terça-feira, 30 de setembro de 2008

O tempo da exausta quietude

- Os banheiros arrecadam a lona humedecida pesada das últimas tendas acomodam-se ao canto ratando a côdea de um pão de milho. as vidas adiadas que durante todo o mês esperaram a abertura de vastos continentes essas apressam-se a encerrar sua alma nos caixotes pregados nas maletas de pele que vai esfolando. mas há quem ganhe com tal suicídio: são as aves marinhas claras e gris que retomam agora agora sua pátria invadida. companheiras da chuva concentram-se na areia dura batida e fuliginosa da beira das ondas. é o tempo da exausta quietude.
ffsfdsfdsfsadf
Mário Claúdio, Setembro
as máscaras de sábado

Super Trouper

No meu currículo cinéfilo, contam-se pelos dedos de uma mão os musicais que vi. Na verdade, não é um género que me fascine muito, uma vez que a maior parte do tempo é passado a dançar e a cantar, não havendo grande trama dramática, mas apenas muitas carinhas estupidamente bem dispostas.

Contudo, este é o filme que, segundo os meus cânones estéticos, constitui essa sublime excepção. Mama Mia relata uma aventura de descoberta, reencontro e amores perdidos em anos já passados, quando a distância não se media por mensagens de telemóvel ou até mesmo correios electrónicos. Amores de Verão que realmente possuíam esse toque de lenda e nostalgia, traduzidos em vagas promessas de regresso. Um regresso que, no caso do filme, acaba por ser imposto por quem não se contenta em viver como "filha de pai incógnito"!

De facto, é nas vésperas do seu casamento com um garboso grego - não muito ao estilo de Zorba, é certo - que Sophie (Amanda Seyfried) decide vasculhar o passado da sua mãe Donna (Meryl Streep), para descobrir quem, afinal de contas, será o seu pai. Como termo final das investigações, a jovem decide convidar os três candidatos mais prováveis para o seu casamento. E aqui as peripécias mais divertidas começam a acontecer.

Com música dos ABBA, helénicos cenários e interpretações geniais de Pierce Brosnan e Colin Firth - pois descobrimos os seus talentos para as cantigas -, Mamma Mia nunca poderia deixar de me agradar. Uma pérola do revivalismo, cheia de clichés, mas que, mesmo assim, mais do que distrair, refresca - tal e qual como no fim do filme.

Post originalmente publicado aqui.

Gata em Telhado de Zinco Quente

"Cat On A Hot Tin Roof" (1958 - 104m)
REALIZADOR Richard Brooks

INTÉRPRETES Elizabeth Taylor, Paul Newman, Burl Ives, Jack Carson, Judith Anderson, Madeleine Sherwood, Larry Gates, Vaughn Taylor.

Paul Newman ganhou a sua primeira nomeação para um Oscar, pela sua interpretação de Brick, o perturbado antigo herói de desporto.

Love Will Tear Us Apart - Joy Division

Acabado de ver o Documentário, com o mesmo nome, aqui fica a homenagem aos Joy Division

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

esse mês perdido nas rugas do tempo...

wwwwwwwwwwww Y cómo se llama ese mes
wwwwwwwwwwww que está entre Diciembre y Enero?

wwwwwww Con qué derecho numeraron
wwwwwww las doce uvas del racimo?

wwwwwwwwwwwwwwww Por qué no nos dieron extensos
wwwwwwwwwwwwwwww meses que duren todo el año?

wwwwwwwww No te engañó la primavera
wwwwwwwww con besos que no florecieron?

Pablo Neruda, Libro de las preguntas, XLVI

túnel das memórias e da gratidão

nnnnnnnnnn No será nuestra vida un túnel
nnnnnnnnnn entre dos vagos claridades?

nnnnnnn O no será una claridad
nnnnnnn entre dos triángulos oscuros?

nnnnnnnnnnn O no será la vida un pez
nnnnnnnnnnn preparado para ser pájaro?

nnnnnnnn La muerte será de no ser
nnnnnnnn o de sustancias peligrosas?

Plablo Neruda, Livro de las preguntas, xxxv

domingo, 28 de setembro de 2008

O tempo (no) futuro

wwww O tempo presente e o tempo passado
wwww Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
wwww E o tempo futuro contido no tempo passado.
wwww Se todo o tempo é presente eternamente,
wwww Todo o tempo é irredimível.
wwww O que podia ter sido é uma abstracção
wwww Que fica em perpétua possibilidade
wwww Apenas num mundo de especulação.
wwww O que podia ter sido e o que foi
wwww Apontam para um só fim, sempre presente.
wwww Passadas ecoam na memória,
wwww Descendo o caminho que não tomámos
wwww Em direcção à porta que nunca abrimos
wwww Do jardim das rosas. Assim ecoam
wwww As minhas palavras na tua mente.
khkljdhnnnnnnkljffhflfdffdsffdasdasd Mas qual o desígnio,
wwww Turbando o pó de um vaso com folhas de roseira,
wwww Não sei.
wwww (...)

wwwwT. S. Eliot, nascido a 26 de Setembro de 1888
wwwwn The Four Quartets
wwwww trad. João Ferreira Duarte

Como o poeta...

Aborrece-me o som dos que respiram fundo
Como se, a uma vez, aspirassem o mundo;
Aborrece-me o riso dos que vendem lotaria
Como se, em sortes, comprássemos alegria.

É tentador imaginar ser outro o mundo:
Aquecer a Islândia de um simples aceno
E por magia, com o condão dum segundo
Regar o Saara inteiro c'as águas do Reno.

E fazer com que os homens fossem bons
E as mulheres, tal qual, e muito amigas;
Cada um pintando a vida nos seus tons
Como o poeta gosta d'enfeitar as raparigas.

(30.01.2008)

..... OTOÑO

hh Caen las hojas y parece que llegaran de lejos,
hh como si en cielo se fueram marchitando jardines muy lejanos;
hh caen y dicen con sus gestos: no.

hhh Y en la noche cae, pesada, la tierra.
hhh Desde todos los astros cae la soledad.

hh Caemos todos. Esa mano cae.
hh Mira las otras: pasa en todas lo miesmo.

hhh Y hay alguien sim embargo que sostiene la caída
hhh con dulzura infinita entre sus manos.

hh Rilke, El libro de las imágenes, 1906
hhh (traduccíon de Antonio Pau)

A Oração do Ateu

hhhhhhhh Ouve meu rogo Tu, Deus que não existes,
hhhh e em teu nada recolhe minhas queixas,
hhhh Tu que aos pobres homens nunca deixas
hhhh sem consolo de engano. Não resistes

hhhhhhhh a nosso rogo e nosso anelo vistes.
hhhh quando de minha mente mais te aleixas,
hhhh mais recordo as histárias, as endeixas,
hhhh com que minha ama me adoçou noites tristes.

hhhhhhhh Que grande és Tu, meu Deus! tu és tão grande
hhhh que és só Ideia; escassa é a realidade,
hhhh se o mais que pode ela se expande

hhhhhhhh para abranger-te. Por ti sofro, é verdade,
hhhh pois se existisses, Deus não existente,
hhhh também eu existiria veramente.

hhhh Miguel de Unamuno (1869 - 1936),
hhhh Antologia Poética (selec. e tradução de José Bento)

Genius of Caravaggio

Em dia de aniversário

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

EM SILÊNCIO DESCOBRI ESSA CIDADE NO MAPA

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.
Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gotade seiva lenta numa tábua aplainada.
Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixe
sem silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapado mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.
Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorreem silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.

