTER
It did always seem so to us: but now, in the

division of the kingdom, it appears not which of
the dukes he values most; for equalities are so
weighed, that curiosity in neither can make choice
of either's moiety.
KENT
Is not this your son, my lord?
GLOUCESTER
His breeding, sir, hath been at my charge: I have

so often blushed to acknowledge him, that now I am
brazed to it.
KENT
I cannot conceive you.
GLOUCESTER
Sir, this young fellow's mother could: whereupon

she grew round-wombed, and had, indeed, sir, a son
for her cradle ere she had a husband for her bed.
Do you smell a fault?
KENT
I cannot wish the fault undone, the issue of it

being so proper.

(...)
King Lear
William Shakespeare

Freixedas

O Centeio espalhando
Calor do Verão pelos campos
Escondendo no seu ventre
Repteis
E criaturas rastejantes
Provocando cansaço e o medo
Nas mulheres
Carregadas de fardos e de esperança

É longo o planalto
Feito de estrume e suor
Cortado por vales
Escondidos do vento seco
Que já se esqueceu do mar

Giestas
Aguardando o improvável

Battlestar Galactica vs. Star Wars

A pensar no amigo viriato...

"Molti mari e fiumi"


Passe a publicidade, eis a versão unplugged .

gianna nannini - meravigliosa creatura

A pedido de um amigo...

quarta-feira, 26 de março de 2008

Pastelaria Catita (IV)

O pai balouçava-se na cadeira de castanho, escondido nas folhas do Notícias que puxaram às centrais o escândalo da primeira página. Uma nora descabelada, desalmada de instintos, diluíra remédio dos ratos na gasosa da sogra e foram escassos instantes até que a santa se esticou. Rosarinha subiu os degraus a acautelar-se, silente como quem pisa neve, e rodou a chave com o cuidado de gatuno de cofre. O pai, mesmo assim, agitou-se e, depois de piscar os olhos de sete décadas, olhou os dela. Rosarinha fez por disfarçar o desencanto, mas a um pai que filha engana? Apercebendo-se, logo cogitou não acrescentar o drama. Desejou-lhe as boas noites e desculpou-se com o cansaço de um dia longo. Rosarinha foi esquentar uma verbena para melhor acolher os lençóis saudosos.

terça-feira, 25 de março de 2008

Puro Vintage

De lâmina em riste, António tentava não cortar a cara, nessa aborrecida empresa quotidiana de aparar aquilo que já ia sendo a sua barba grisalha.
Todos os dias, com excepção do Domingo - dia de grandes sofrimentos, vividos junto a uma fanhosa telefonia de um "esférico rolando sobre a erva", ora impiedosa, ora triunfal -, aquele era um ritual que envolvia uma certa arte de concentração, destreza, precisão e paciência.
Um marco ritual da sua passagem à idade adulta, António, lembrava-se bem do dia em que seu Pai, o senhor Zeferino, lhe disse para começar a cortar aquela "barba de mancebo", porque lhe daria um ar mais apresentável lá no armazém onde já trabalhava há dois anos como pequeno grumete.
De grumete a fiel, foi subindo na vida e estava agora responsável por todo aquele vetusto edifício de enorme pé direito e com grandes portadas de madeira de castanho.
Entre um pequeno corte e um pequeno fio de sangue, os impropérios sussurados para si próprio, apenas cessavam no gesto seguinte: mergulhava a cara na bacia de porcelana do lavatório, na água tépida previamente regurgitada por duas torneiras prateadas - uma de quente, outra de frio -, limpando os restos de creme de barbear aplicado na face, ao pincel, esperando um qualquer alívio para aquele rubor ardente.
Perfeccionista, pegava naquele balsâmico "Musgo" meio mentolado que se queria para a realeza, para as "Pessoas de Primeira Categorya e Qualidade" (o maior desejo de uma classe média vitoriosa), e cobria a cara de espuma, tirada em mais umas quantas conchas de água.
Em breves gestos levava à cara o verde e áspero turco atoalhado, encontrado no varão fixo ao azulejo branco da parede, olhando-se depois ao espelho com a sensação de dever cumprido e em estado de total prontidão.
Ao sair do quarto de banho, toalhão de banho aos ombros, lá ia todo lampeiro vestir-se.
No lavatório, permanecia essa gasta barra de sabonete com óleo de côco, o mesmo desde os seus tempos de petiz. Um "must" ainda muito antes de nascer tal conceito, mas que dava aos dias úteis um sentido de confiança, de permanência e de certeza de que iria ser sempre assim.
Os clássicos em espuma no seu melhor.

