segunda-feira, 31 de março de 2008

A FELICIDADE É IMPOSSÍVEL

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A noite era a parte mais difícil do dia. A perspectiva de partilharem a mesma cama era aterradora para os dois. Por isso ficavam calados os dois, à espera do sono que não vinha, fingindo estar concentrados no programa que dava na Televisão, mas que, na verdade, não viam.
O ritual encenado que todos os dias praticavam na hora de deitar era um lento arrastar de corpos vazios onde já não havia nem alma nem química.
A distância era a única forma de lhes ser possível manterem uma imagem de normalidade que transpirava para o exterior.

5 comentários:

Anónimo disse...

"O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!
Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...
Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.
E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!"

Florbela Espanca

Anónimo disse...

"Foram montanhas? foram mares?
foram os números...? - não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
- e o encantamento arrependido
do meu amor."

Cecília Benevides de Carvalho Meireles

Anónimo disse...

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amor próximo distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes

Anónimo disse...

espuriamente púdicos na publicação dos comentários aos vossos posts, não ?
anónimo que debalde tem deixado comentários sitemáticamente censurados.
Não será esse espelho narcísico ?

paulo anjos disse...

Não há censura alguma, apenas uma medida de cautela. Por norma todos os comentários, com excepção daqueles que vêm repetidos duas e três vezes, são publicados.