Herberto Helder

Como um direito

a gota desliza sobre o orvalho
sem que os ramos desnudados
do Inverno se queiram aperceber.
vou deitar-me sobre o tempo
e não me deixar dormir.
e sofregamente sonhar
sonhar, na mesma
como se fora um direito próprio.

(21.01.2008)

Mãos roubadas

dá-me de volta as mãos que me roubaste
e que trocaste, sem cautela, num repente
como quem esgalha da cerejeira a haste,
quando disseras serem tuas para sempre.

se as querias e não cuidas, porque insistes
que uns deuses teus te dão esse direito
de roubares as mãos de a quem fingiste
que darias as que tens dentro do peito.

(12.01.2008)

Fora eu poeta

Gostava de te apanhar o gesto
Sem ter que te sentir a mão.
Prender-te do olhar, o resto
Sem te pedir, sequer perdão.

Cantar-te como Pessoa cantava.
Abrir, tal como Camões abria
Numa rima de glória elevada
Os corações apartados da poesia.

Ah! fora eu poeta e tu o meu poema
Ou fora cesteiro que te adoba o vime
Não podia, nem assim, ter lesta a pena
D'imaginar os sons que te fazem sublime.

(11.01.2008)

O que tens

tens uns olhos ..... que levas tracejados a negro,
quando enfeitas a noite em reflexos de cristal vidrado
eu olho-te, fingindo-me destemido, mas a medo,
quando sorris de leve e te sinto respirar a meu lado
fica-te bem, muito bem, o ...... que dá ar de liberdade,
fica-te tudo bem no corpo que respira perfeito, inteiro
estar aqui, por muito que não fora, já cheira a saudade
e ao sonho que, se parte, não esquece o feiticeiro
como podes ser tão subtil no cada gesto que inventas...
como podes desacalmar o meu mar de tormentas?
não insinuas; e é isso que me teme a separação,
me angustia
como, sem seres minha, já me fosses traição
os teus olhos têm a cor dos lábios quando se humedecem
e apetece pintá-los com a língua,
fingindo que se beijam, suavemente
os teus lábios têm o brilho dos olhos quando desvanecem
e queremos cantá-los, olhando, à míngua,
possuindo (como tê-los permanentemente)
confundo-te com uma estátua de modelo;
com um poema heróico, incompleto no prelo.

(29.12.2007)

Cumpridos...

Quando chegavas cansada
sentavas-te no vime pachorrento
da verde latada
a olhar o silvo do vento
a rogar a todo o tempo
a atenção que não te dava.

Passaram os outonos, sem querer
trocando o olhar, perdidos
no não saber em que nos tínhamos:
sentir, não o sentíamos;
apenas compungidos
de ser diferente não poder.

(14.12.2007)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Som e Fúria

Nascido em New Albany a 25 de Setembro de 1887, William Cuthbert Faulkner é considerado um dos mais emblemáticos escritores norte-americanos do século xx.
Narrou o declínio do Sul dos Estados Unidos, interiorizado nas suas personagens que, na sua maioria, viviam no condado imaginado de Yoknapatawpha. Descreve, muitas vezes em simultâneo, pontos de vista diversos e utiliza mudanças do tempo de narrativa, bem como diálogos interiores complexos, que transformam a sua escrita numa construção, pelo menos, desafiante.hhhjdhjkhdkhjdkakskadjkFaulkner em Paris. Foto de W. C. Odiorne
Foi galardoado com o Nobel em 1949 e com o National Book Award nos anos de 1951 (Collected Stories) e 1955 (Uma Fábula). Foi-lhe atribuído o Pulitzer em 1955 e novamente em 1962.
Faleceu em Byhalia, Mississipi, a 6 de Julho de 1962.
Entre outros títulos, Faulkner é conhecido por O Som e a Fúria, Na Minha Morte, Santuário, Luz de Agosto, Palmeiras Bravas, Absalão! Absalão! e Sol Poente.

Decisões, Decisões

De quatro em quatro anos é assim.

Em tempos de campanha para a Sala Oval, a genial Comedy Central lança a sua rubrica especial - Indecision, neste caso, 2008. É neste contexto que um sem número de jogos, relacionados com certos aspectos da política norte-americana, fica à disposição de todos aqueles que, numa vertente mais descontraída, gostam de analisar os rumos possíveis da política nas terras do Tio Sam. Ainda que preferencialmente virada para o "lado doméstico", como afinal não podia deixar de ser, esta abordagem pretende combinar a sátira acerca da hipocrisia dos políticos com momentos de pura descontracção (os jogos de flash na web são para isso mesmo, certo?). Deste modo, temos preocupações ambientais e ambições de crescimento sustentado, aumento de riqueza, bem-estar e conforto a dar o mote para simples jogos de estratégia que proporcionam momentos em que podemos, como eles dizem, "have fun".

Por vezes, parece mesmo que a política, para eles do lado de lá do Atlântico, é um jogo.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Em tempo...

jdhjdjkdlembra cinema e dá um toque a Almodóvar

Pedro Almodóvar

Pedro Almodóvar Caballero nasceu em Calzada de Calatrava, a 24 de Setembro de 1951. É um cineasta, actor e argumentista espanhol.
Almodóvar nunca pôde estudar cinema, pois nem ele nem sua família tinham dinheiro para pagar seus estudos. Antes de dirigir filmes foi funcionário da companhia telefónica estatal, fez Banda Desenhada, foi actor de teatro “avant-garde” e cantor de uma banda de rock, da qual participava travestido.
Foi o primeiro espanhol a ser indicado ao Óscar de melhor Realizador. Homossexual assumido, os seus filmes trazem a temática da sexualidade abordada de maneira sublime.

Como director/realizador
2006 - Volver (Volver, Esp.)
2004 - A Má Educação (La Mala Educación, Esp.)
2002 - Fale com Ela (Hable con Ella, Esp., Fra.)
1999 - Tudo Sobre Minha Mãe (Todo sobre mi madre, Esp., Fra.)
1997 - Carne Trêmula (Carne trémula, Esp., Fra.)
1995 - A Flor do Meu Segredo (La flor de mi secreto, Esp., Fra.)
1993 - Kika (Kika, Esp., Fra.)
1991 - De Salto Alto (Tacones lejanos, Esp., Fra.)
1990 - Ata-me! (¡Átame!, Esp.)
1988 - Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (Mujeres al borde de un ataque de nervios, Esp.)
1987 - A Lei do Desejo (La Ley del deseo, Esp.)
1986 - Matador (Matador, Esp.)
1985 - Tráiler para amantes de lo prohibido (media metragem para o programa da TVE c)
1984 - ¿Qué he hecho yo para merecer esto?
1983 - Maus Hábitos (Entre tinieblas, Esp.)
1982 - Labirinto de Paixões (Laberinto de pasiones, Esp.)
1980 - Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón
1978 - Folle... folle... fólleme Tim!
1977 - Sexo va, sexo viene
1976 - Muerte en la carretera
1976 - Sea caritativo
1975 - Blancor
1975 - La Caída de Sódoma
1975 - Homenaje
1975 - El Sueño, o la estrella
1974 - Dos putas, o historia de amor que termina en boda
1974 - Film político