(Um mote avulso numa esplanada onde se bebe nostalgia)

segunda-feira, 24 de março de 2008

Pastelaria Catita (III)

A noite ia já escurinha quando volveu a casa, só umas luzes fatigadas faziam de pirilampos. Também o coração lhe estava pouco iluminado. Andava a mãe pela Beira, à beira das tias anciãs que depenicavam afazeres de lavoura perdulária. Pensou frigir um ovo, a burlar o estômago. Mas atormentava-o o desencontro. Tinha que deixar nas letras o desgosto que o atravessava. No papel rosado, redigiu
Menina Rosarinha. Predilecta.
Daqui lhe entoa, suplicante, o Calisto que seus olhos apartaram, deixando os dele turvados de pranto.
Bebeu um vaso de água fresca e sacudiu-se. Voltou à suave pena, lavrando as que o padeciam.

domingo, 23 de março de 2008

manha

Ergo-te os olhos tímidos, anfitriã
Varado dum brusco receio do não
Como se eu fosse Adão, e a maçã
Me impusesse destino e condição

Sacando-me a diminuta liberdade
De mesmo junto a ti, eu não pecar
Como sendo mentira, não verdade
Que penso entregar-me sem pensar

De desculpas do fado não careço
Quando a vontade irmana destino
Sei, de início, a soma que mereço
Na conta em que faço d’adivinho.

No Gira Discos



A banda sonora perfeita - porque acolhedora - para este gélido início de Primavera. Também à beira da Catedral, numa esplanada com aromas perfumados.

(Rita Redshoes - Dream on Girl)

sábado, 22 de março de 2008

O Senhor do Olá


Preenche as páginas 90 e 91 da revista Única do último Expresso.
Chamam-lhe o Senhor do Adeus, mas ele é o Senhor do Olá.
A identidade oficial, no entanto, revela-o como o Sr. João Manuel Serra.
Tem 78 anos. Usa óculos de moda antiga, que não o impedem de ver todos os que o saúdam e a quem ele saúda.
Acena no Saldanha (Lisboa) a partir da meia-noite.

O texto (entre o depoimento, a criação e a entrevista) tal como a fotografia (em que se multiplica num único aceno) é de Ana Sofia Fonseca.
Está muito além do belo.
A solidão é a senhora malvada que persegue o Senhor do Olá.
Ele avisa da fantástica mudança do mundo, que até no cinema trocou a pieguice pela tecnologia.
E diz assim, na palavra de quem o canta:
A vida dá estranhas voltas, o meu destino é acenar a quem me cumprimenta. ESTOU SUJEITO A QUE ME CHAMEM MALUCO, MAS NÃO ME IMPORTO. DA MINHA SOLIDÃO, SEI EU.

Pastelaria Catita (II)

O senhor Calisto regressou tombado de desânimo. Carregava uma sombra pesada que lhe fazia de vulto, mas a noite respeitosamente escondia. Seis de aguardente, bebera-a de trago e o estômago voltou a arrefecer. A noite vinha pálida e fria. Apertou o último botão do sobretudo cinzento, esfregou uma mão na outra e estugou o passo. Antes de recuperar o Amarelo, resolveu abeirar-se do rio, olvidando por instantres o cacimbo. Ali lavou os olhos, a estender a vista na corrente.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Toque do Paraíso

