segunda-feira, 7 de abril de 2008

Inquérito

Na sequência do meu regresso, acompanhado do Sr. Nogueira (cf. postagem de 30.03.08, infra), foi transmitida uma entrevista/resposta do eng. Campos (íntimo do aludido Nogueira) onde dava palavra a interrogações de A Informação, nos idos de 926. Célere, veio ilustre anónimo colocar questões similares, em nome do Sr. Nogueira e dirigidas à penasuave. Sendo eu apenas copista, comprometi-me a aproveitar o compromisso inicial de AM e fui insistindo para que fornecesse letra ao oportuno inquérito. Vacilou e, mais à frente, exigiu o – impossível – anonimato. Negociou-se novamente e condescendeu.
As questões colocadas (cf. comentário 1, 31.03.08.0:33, infra) são idênticas às que respondera o engenheiro poeta, salvo na percepção da inexistência de livros e consequente transmutação daqueles em textos ou escritos. Daí a desnecessidade da repetição.

As respostas colhidas são as que se seguem:

1) Os filhos, mesmo quando alguns, desvairados em leviandade, se suspeitam ilegítimos, são sempre, na justa medida em que a razão nos acautela o sentimento, igualmente estimados. Sejam eles prosados, sejam eles poéticos, nascem de actos de arrependimento, impossíveis de graduar.
2) Admirar-me-ia que a ousada desvergonha do reconhecimento me chegasse à vista. E ainda bem: seria sintoma de um deleite prematuro e, por isso, precário, filho eventual da congeminação de um autor hipotético que não da vera arte da obra. Mas não querendo iludir a demanda, sempre acrescento que o Sr., meu tutor, tem alguma apreciação favorável aos poemas do mar.
3) Longe disso. Creio que têm o efeito contrário, ainda que não possa apresentar dados. Quase suspeito que o amor nem sequer é uma aventura. Não tenho certezas, porém.
4) A única compensação moral é poder dizer que perdi o tempo que igualmente perderia e acrescentar poder desconfiar como o perdi.
5) Todos os protagonistas dos meus escritos têm existência real. Sucede que eu (quase) a não tenho, o que dificulta exponencialmente a percepção. Não tomo, de todo o modo, a realidade como uma coisa muito segura.
6) O acto de escrever é uma pulsão narcísica. Porém, nada indica que seja pior que todas as outras que nos preenchem os dias. Nesse contexto, não representa qualquer militância, mesmo que todas represente. Nada fazemos por acaso, mas só o acaso nos permite fazer. No mais, com todo o respeito, não percebo o sentido de “preocupação intelectual” e talvez, se ainda a entendo, a única que tenha é a de não dar muitos erros ortográficos.

5 comentários:

Anónimo disse...

"O que aqui encontramos é ou sujeito ou objecto, arma ou qualquer tipo de técnica utilizados na batalha ou no jogo— e tudo isso se torna importante para julgar quem sai vencedor, se o há , seja quem sai vencido...se o houver!"

"Em seus caramujos,
os tristes sonham silêncios.
Que ausência os habita?"

Anónimo disse...

"Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar."

António Gedeão

Anónimo disse...

Rosa de Hiroshima

"Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada"


"Filhos que nascem de actos de arrependimento, impossíveis de graduar"
E morrem de actos...deixo ao seu critério,de intelectual,claro,sem dúvida,sem dúvida!
...amor....felicidade...narcisismo...inquéritos mil...trocadilhos...

(acredite,porque eu sei, que um FILHO é um POEMA;se um poema é um filho,não tenho a certeza.Contudo,concedo-lhe...com duvidas,o benefício da dúvida!)

Anónimo disse...

Ouvirás muitos dizerem: ‘aos cinqüenta anos me refugiarei no ócio, aos sessenta estarei livre dos meus encargos’. E que fiador tens de uma vida tão longa? E quem garantirá que tudo irá conforme planejas? Não te envergonhas de reservar para ti apenas as sobras da vida e destinar à meditação somente a idade que já não serve mais para nada? Quão tarde começas a viver, quando já é hora de deixar de fazê-lo. Que negligência tão louca a dos mortais, de adiar para o quinquagésimo ou sexagésimo ano os prudentes juízos e a partir deste ponto, ao qual poucos chegaram, começar a viver.

Séneca

" Nada fazemos por acaso, mas só o acaso nos permite fazer."

carpe diem disse...

Ao Séneca...

"fui para os bosques para viver deliberadamente
para sugar todo o tutano da vida.
Para aniquilar tudo o que era a vida
e para, quando morrer, não descobrir que não vivi."

Keating (dead poets society)