Fonte: wikipedia

Dor e felicidade

Para algumas pessoas a dor e a felicidade são acontecimentos de magia.
Eva, de certa forma impedindo a minha passagem, disse: “finalmente encontrei a minha alma gémea. Eu merecia, fogo!” Por momentos esqueci que queria ir para o outro canto da sala e disse: “nem sempre as pessoas têm aquilo que merecem.” É uma característica minha utilizar estas frases aparentemente carregadas de conhecimento e de inocuidade para dar forma a uma ironia cínica. Eva sorriu, mostrando-se incapaz (a inteligência nunca foi o seu forte) de perceber que aquilo que eu disse não era, de forma alguma, abonatório à sua situação ou à vida que a conduziu aquele momento. Porque, na verdade, ela espalhou uma imensidão de dor ao tentar ser feliz…

the name was writ in water

Com o poema As Cinzas de Gramsci, Pier Paolo Pasolini (além de deixar em crise a sua cultura política de referência, ao exprimir um desejo de justiça que se não bastava com a questão das desigualdades económicas) realça a intensidade poética de um recanto de Roma, o "cemitério dos ingleses" ou dos "acatólicos", onde estão supultados, além daquele e outros, Shelley e Keats.
A lápide sem nome deste último tem uma célebre inscrição, obra-prima romântica:

This Grave
contains all that was Mortal,
of a
YOUNG ENGLISH POET,
Who,
on his Death Bed,
in the Bitterness of his Heart
at the Malicious Power of his Enemies,
Desired
these words to be engraven
on his Tomb Stone
"Here lies One
Whose Name was writ in Water"

(Este túmulo/contém os restos mortais/de um/jovem poeta inglês/que/no seu leito de morte/na amargura de seu coração/pelo poder malévolo de seus inimigos/ pediu que estas palavras fossem gravadas/sobre a sua pedra tumular:/"Aqui jaz alguém/cujo nome foi escrito na água.")
ghggggghhgg
Uma outra inscrição, afixada numa parede próxima, diz o seguinte:

Keats! If thy cherished name be "writ in water"
Each drops has fallen from some mourner's cheek.

(Keats! Se o teu amado nome foi escrito na água, cada gota caiu do rosto de quem te chora)
nnnnnnnnnnn
Corrado Augias, Os segredos de Roma, Cavalo de Ferro, 2007

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O primeiro Augusto

A morte de César, a 15 de Março de 44 a. C., deixara a sua obra inacabada e a vontade de muitos de regressar ao antigo sistema, que tinha o centro do poder no Senado. Cícero e os conjurados pensavam que era suficiente abater o “tirano” para que se regressasse à República. As forças de Roma, no entanto, eram múltiplas e de interesses divergentes, sendo forte o poder do exército, onde trinta e nove legiões tinham prestado juramento a César. Em termos legais, o poder pertencia aos cônsules, estando aí dois “cesaristas”, Dolabella e, em especial, António, que havia sido adjunto do ditador.
Sobrinho-neto por parte da mãe, Ácia (Átia), nascido em Roma a 23 de Setembro, dezoito anos antes, de nome de Gaius Octavius Thurinus, o futuro Augusto, neto de um banqueiro e filho de Caio Octávio, edil e pretor em Roma e, mais tarde, procônsul na Macedónia, tinha sido levado a Espanha pelo tio-avô e tinha recebido a melhor formação de retóricos e filósofos. No início de 44 a. C., o jovem Octávio foi enviado para Apolónia (ponto de partida da rota que conduzia aos Estreitos e, daí, à Ásia). Eis senão quando, depois dos idos de Março, aquando da tomada de conhecimento do testemanto de César por António, se soube que aquele, em acto póstumo, adoptara Octávio e lhe legara inúmeros bens.
Octávio foi aconselhado a aceitar apenas a herança material, permitindo o restabelecimento da República, mas veio a seguir caminho diferente. Começa então a sua busca do poder, decidido a vingar o pai adoptivo e a assegurar sua mais alta posição. Em Brundísio, a Décima Segunda Legião jura-lhe lealdade e, em discurso às tropas, Octávio declara-se filho adoptivo de Júlio César. Em Roma, António pede o controle das tropas de Octávio em troca de protecção e privilégios políticos, mas este recusa; pagou do próprio bolso os legados do testamento e presidiu aos jogos em memória de César; alia-se a Cícero, que o começa a elogiar no Senado, atacando o adversário directo.
Depois do triunvirato e de várias escaramuças a guerra do Áccio colocou frente a frente António e Octávio, quando as forças do primeiro eram, oficialmente, as da rainha Cleópatra, com quem se havia casado, depois de devolver a Roma a irmã de Octávio, Octávia. A guerra durou pouco, com a vitória clara de táctica marítima de Agripa, o comandante da frota de Octávio.
Apesar de assumir o poder, Octávio não aceitou a ditadura, temendo ser vítima da mesma sorte de César. Abdicou solenemente de todos os poderes extraordinários (excepto o consulado) e propôs um regime de compromisso, o principado, que centralizava o poder em torno de si, mas mantinha as formas tradicionais da República romana. Longe de destruir as antigas magistraturas, assumiu-as quase todas e fez-se reeleger cônsul, sem interrupção, até o ano 23 a. C. Na aparência, não passava de um magistrado como os demais, mas era (apenas) o primeiro, ou seja, Princeps. O Senado concedeu-lhe inúmeros títulos e poderes, como o de veto nas assembleias. Em 29 a. C. recebeu o título de Imperator (comandante-em-chefe das forças armadas) e no ano seguinte de Princeps Senatus. A partir de 27 a. C. passou a ser Augusto, que mais tarde se converteu em sinónimo de Imperador. O título passou desde então a identificar seu próprio nome e como Augusto tem sido reconhecido pela história.
Nem a política externa de Augusto, com sucessos vários, nem a reorganização administrativa foram o bastante para assegurar a glória do príncipe. O seu nome ficou ligado ao século em que viveu (ainda hoje se fala do “século de Augusto”) porque esse foi o tempo de Vergílio, de Horácio, de Tito Lívio e de outros e, por eles, considerado o tempo em que o espírito humano atingiu um dos seus pontos mais elevados.

(a partir de Pierre Grimal, O Império Romano)

Os Belenenses


Fundado a 23 de Setembro de 1919

Foreigner - I wanna know what love is video

Só para recordar outro século, outros dias...