Foi preciso algum tempo até me aperceber que a amava.
Só quando senti que o interesse dela por mim esmorecia me apercebi da real dimensão do meu amor. Todos aqueles momentos, que me pareceram banais quando os vivi, surgiam então na minha memória emoldurados numa substância mágica, que preenchiam o corpo de um doce formigueiro e a alma de um suave sorriso. Mas sentia que ela esquecia esses momentos…

Primavera


Cristo na Cruz

El Cristo de San Juan de la Cruz, 1951,
205 x 116 cm., óleo sobre Tela
Salvador Dali

Glória

Esta é minha maior glória;
Ser poeta...
Estar vivo
E não viver.
Sentir,
Sentado, a dor daqueles que desconheço.
Estar só ainda que acompanhado,
Sofrer e desejar, acima de tudo,
Ser amado.
Esta é minha maior glória;
Ser poeta...
Estar morto
E viver.
Recordar em cada passo a dor que senti,
Abandonar a vida
Ainda que preserve esta esperança;
Procurara alguém para amar
E ser amado

Poética

O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, e é a sua moral. E não há outra. Neste mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças, esquecendo-se, e é Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser a palavra de escândalo no sei do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer são capazes de imaginar. Palavra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência (...).
Eugénio de Andrade, Rosto Precário

profetas

Profetas falsos vieram em teu nome
Anjos errados disseram que tu eras
Um poema frustrado
Na angústia sem razão das Primaveras.

Porém eu sei que tu és a verdade
E és o caminho transparente e puro
Embora eu não te encontre e no obscuro
Mundo das sombras morra de saudade.

Sophia, Mar Novo

Sexta-Feira Santa

Na carne adormecido...
Deus morto, Deus imortal.
Magistral discurso
o altar vazio e despojado
no centro de uma Sarça Ardente
de flores em botão e ramos e
inclinados rostos em chamas.
O tremendo documento
do cordeiro branco
emoldurado de trágicas jóias
- Deus imortal, Deus morto -
onde, graça ou condenação,
apenas por intuição na cruenta púrpura
era concedido assinar ao cálamo do Autocrata.

Cristina Campo, O Passo do Adeus
(trad. de José Tolentino de Mendonça)

ah!, poesia...

Poesia sou
Metade do que canto
Caminho onde vou
A cada espanto.

Verbo que deixo por dizer,
Cidade que ilumina o meu escuro;
Ou hino de chuva por chover,
Ramo de gladíolos que procuro.

Tivera eu verso presto
Te cantaria, Poesia.
Eu sei que tudo o resto,
Isso sim, é fantasia.

dia mundial da Poesia

DOLORA

Dantes que quão ledo afectava
Uma atroz melancolia!
Poeta triste ser queria
E por não chorar chorava.

Depois, tive de encontrar
A vida rígida e má.
Triste então chorava já
Porque tinha de chorar.

Num desolado alvoroço
Mais que triste não me ignoro.
Hoje em dia apenas choro
Porque já chorar não posso.

Fernando Pessoa, 1908.



TANTO DE MEU ESTADO…

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
Da alma um fogo que sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra chego ao céu voando,
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha senhora.

Luís Vaz de Camões, Sonetos.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Palavra

Palavra.

No início havia o silêncio.

Um silêncio feito de instintos e de ruídos sem sentido, que colocavam o Homem ao mesmo nível da realidade que o rodeava. A comunicação surgia de uma forma instintiva e imediata. Apenas se vivia o momento; não havia passado e o futuro era algo que ainda teria de ser criado.

Depois surgiu a palavra.

( Para alguns, uma dádiva de Deus que permitiu ao Homem fazer uso da mentira.)

Com a Palavra surgiram os conceitos; uma forma quase virtual de retratar a realidade sem que haja necessidade de a tocar. E o Homem alcançou um patamar diferente de tudo aquilo que o rodeava. Foi por fim, capaz de sonhar enquadrando a insegurança e o medo em mitos elaborados em longas noites, que se iam consumindo ao sabor do crepitar lento, mas constante, das fogueiras da imaginação.

O Passado e o Futuro poderam, por fim, tocar-se unidos pelo filamento que é o Presente. As diversas gerações foram então capazes de comungar os diversos Presentes deixados pelos antepassados desconhecidos, mas sempre presentes, em rituais que alimentam a memória colectiva, que alimentam a palavra e a sua evolução.

E o Homem foi crescendo à medida que a palavra se ia desenvolvendo.

Por fim ressurgiu o Silêncio.

Um silêncio feito de palavras. Palavras feitas de solidão e incompreensão, criadas num discurso hermêutico ao qual é praticamente impossível o acesso.

A palavra desuniu-se do Homem e da realidade que o rodeia. A palavra criou um espaço próprio, deixando naqueles que a usam uma estranha sensação de desadequação.

A comunicação foi lentamente retomando o seu carácter instintivo e imediatista, que teve nos primeiros dias.

Fé

Acreditar
Já não é um acto de fé
Acreditar
É estar vivo
Sentir saudades em cada suspiro
Misturar vinho broa e ignorância
Acreditar
É fazer corresponder trajectos
Como uma criança que brinca desinteressadamente
Apenas para não perder o lugar ou o futuro
Acreditar
É no fundo o abandono
Apenas na dúvida as pessoas se afirmam
É por isso que acredito
Na dúvida

A bela e pura...

A bela e pura palavra Poesia
Tanto pelos caminhos se arrastou
Que alta noite a encontrei perdida
Num bordel onde um morto a assassinou.

Sophia, Mar Novo

Busca

Quem me negou
Esta vontade de busca?
Quem se esconde encoberto pela hipocrisia,
Tomando, desta forma, aquilo que
Em princípio seria meu?
Porque acabei com a busca,
Sabendo que sem ela nada sou.

Lucas, XXIII

Gentil o hebreo o simplemente um hombre
Cuya cara en el tiempo se há perdido;
Ya no rescataremos del olvido
Las silenciosas letras de su nombre.

Supo de la clemencia lo que puede
Saber un bandolero que Judea
Clava a una cruz. Del tiempo que antecede
Nada alcanzamos hoy. En tu tarea

Última de morir crucificado,
Oyó, entre los escárnios de la gente,
Que el que estaba muriéndose a su lado
Era Dios y le dijo ciegamente:

Acuérdate de mí cuando vinieres
A tu reino, y la voz inconcebible
Que un dia juzgará a todos los seres
Lo prometió desde la Cruz terrible

El Paraíso. Nada más dijeron
Hasta que vino el fin pero la hiatoria
No dejará que muera la memoria
De aquella tarde en que los dos murieron.

Oh amigos, la inocencia de este amigo
De Jesucristo, esse candor que hizo
Que pidiera y ganara el Paraíso
Desde las ignominias del castigo,

Era el que tantas veces al pecado
Lo arrojó y al azar ensangrentado.

Jorge Luis Borges

Pastelaria Catita (I)

Tinha o coração desarrumado, logo naquela hora do dia em que o Sol se habituou a mandar beijos, trinados num “até amanhã”. As acácias já não filtram as venturas luminosas e, com o tempo em que se perdera, receava perder o troco dos olhos, que marcara na agenda rosa, semana e meia passada. Mesmo assim, desceu à Baixa em passo de andarilha, socorrendo-se do primeiro Amarelo. Foi com a Pastelaria Catita ao alcance da vista (nesse instante preciso o dia soltara o derradeiro beijo) que viu o vulto fugidio do senhor Calisto. Não era menina de arremessar um grito. Não! Nem com o sentimento a pressionar-lhe a garganta. Susteve a lágrima e o passo.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Segredo

Sei bem como é viver em segredo.
Escrevendo letras ilegíveis
Nas paredes
Capturando o Nome
Tornando real o amor
Sei bem como é viver em segredo.
Carregando fardos de dor
Pelas ruas estreitas da cidade
Deixando marcas ilegíveis nas paredes.

em cada dia, Pai

Foi naquele largo abraço forte que doía
Em que me apertaste ao mundo inquieto
(Na tarde em que o teu pai suave partia)
Que me senti inteiro teu filho completo.