Nietzsche

4
Ao contrário do que hoje se crê, a humanidade não representa uma evolução para algo de melhor, de mais forte ou de mais elevado. O «progresso» é simplesmente uma ideia moderna, ou seja, uma ideia falsa. O europeu de hoje vale bem menos do que o europeu do Renascimento; desenvolvimento contínuo não é forçosamente elevar-se, aperfeiçoar-se, fortalecer-se.
F. Nietzsche
O Anticristo

Los muertos

Y luego aquellas muertes que me hicieron
tanto daño y dolor
como si me golpearan hueso a hueso
las muetes personales
en que tú también mueres.
Porque allí a Federico y Miguel
los amarraron a la cruz de España,
les clavaron los ojos y la lengua,
los blasfemaron y los insultaron,
los hicieron rodar por los barrancos
aniquilados
porque sí, porque no, porque así fue.
Así fueron heridos,
crucificados
hasta en el recuerdo
con la muerte española,
con las moscas rondando
las sotanas,
carcajada y escupo entre las lanzas,
mínimos esqueletos
de ruiseñor
para el aciago osario,
gotas de miel sangrienta
perdida
entre los muertos.

Pablo Neruda, Los muertos, Memorial de Isla Negra (1964)

El Crimen fue en Granada

Há escassos dias, a família de Lorca autorizou a transladação do corpo do poeta, uma decisão que teve ecos de primeira página nos diários espanhóis, atenta a importância deste nome cimeiro e a crueldade criminosa que representou o seu fuzilamento.

1. EL CRIMEN

Se le vio, caminando entre fusiles,/por una calle larga,/ salir al campo frío,/ aún con estrellas, de la madrudaga./ Mataron a Federico/quando la luz assomava. /El pelóton de verdugos /no osó mirarle la cara. / Todos cerraron los ojos; /; rezaron: ni Dios te salva!/ Muerto cayó Federico/ - sangre en la frente y plomo en las entrañas - /... Que fue en Granada el crimen / sabed - pobre Granada! -, en su Granada...

2. EL POETA Y LA MUERTE

Se le vio caminar solo con ella, / sin miedo a su guadaña./ - Ya sol en torre y torre; los martillos/ en yunque - yunque y yunque de las fraguas. / Hablaba federico, / requebrando a la muerte. Ella escuchaba. / "Porque ayer en mi verso, compañera, / sonaba el golpe de tus secas palmas, / y diste el hielo a mi cantar, y el filo / a mi tragedia tu voz de plata, / te cantaré la carne que no tienes,/ los ojos que te faltan,/ tus cabellos que el viento sacudía,/ los labios rojos donde te besaban.../ Hoy como ayer, gitana, muerte mía, / qué bien contigo a solas,/ por estos aires de Granada, mi Granada!"

3.

Se le vio caminar... /mmmmmmmmmmLabrad amigos,/ de piedra y sueño, en el Alhambra,/ um túmulo al poeta,/ sobre una fuente donde llore el agua,/ y eternamente diga: / el crimen fue en Granada, en su Granada!

Poema de Antonio Machado. Ideia da lembrança surgida de um Blog perto daqui (Mareirices)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Lisboa. Tejo. E tudo.

jjjjjjjjjjjjj Lisboa, à beira do seu amado rio. 22 de Setembro de 2008, 13H00

No Castelo, tachos e panelas

Depois do Cancioneiro de D. Dinis, eis que nos chegam as receitas de Ricardo II de Inglaterra. Para quem quiser perder algum tempo na cozinha e saborear prazeres de outros tempos, o "Forme of Cury" chega agora à edição online.
Mais de duzentos pratos que foram preparados nas Cozinhas Reais, encontram-se à disposição de qualquer um de nós, meros plebeus, para dar uma nota temática a um qualquer jantar de bom convívio e puro desfrute gourmet. Uma coisa, no entanto, fica garantida: não serão refeições "levezinhas".
Mais pormenores aqui.

No vento

Escrevo-te o meu nome nos frios do vento
que te desperta o piscado olhar de teimosia
As minhas saudades, mistura-las tu ao tempo
e mas devolves sem ânimo, sons de fantasia
Não faltasse a mim fé de certeza, dito alento
rimava-te na mesma com a verdade… poesia

domingo, 21 de setembro de 2008

Madrid II (aspectos)











Madrid I (aspectos)











Weltinnenraum

Hace poco han muerto las últimas personas que conocieron a Rainer Maria Rilke - el pintor Balthus, en febrero de 2001; su hermano el escritor Pierre Klossowski en agosto; la poeta Erika Mitterer, en octubre... -, y nadie puede ya recordar la presencia silenciosa y extremadamente cortés de aquel poeta menudo de ojos claros, que sin patria ni domicilio recorrió Europa en las primeras décadas del siglo xx. Ya sólo queda su obra, aunque eso sí, una obra marcadamente personal, no sólo por el rastro minucioso que suponen las siete mil cartas que escribió, sino porque era un poeta lírico, y la materia poética la extrajo de su mundo interior. Para Rilke, esa era la única realidad. Cada hombre lleva en sí mismo el espacio interior del mundo - Weltinnenraum - : las cosas se hacen verdaderamente reales cuando el hombre las incorpora a su interior, porque entonces quedan a salvo de la fugacidad y la caducidad.
Las cosas mismas reclaman esa incorporación que las salva
hhshkhhdjjkdhkhd
... esas cosas que viven alejándose (...)
Quierem que las transformemos del todo en el corazón invisible,
en nosotros, infinitamente.
jhkjdkjHDKJADadhk
La tarea principal del hombre consiste en transformar las cosas visibles en invisibles. La tarea del poeta es la misma, pero de un modo más grande, con columnas y estatuas: es decir, con los instrumentos del arte. Esa tarea de transformación - la común e la artística - exige esfuerzo, y un esfuerzo apasionado.
hjhjkdhkjddkjd
Antonio Pau, introducción a Cuarenta y nueve poemas, Madrid, 2008

Maratona

No mês de Setembro de 490 a. C., depois de uma primeira tentativa fracassada por causa de uma violenta tempestade lhe destroçou a armada ao largo do monte Athos, o rei persa Dário, o Grande, desembarcou um exército de 15.000 homens na baía de Maratona (40 quilómetros a nordeste de Atenas). Em pânico, os atenienses enviaram um mensageiro (Fidípides) a Esparta, solicitando reforços, mas os espartanos disseram-lhe que só depois de terminado o festival religioso poderiam ajudar. Tendo que enfrentar sozinhos os persas, 10.000 gregos foram batalhando, num resultado incerto.
Em 21 de Setembro – precisamente 2048 anos antes da morte do imperador Carlos V, Carlos I de Espanha – o comandante dos gregos, Milcíades, apercebeu-se que a cavalaria persa voltara a embarcar (certamente para atacar Atenas) e que os reforços vinham a caminho. Decidiu então atacar. A infantaria grega atacou e retrocedeu, criando nos persas a ideia de um recuo. Nessa altura, o comandante fez avançar duas alas reforçadas, num duplo envolvimento, e esmagou os flancos persas, daí resultando um autêntico massacre: enquanto os gregos perderam 192 homens, os persas deixaram 6.400 mortos na planície de Maratona e, recolhendo aos navios, regressaram à pátria. Afastada a ameaça persa e sabendo que a revolta dos Alcmeónidas em Atenas dependia do apoio persa, os gregos enviaram de imediato um mensageiro (diz-se que terá sido de novo Fidípides) a anunciar a grande vitória. Sem qualquer paragem no trajecto, o soldado grego correu os 42 quilómetros que separam Maratona de Atenas e anunciou o triunfo, antes de cair morto de exaustão.
Nos Jogos Olímpicos de 1986, quase dois milénios e meio mais tarde, a prova que ficou conhecida por maratona foi ganha pelo grego Spiridon Louis, no tempo (hoje muito lento) de 2 horas, 58 minutos e 50 segundos.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A ideia

"A ideia é o conceito adequado em que a objectividade e a subjectividade são iguais, ou o ser determinado corresponde ao conceito como tal. Ela compreende em si a verdadeira vida autónoma. A ideia é, em parte, vida, em parte conhecimento, em parte ciência."

Hegel
Propedêutica Filosófica
Secção terceira
Doutrina das Ideias

O Beijo


Gustav Klimt
O Beijo

Constituição dos Estados Unidos da América.


Em 17 de Setembro de 1987 foi assinada pela Convenção Constitucional de Filadélfia a Constituição dos Estados Unidos da América.
Este é um acontecimento que marca a entrada no sistema democrático e que se irá reflectir essencialmente na Revolução francesa.
Elogios atrasados…

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

gggggTu és a esperança, a madrugada
gggggNasceste nas tardes de setembro
gggggquando a luz é perfeita e mais doirada,
ggggghá uma fonte crescendo no silêncio
gggggda boca mais sombria e mais fechada.

wwwwwwwwwwPara ti criei palavras sem sentido,
wwwwwwwwwwinventei brumas, lagos densos,
wwwwwwwwwwe deixei no ar braços suspensos
wwwwwwwwwwao encontro da luz que anda contigo.

eeeeeTu és a esperança onde deponho
eeeeemeus versos que não podem ser mais nada.
eeeeeEsperança minha, onde meus olhos bebem,
eeeeefundo, como quem bebe a madrugada.

Eugénio de Andrade

2. MM + 2. BB - Poeta

Magro, de olhos azuis, carão moreno
Bem servido de pés, meão na altura
Triste de facha, o mesmo de figura
Nariz alto no meio, e não pequeno.

(15.09.1765 - 21.12.1805)

sábado, 13 de setembro de 2008

O Mestre

kkk Aquilino
llllllllllllllll
Alcança quem não cansa...
hlkhlkhjlklllkkll
Nascido a 13 de Setembro de 1885 na freguesia de Carregal de Tabosa, concelho de Sernancelhe, teve uma infância de garoto travesso. Estudou no Colégio da Senhora da Lapa e, seguidamente, em Lamego, em Viseu e no Seminário de Beja, de onde veio a ser expulso. Aderente do movimento republicano, cursa Filosofia na Sorbonne, e aí tem mestres como George Dumas, André Lalande e Durckeim, e contacta com a intelectualidade portuguesa que, igualmente por razões politicas, estava forçada a viver fora de Portugal. Também em Paris, conhece Grete Tiedemann, a sua primeira mulher e mãe do primeiro filho. Antes da Grande Guerra de 1914-18 regressa ao país com a família e, voltado a Paris, deixa por completar o curso de Filosofia. Em Portugal, ocupa-se para além da escrita ficcional e da cronística para a imprensa, do trabalho de professor no Liceu Camões, e, mais tarde, do cargo de bibliotecário na Biblioteca Nacional. Em considerado um "homem de acção" e participa activamente na vida social e política. Por isso esteve preso e exilado. O tempo de exílio termina em 1932, quando regressa clandestinamente a Portugal, depois de ter casado em segundas núpcias (a primeira mulher morrera no ano de 1927) com Jerónima Dantas Machado, filha de Bernardino Machado, o presidente da República deposto por Sidónio Pais. Desse casamento nasce o único filho do casal e segundo de Aquilino (em 1930). Amnistiado, vem a fixar-se em Lisboa e passa a dedicar-se plenamente à actividade literária. Em 1933, o conjunto de novelas As Três Mulheres de Sansão recebe o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, e em 1935 é eleito sócio correspondente desta instituição, passando a sócio efectivo em 1957. Mais valoroso que o reconhecimento oficial, a sua grandeza de escritor e a sua temeridade política são lendárias. Sem nunca perder a originalidade, não alinhou em nenhum dos movimentos literários seus contemporâneos.
hhgfhgfhggffh
Bibliografia principal:
1915 - Jardim das Tormentas (contos).
1918 - A Via Sinuosa (romance).
1919 - Terras do Demo (romance).
1920 - Filhas de Babilónia (novelas).
1922 - Estrada de Santiago (novelas).
1924 - Romance da Raposa (romancinho infantil).
1926 - Andam Faunos pelos Bosques (romance).
1930 - O Homem que Matou o Diabo (romance).
1931 - Batalha sem Fim (romance).
1932 - As Três Mulheres de Sansão (novelas).
1933 - Maria Benigna (romance).
1934 - É a Guerra (diário).
1935 - Quando ao Gavião Cai a Pena (contos).
1936 - Aventura Maravilhosa de D. Sebastião (romance).
1937 - S. Banaboião Anacoreta e Mártir (romance).
1939 - Mónica (romance).
1940 - Oeiras (monografia).
1940 - O Servo de Deus e a Casa Roubada (novelas).
1942 - Os Avós dos Nossos Avós (história).
1943 - Volfrâmio (romance).
1945 - Lápides Partidas (romance).
1947 - O Arcanjo Negro (romance).
1947 - Caminhos Errados (novelas).
1948 - Cinco Réis de Gente (romance).
1948 - Uma Luz ao Longe (romance).
1949 - O Malhadinhas (edição autónoma).
1951 - Geografia Sentimental (história, paisagem, folclore).
1953 - Arcas Encoiradas (estudos, opiniões, fantasias).
1954 - O Homem da Nave (serranos, caçadores e fauna vária).
1954 - Humildade Gloriosa (romance).
1955 - Abóboras no Telhado (crónica e polémica).
1957 - A Casa Grande de Romarigães (crónica romanceada).
1957 - O Romance de Camilo (biografia e crítica).
1958 - Quando os Lobos Uivam (romance).
1963 - Tombo no Inferno. O Manto de Nossa Senhora (teatro).
1963 - Casa do Escorpião (novelas).
1974 - Um Escritor Confessa-se (memórias).

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Puro Vintage V

Com ar pensativo, estática junto aos lábios a bica que segurava entre o polegar e o indicador esquerdos, Óscar tentava tomar uma decisão.
Quem lhe dera que todos os jogos fossem "derbies" ou, pelo menos, entre equipas mais conhecidas. A Segunda Divisão B ou até certos desafios da UEFA não eram muito com ele. De qualquer modo, era sempre o mesmo... Um, xis ou dois? A dúvida que se impunha.

"Belenenses - Vitória de Setúbal"... A escolha era complicada e Óscar não pretendia arriscar o seu dinheiro, previamente contado, numa "dupla", temendo que lhe viesse a faltar para poder apôr a mesma combinação num qualquer outro recontro ainda mais imprevisível. Até porque "A Bola" tinha vindo a dar preferência, nas suas edições semanais, aos bravos do Restelo, que, por esses dias, iam aproveitando o entusiasmo proporcionado pela goleada conseguida sobre o Sporting. Talvez "1" fosse a escolha mais acertada.