Três rugas na testa são produto meu
Aquelas que do Toni não careceram
Talvez de confundir o chão e o céu
E as coisas que sempre se nos erram

Mas sei que tê-las é um gosto teu
Sulco da honra ensinada a partilhar
E que fazendo crente qualquer ateu
É pão e rosas que me obrigo a cuidar

Todo o mundo que hoje vejo nem existe
Não sei se é feito em forma de realidade
É fruto só teu, imenso ser que me persiste
E me lembra em cada instante: Liberdade.

Podia rimar-te ali o verso com Bondade
Que sempre tens no coração assim fazer
Nem mentiria se escrevesse ali Verdade
Mas na liberdade gosto de te agradecer.

terça-feira, 18 de março de 2008

História deste galo

Quando os meus amigos decidiram fundar esta revista, não sabiam dar-lhe nome. Eu conhecia a história do galo de don Alhambro, mas não me atrevia a ressuscitá-la. Há dias, porém, todos os redactores surgiram contentíssimos em minha casa. Traziam um galo admirável. Era de penas azul–Rolls-Royce e cinzento-colonial, com todo o pescoço de um delicioso azul-Falla que ficava mais carregado nos esporões.
- De onde é este galo?
- Sou o galo de don Alhambro!
- Então que fuja daqui! – gritaram todos.
- Renovei-me para vir à vossa procura, e poder subir ao título por que tanto anseio e para o qual fui criado.
- A mim, o título que me agrada é O suspiro do Mouro – disse eu.
- E a mim, Romeu e Julieta – disse outro.
- E a mim, Copo de Água – repetiu uma voz fina.
- Valha-me Deus, senhores! – gritou o galo. – Não peço que tenhais a ideologia de don Alhambro; eu próprio já mudei de opinião. Mas não me expulseis por causa da minha história. A isso não consigo resistir. Nada pode fazer-se aqui sem contar com a história. Sou belo. Anuncio a madrugada e serei sempre insubstituível como divisa.
Houve uma discussão violentíssima, em que o galo era suave a suplicar.
- Basta, meus amigos – disse eu por fim, em tom enérgico. – Sob minha responsabilidade, sobe ao título!

Abrimos a sacada e o galo ascendeu ao título com todas as suas penas incendiadas. E já na barra do título a todos nós saudou de maneira inefável. Maneira de água e jacinto. Poema de quem parte uma guitarra sobre o mar do amanhecer. Dália na oliveira e bosque na mão. Jogo e mentira.

Frederico Garcia Lorca
(Anjo e Duende, Assírio & Alvim)

Exposição


Aconselho a todos aqueles que perderam a inauguração desta exposição e que tenham oportunidade para que se dirijam ao Centro de Artes Visuais de Coimbra.
Michael Borremans, artista belga que se dedica à pintura e ao desenho claramente figurativos de origem fotográfica, tem vindo a merecer uma atenção crescente da critica internacional, com exposições efectuadas em algumas das mais prestigiadas instituições europeias e americanas. A sua obra, sendo oriunda da tradição surrealista da Europa central, possui uma intensidade que o tem vindo a colocar ao lado de pintores como Luc Tuymans e uma estranheza matizada com uma mestria técnica que ironiza a grande tradição pictórica.Nesta exposição, Borremans apresenta também um conjunto de filmes inéditos que tratam os mesmos temas da sua pintura e desenho.

em nome do Pai

Antecipando o dia (apenas nesta Jardim Atlântico, pois o tempo é mesmo muito relativo e São José já nasceu em tantos pedaços de Mundo…) copio dois poemas “em nome do Pai”. Precisamente da antologia com esse nome (Modo de Ver, editores e livreiros, lda – jornal Público).


A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha
.

Miguel Torga, Bucólica.