No "Boavista -Benfica", a cruzinha feita com a esferográfica era mecânica e tão natural como o gole que Óscar acabava de dar no seu café, pousando a chávena logo de seguida, em jeito de desembaraço. A quadrícula do símbolo "2", devidamente assinalada. De aquilinos gostos e paixões, Óscar tinha sempre fé... Fosse qual fosse o rival do seu Glorioso, o triunfo deste, pelo menos na sua vontade - umas vezes clinicamente certeira, outras apenas clubisticamente convicta - já estava garantido.

"Porto - Vitória de Guimarães"... Para mau grado seu, os rapazes do Pedroto andavam a dar cartas. Mas o Vitória também tinha surpreendido tudo e todos há duas jornadas atrás com uma reviravolta estonteante, num jogo a contar para a Taça. O miúdo que lá tinham agora no meio campo havia de ir longe. Pelo menos era o que diziam. Deste modo, para este duelo nortenho Óscar ia cometer um pequeno desvario, apostando uma "tripla". Em qualquer dos cenários ganharia. Enfim... O campeonato estava renhido este ano. Que mais se podia fazer?

Completando o resto das quadrículas, consoante a sua acutilante intuição de "treinador de bancada", comportando em si toda uma certa ciência e saber, Óscar conservava um semblante prazeroso. Nunca se sabia... Podia ser desta vez que o seu gosto pelo "esférico rolando sobre a erva" lhe trouxesse uma alegria que realmente pesasse na carteira, em seu proveito.

Num gesto decidido, circunspecto - de acordo com a solenidade exigida para o momento -, Óscar levantava-se da sua mesa habitual na Cervejaria "Marquês", acenava ao Sr. Gomes - proprietário - e acorria ao balcão para pagar a despesa e "meter" o seu Totobola. O tempo, agora, já não era para dúvidas, mas para acreditar, mesmo que a medo miudinho. Depois logo se veria... No Domingo, junto à telefonia, talvez quem viesse a marcar o Golo d'Ouro fosse ele!

Antero de Quental


Antero Tarquínio de Quental nasceu em Ponta Delgada a 18 de Abril de 1842 e faleceu a 11 de Setembro de 1891. Desde jovem que se destacou pelas suas opiniões revolucionárias e pela forma de estar na vida. Lutador e muito congruente com os seus ideais socialistas.
Antero espalhou saber pela poesia, filosofia e política. Estudou direito em Coimbra, onde brilhou como líder estudantil. Foi o guia espiritual da geração de 70, um agitador político a "tempo inteiro", que se afirmou pelo desejo de intervenção e renovação da vida política e cultural portuguesa.

Obras
Sonetos de Antero, 1861
Beatrice e Fiat Lux 1863
Odes Modernas 1865 (na origem da polémica Questão Coimbrã)
Bom Senso e Bom Gosto 1865 (opúsculos)
A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais 1865 (na origem da polémica Questão Coimbrã)
Defesa da Carta Encíclica de Sua Santidade Pio IX 1865Portugal perante a Revolução de Espanha 1868
Primaveras Românticas 1872
Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa 1872
A Poesia na Actualidade 1881
Sonetos Completos 1886
A Filosofia da Natureza dos Naturistas 1886
Tendências Gerais da filosofia na Segunda Metade do Século XIX 1890
Raios de extinta luz 1892
Prosas


Fonte wikipedia

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Centenário (e dois dias)


Cesare Pavese nasceu em Santo Stefano Belbo em 9 de Setembro de 1908 e, ainda criança, mudou-se para Turim. Daqui ausentou-se por pequenos períodos (um ano de prisão por compromissos políticos, algum tempo em Roma como conselheiro editorial da Einaudi) e aí se veio a suicidar no ano de 1950. Licenciou-se com uma tese sobre o poeta Walt Whitman e em 1936, depois de já haver publicado estudos de literatura americana, reunidos postumamente em 1951 (La letteratura americana e altri saggi) dá à estampa Lavorare stanca (Trabalhar Cansa, ed. portuguesa bilingue, Cotovia, 1997). Foi tradutor de Daniel Dafoe, Dickens, Melville, Joyce, Sinclair, John dos Passos e Gertrude Stein. Considerado por muitos um dos chefes-de-fila do neo-realismo italiano (facto que o irritava, alheio ao provincianismo naturalista próprio dessa corrente) Pavese fez sentir a sua influência em escritores mais jovens como, entre outros, Pasolini e Italo Calvino.
aklshdldldlkdjldd
Foto: Ghitta Carell
Texto baseado em Carlos Leite (Trabalhar Cansa)
kkldldkldjkldlddl
(... ... ... ... ... )
ddhdldhdldhldlalsdldd Solo un sogno
gli è rimasto nel sangue: ha incrociato una volta
da fuochista su un legno olandese da pesca, il cetaceo
e ha veduto volare i ramponi pesanti nel sole,
ha veduto fuggire balene tra schiume di sangue
e inseguirle e innalzarsi le code e lottare alla lancia
Me ne accenna talvolta.
jddjdkjljdldjldjlalasjdlll Ma quando gli dico
ch'egli è tra i fortunati che han visto l'aurora
sulle isole piú belle della terra,
al ricordo sorride e risponde che il sole
si levava che il giorno era vecchio per loro.
fdsggghhhgfh
Os Mares do Sul, Antepassados, Trabalhar Cansa

Memória

Esperando melhores dias, em que a estupidez de uns não se encontre com a arrogância grotesca de outros.

À memória de outros tempos, em que o Mundo era um lugar mais sensato.

Dos Dias Monótonos

Não é, pois, necessário que te prepares para as crises; são horas em que sempre - se não és totalmente apagado - te encontrarás acima de ti próprio; mil elementos te farão pedestal; tão alto subirás que só te será difícil, passada a exaltação, não te admirares do que fizeste; vês-te incapaz de repelir o golpe; e para a fama do herói certamente contribui este espanto que o toma de se não ter sempre igual, de em determinada conjuntura ter passado sobre ele o apelo dos deuses.
kjgKJDDJSDKDAKSDK
É para todos os dias que precisas de educar e afinar a alma; é para te sentires o mesmo em todos os minutos que deves dominar os impulsos e ser obstinadamente calmo ante as dificuldades e os perigos, as alegrias e os triunfos. O constante exercício do ginasta te sirva de estímulo e de guia; que saibas dar um passo com a mesma segurança, leveza e calma com que poderias dar um salto; aprende a ter nas resistências o esforço dos ataques.
GFGHJJKGKHJKLLLÇÇÇ
O que a vida apresenta de pior não é a violenta catástrofe, mas a monotonia dos momentos semelhantes; numa ou se morre ou se vence, na outra verás que o maior número nem venceu nem morreu: flutua sem norte sem esperança. Não te deixes derrubar pela insignificância dos pequenos movimentos e serás homem para os grandes; se jamais te faltar a coragem para afrontar os dias em que nada se passa, poderás sem receio nesperar os tempos em que o mundo se vira.

Agostinho da Silva, Considerações, Dos Dias Monótonos

Salto



A Eros que por vezes me perco...

Trigo
















Aquele Natal manifestou-se da forma mais completa que lhe era possível, como se nos quisesse mostrar que ainda havia espaço para o sonho. Trouxe consigo lentas e suaves folhas de trigo maduro.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Lisboa

Nove de Setembro, cair da tarde. Santa Apolónia. A gaivota corre para o encontro combinado. O relógio anuncia a pressa. Enfim, como diz o revisor, o Alfa nunca espera.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Só porque não se revela fácil apartar sonhos de devaneios e, bem menos, agrilhoá-los com a pontuação oficial

hslkSLHLslKLHSlsLslSLksLL
uma névoa que parecia matinal espraiava-se ao longo do rio e as cores acompanhavam céu e terra numa mistura de pastel os seus olhos eram faíscas que sobressaíam da monótona mistura e acompanham o levante caminhou ou como se assim parecesse chegou-se ao meu rosto num beijo que não passou de vontade e só ficou na ranhura dos meus lábios uma gota de orvalho

Quando a lembrança se fez dia, teimei que não havia de lhe prender qualquer pontuação.

You're Mr. Stevens, the head of catering!

E se na Estrela da Morte houvesse um refeitório?

O original aqui.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

... Mais que mil palavras. Ou não!


A experiência proporcionada por todos os meios telemáticos disponíveis nos dias de hoje deveria, certamente, possuir determinados pressupostos bem assentes, a que poderíamos chamar, como chamamos, as "regras do jogo". Contudo, com o surgimento de alguns recursos pertencentes àquela mesma categoria, damo-nos conta de que "fazer batota" também é possível (provavelmente dada a nossa eterna condição humana).

E de facto, é do que esta imagem trata. A burla foi protagonizada por dois jovens veraneantes e amantes dessa actividade que se resume, como alguém me disse há pouco tempo na Ilha Terceira (o paternalismo sai caro...), a "ver peixinhos". E, na verdade, penso que nem Spielberg conseguiu tanto realismo com o seu velho "Jaws", que sempre me pareceu um boneco insuflável ou colchão de praia gigante com a forma de tubarão assassino.

Mas se esta manipulação não comporta em si qualquer mal de maior, outras existem que dão realmente em que pensar. É que, no imediatismo dos nossos tempos contemporâneos, as imagens valem por si e assumem-se como o produto com a maior quota do mercado das ideias. São fáceis de absorver e satisfazem qualquer S. Tomé, já conformado com o facto de muitas vezes não poder encontrar-se em condições de "tocar" o objecto das suas dúvidas.

E se os motivos que presidem à sua recolha - ou em qualquer caso, criação - não forem os melhores, isso reflectir-se-á em tudo aquilo que se quer dar a conhecer (ainda estou para saber o que se passou concretamente no Estádio Olímpico de Pequim, aquando das cerimónias de abertura dos Jogos).

Qual prospecto de ajuda para aferir de eventuais intrujices futuras que se nos apresentem, ou simples curiosidade mediática, o Telegraph publicou as vinte melhores fotografias manipuladas, onde esta mesma se inclui. Vale a pena dar uma vista de olhos.

Brasil



Ainda que com um ligeiro atraso,

ao Brasil, no dia da sua independência, o grande baluarte da língua Portuguesa.

domingo, 7 de setembro de 2008

Até tu, gaulês!


Refere o Jornal Público (edição de 5 de Setembro de 2008) que uma equipa de cientistas franceses, depois de comparar padrões de prevalência da variante CCR5 – Delta 32 com o modo como actualmente está presente na população europeia, conclui que as áreas onde na Antiguidade houve uma maior penetração romana apresentam maior raridade daquela variante e, assim, uma menor defesa contra o HIV. Depois de espalharem burros e gatos, parece que os conquistadores rarearam algumas defesas. Com o seu sentido prático, não terão cuidado das suas vantagens futuras ou, a não ser certo, serão os gauleses que ainda andam ressentidos.

Big Apple 3

Atravessas a rua como um peregrino desesperado. Se a salvação não for consolo imediato – advertes-te – será eternamente inglória. Tanto que sabes que é suficiente o que temes: um mero gesto, mesmo um gesto mudo que se confunda a um trejeito do olhar, é o bastante para te mudar o mundo. Por inteiro. Se for dela, é claro. É-te claro, mesmo que só isso o seja. Os pés descompassam em ordens antagónicas, mas avanças. Num relâmpago confias num regresso à serena doçura de antes; tens a glória almofadada em euros e usd’s. Mas sabe que não é nada disso: o relâmpago passou. Sacas do bolsinho um havano de cinco contos, preço antigo de Lisboa. Ele vai ficar deliciado em extravagância. Esticas a oferta, ainda em silêncio.
- Eu não fumo, ó periquito.
Ora glória!
O poder caiu na rua!

Não sei


Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.

Camilo Pessanha (nasc. em Coimbra, 7.09.1867)

Coimbra: folha e chaminé


sábado, 6 de setembro de 2008

O sangue dos César

QqqqqEu dizia a Séneca:
qqqqq- Ainda só tem quatro anos, mas já se assemelha a Calígula e Agripina. Será o sangue de César que, à nascença, transforma em feras estes humanos?
qqqqqEu apreciava as respostas comedidas de Séneca.
qqqqqConhecera-o quando servira o imperador Tibério. O seu porte altivo, o rosto que exprimia vontade e virilidade, a eloquência soberana que fazia dele o melhor orador do Senado, o advogado mais célebre, dono de uma retórica de filósofo estóico que defendia a sabedoria e a aceitação daquilo que não podemos dominar nem organizar, haviam-me seduzido.
qqqqqContava cerca de mais quinze anos do que eu e considerava-me um dos seus parentes próximos. Eu tinha, como ele, origens espanholas. Séneca nascera em Córdova, a exemplo dos meus antepassados.
qqqqqCaminhávamos lentamente pelo jardim da sua villa romana. Diziam-no rico e, de facto, eram muitos os escravos que se afadigavam em redor dos canteiros de flores.
qqqqq- O sangue dos César é semelhante ao de todos os homens - epilogava ele. - É tépido e viscoso. Vi morrer nobres romanos, de veias abertas, e o seu sangue tinha a mesma cor do dos escravos mortos à sua volta. Não, Sereno, os homens transformam-se em feras porque não há regras de sucessão no topo do Império. Têm de matar para não serem mortos. As leis da eleição, próprias da República, não são utilizadas para designar o imperador. Prevalece o gládio e não o voto. Quem quiser ser imperador deve fiar-se nos pretorianos e não nos cidadãos; nos generais, nos governadores, e não nos senadores. O tempo da República, o tempo que antecedeu César não voltará.
qqqqq - Então é o sangue? O punhal e o veneno, o assassinato? A soberania ilimitada de um homem que o poder enlouquece... - insurgia-me eu.
qqqqqSéneca pegava-me no braço e, de cabeça baixa, como se falasse sozinho, murmurava:
qqqqq- Importa que o imperador seja um homem sensato que não sucumba à loucura do poder supremo que o iguala a um deus. Importa que governe com comedimento e clemência, no interesse do Império, e que não procure unicamente os prazeres que o poder ilimitado proporciona. Importa que alguns homens à sua volta o chamem à razão, à sabedoria, que se tornem seus amigos, seus conselheiros.
qqqqq- Calígula? - perguntava eu.
qqqqqSéneca olhava à sua volta, antes de concluir:
qqqqq- Só os punhais poderão interromper a sua corrida. Estou certo que já há homens que afiam as lâminas. Não te imiscuas, sereno. Ainda não chegou o nosso tempo, o da sabedoria.