O que não fizermos sozinhos,
fazemo-lo agora solitários
recriando a natureza
até nos filhos dos outros.
Devolvendo amor de pai
ambientando em lembranças
vivas, tão vivas!, que a morte
nada pode contra elas.
Condição mais do que dúbia,
mas certa. Educar os filhos
a serem igual aos pais,
tal como foram amigos
ou lhes criámos a imagem.

Porque os pais são mortos vivos
e nós somos vivos mortos.

Reparem os meus ouvintes:
eu não me quero sentir morto
e chamo aos filhos dos amigos
os meus filhos.

Ruy Cinatti, Didáctica

Chuvas da Estação



Para tardes de chuva...

(Michael Nyman - The heart asks the pleasure first (The Piano - OST)


Também numa Esplanada abrigada.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Nebulosa

Barras-me num limite fluido
Aí envolves o a que não chego
Simuladora transparência, vidro
Tento de evaporar o mútuo medo

Se nos chegarmos um pouco mais
Ainda que o receio domine o gesto
Já acredito que acertei, e tu não sais
Porque aceitas que a vida vale o resto

Jogamos desse modo às escondidas
Entre todo o amor e o amor p’ra ter;
Mistura de cautelas e de desmedidas.
Dúvida tanta entre o querer e o poder.

gare


O mar acabara

O mar acabara para os olhos de Macário, naquela noite. A areia frágil também acabara, e o rochedo esburacado como uma esponja pela erosão, e a sua laca de espuma e de sol, e debaixo dos barcos virados, as redes amarfanhadas em que os peixes morriam e o amor, às vezes, principiava. Pousava nas mulheres o cheiro do mar, impregnava-as até aos ossos através das saias e das blusas, de modo que os seus corpos se abraçavam ondas solidificadas de água.
Maria Gabriela Llansol, A terra fora do sítio

Pensaste já...?

Pensaste já, ó Outra, quão invisíveis somos uns para os outros? Meditaste já em quanto nos desconhecemos? Vemo-nos e não nos vemos. Ouvimo-nos e cada um escuta apenas uma voz que está dentro de si.
As palavras dos outros são erros do nosso ouvir, naufrágios do nosso entender. com que confiança cremos no nosso sentido das palavras dos outros. Sabem-nos a morte, volúpias que outros põem em palavras. lemos volúpia e vida no que outros deixam cair dos lábios sem intenção de dar sentido profundo.
A voz dos regatos que interpretas, pura explicadora, a voz das árvores onde pomos sentido no seu murmúrio - ah, meu amor ignoto, quanto tudo isso é nós e fantasias tudo de cinza que se escoa pelas grades da nossa cela!
Bernardo Soares

domingo, 16 de março de 2008

A LENDA DOURADA e linda
Que me contaram outrora
Em minha alma dorme ainda
Mas é outra lenda agora.

Antigamente falava
De fadas, elfos e gnomos;
Hoje fala só da escrava
Indecisão que nós somos.

Mas elfos, gnomos e fadas,
Vistos certos, que mais são
Que as projecções enganadas
Dessa nossa indecisão?

Criamos o que não temos
Por nos doer não o ter,
E quase tudo que vemos
É o que ansiamos por ver.

Depois, cansados daquela
Visão que viu só o nada,
Fechamos toda a janela,
Ficamos na alma fechada.

Mas ainda esses entes todos
Que outrora eram visão,
Bailam mesmos, e inda a rodos,
Mas só no meu coração.

Fernando Pessoa, 1934.

sábado, 15 de março de 2008



Pergunto se é suficiente fugir

e a luz chama-me à varanda.

Mostra-me o mundo e diz:

"é tudo teu... assim voes!"

Recuo a casa, puxado na mão da fé:

O Mundo, ainda bem, é o que é!




No time to stop and think



The only hope is the next drink.
If you like, you take a walk.
No time to stop and think,
The only hope is the next drink.
Useless trembling on the brink,
Worse than useless all this talk.
The only hope is the next drink.
If you like, you take a walk.

Malcolm Lowry
(As cantinas e outros poemas do álccol e do mar)