Max Gallo, Os Romanos (II), Nero - O Reinado do Anticristo
(trad. Isabel St. Aubyn, Edições ASA)

Vida


Choveu! E logo da terra humosa
Irrompe o campo das liláceas.
Foi bem fecunda, a estação pluviosa!
Que vigor no campo das liláceas!

Calquem, recalquem, não o afogam.
Deixem. Não calquem. que tudo invadam.
Não as extinguem. Porque as degradam?
Para que as calcam? Não as afogam.

Camilo Pessanha, (1867 - 1926)
Clepsydra

Metallica - The Day That Never Comes

Dia 12 estão de volta...

Coimbra: ponte e Universidade

6 de setembro de 2008 (foto: Teresa Sousa)

Séneca


Filósofo e escritor nascido em Córdova no início da Era, foi levado para Roma muito jovem e aí recebeu o ensinamento dos Estoícos, fonte da sua reflexão filosófica e da austeridade da sua vida. Foi advogado e político. Esteve oito anos deportado na Córsega, sob a acusação de ter mantido relações com uma irmã de Calígula e só a intervenção de Agripina, depois de casada com Cláudio, lhe permitiu o regresso a Roma e o vir a ser preceptor de Nero. Nos primeiros anos de governo deste imperador foi notória a benéfica influência de Séneca, mas esta foi-se progressivamente perdendo, ao mesmo tempo que cresciam as tontarias do governante. Abandonou então a vida política (depois da morte de Burrus, certamente assassinado) e dedicoui-se por inteiro à Filosofia.

A filosofia de Séneca tem sido objecto das mais variadas interpretações, mas é reconhecido como o autor de maior renome do Estoicismo. É tido como um escritor assistemático, às vezes contraditório, a variar entre o péssimismo e o optimismo, ainda que sempre se apresente ecléctico, a aceitar aquilo que de outras doutrinas lhe parece verdadeiro. Valoriza o aspecto prático nos seus pontos de vista, como era tradição dos cínicos e estóicos, agregando ao directo ensinamento de Posídio elementos da doutrina platónica e peripatética. É, entre os estóicos, quem dá mais atenção à ideia de Deus (enquanto princípio consciente da unidade do universo), tendendo a abandonar o panteísmo. Veio a morrer no ano de 65, suicidando-se por imposição imperial.

(a partir de J. M. da Cruz Pontes, Logos)

O sábio

28 de fimdo se"O sábio basta-se a si mesmo." Amigo Lucílio, muita gente interpreta incorrectamente esta máxima, afastando o sábio do mundo que o rodeia e reduzindo-o aos limites do seu corpo. Por conseguinte é imprescindível distinguir bem o que significa, e qual o alcance desta frase: o sábio basta-se a si mesmo para viver uma vida feliz, não simplesmente para viver,na medida em que para viver carece de muita coisa, mas para ter uma vida feliz basta-lhe ter um espírito são, elevado e indiferente à fortuna. Vou citar-te também uma análise apresentada por Crisipo. Diz ele que o sábio não carece de nada, conquanto precise de muitas coisas: "o insensato, pelo contrário, não precisa de nada (precisamente porque não sabe o uso correcto de nada), no entanto carece de tudo". O sábio precisa das mãos, dos olhos, de muita coisa necessária à vida quotidiana, mas não carece de coisa alguma: carecer implica ter necessidade, ser sábio implica não ter necessidade de nada. Por isso mesmo, embora se baste a si próprio, precisa de ter amigos; deseja mesmo tê-los no maior número possível, mas não para viver uma vida feliz, pois é capaz de ter uma vida feliz mesmo sem amigos. O bem supremo não vai buscar instrumentos auxiliares fora de si mesmo; está concentrado em si, reside inteiramente em si, se for buscar ao exterior alguma parte de si, principiará a submeter-se à sorte.
6 de setembro do ano de 20008
Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio (Epistulae morales as Lucilium)
trad, pref. e notas de J. A. Segurado e Campos (F. Calouste Gulbenkian)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Uma coisa e outra diversa

Estava a descrever, como eternamente fazem os jovens poetas, a natureza, e para acertar no matiz exacto do verde olhou (nisso dando mostras de mais audácia que a maioria) para a coisa em si, que neste caso era um maciço de loureiros plantado mesmo por baixo da janela. A partir daí não conseguiu, é claro, escrever mais nada. O verde na Natureza é uma coisa, o verde na literatura outra bem diversa. Natureza e letras parecem nutrir uma pela outra uma natural antipatia; basta juntá-las para mutuamente se esfacelarem. O matiz de verde que Orlando agora via estragava-lhe a rima e desarranjava-lhe a métrica. Além disso, a natureza tem artimanhas muito suas. Espreitemos uma vez que seja, pela janela, as abelhas no meio das flores, o bocejo do cão, o pôr-do-sol, pensemos uma vez que seja "quantos mais pores-do-sol verei ainda", etc. etc. (a ideia é demasiado conhecida para que valha a pena registá-la por extenso) e largamos a pena, pegamos na nossa capa, deixamos o quarto, tropeçamos ao sair numa cómoda pintada. Porque Orlando era um tanto ou quanto desastrado.

Virginia Woolf, Orlando - uma biografia
(tradução Ana Luísa Faria)

Deuses

“Assim, pois, eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte.”
Platão – O Banquete

Vento no rosto

setembro de 2008 À hora em que as tardes descem,
setembro de 2008 noite aspergindo nos ares,
setembro de 2008 as coisas familiares
setembro de 2008 noutras formas acontecem.

setembro de 2008 As arestas emudecem.
setembro de 2008 Abrem-se as flores nos olhares.
setembro de 2008 Em perspectivas lunares
setembro de 2008 lixo e pedras resplandecem.

setembro de 2008 Silêncios, perfis de lagos,
setembro de 2008 escorrem cortinas de afagos,
setembro de 2008 malhas tecidas de engodos.

setembro de 2008 Apetece acreditar,
setembro de 2008 ter esperança, confiar,
setembro de 2008 amar a tudo e a todos.

António Gedeão, Movimento Perpétuo

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Ferdinand Porsche

Ferdinand Porsche nasceu a 3 de Setembro de 1875 e faleceu a 30 de Janeiro de 1951. Foi um engenheiro austríaco famoso durante sua carreira pelos projectos inovadores, e famoso nos dias de hoje pelo desenvolvimento do Carocha Volkswagen. Juntamente com seu filho e equipe, foi responsável pela construção do primeiro Porsche 356 - e pela fundação da própria Porsche, por consequência.
Desde muito jovem, Porsche demonstrou grande aptidão para trabalhos mecânicos. Ele teve aulas nocturnas na Escola Técnica Imperial (actualmente um ginásio na República Checa) em Liberec, enquanto ajudava seu pai em sua loja durante o dia. Graças a uma indicação, Porsche conseguiu um emprego com Bela Egger em Viena quando tinha 18 anos. Passou a frequentar a Universidade daquela cidade sempre que podia. Excluindo-se as aulas que teve ali, Porsche não teve nenhuma educação superior em engenharia.
Fonte: wikipedia