domingo, 30 de março de 2008

de regresso, o Sr. Nogueira

Regresso de vista saudosa e encanto renovado, depois de uma ausência de recomposição, coisa que habitualmente se insinua como férias. Andei pela Estrada, saboreando o rigor de Cormac e fui-a percorrendo na lembrança dos tempos últimos do pai de Roth. Os génios não se distinguem e se – para alguns – apenas lá andam próximos, continua a não se saber como os graduar. E não é caso disso. Também já espreitei a Rosa Vermelha, na esperança que, todos os dias, menos custe a vida.

Depois de tantas ignorâncias, de si mesmo inconclusivas, regresso agora ao Sr. Nogueira (usando a expressão de AM) ou, de outro modo dito, ao Sr. Pessoa, agora na pessoa de Álvaro de Campos, engenheiro naval e poeta.

Trata-se de uma carta-resposta a um inquérito de A Informação, redigida no ano de 1926. As seis perguntas que justificaram a resposta eram:
1) Qual é, dos seus livros, aquele que mais estima?
2) Qual deles lhe trouxe mais admiradores?
3) Deve às suas obras alguma aventura amorosa?
4) Qual foi a maior compensação moral que lhe deu a literatura?
5) Algum dos protagonistas dos seus livros teve existência real?
6) Qual é a sua maior preocupação intelectual ao escrever
?

“1 – (…) Agrada-me estridentemente a “Ode Triunfal”, inserta em Orpheu 1. Sei bem que a “Ode Marítima”, trazida por Orpheu 2, tem mais construção e arredores; mas não esqueço que escrevi a primeira com emoção em linha recta, e que ela é a obra prima da sensibilidade moderna. São favores que devo aos Deuses: não quero ser ingrato para com eles, desreconhecendo-os.
2 – Tenho influído indeterminadamente em várias composições subsequentes, por não ter o segredo de ter influído nas anteriores. Mas não sei se me têm admirado aqueles que me têm admirado. O certo é que não tenho podido passar a minha emoção intelectual para os copistas da minha expressão dela. Mas contento-me com o que não me descontenta, e basta…
3 – Não costumo pôr à arte a canga da sexualidade. Confesso, contudo, que devo a uma obra minha, mas de maneira indirecta, uma aventura amorosa. Foi em Barrow-in-Furness, que é um porto na costa ocidental da Inglaterra. Ali, certo dia, depois de um trabalho de arqueação, estava eu sentado sobre uma barrica, num cais abandonado. Acabava de escrever um soneto – elo de uma cadeia de vários – em que o facto de estar sentado numa barrica era um elemento de construção. Aproximou-se de mim uma rapariga e entrou em conversa comigo. Viu que eu estava a escrever versos, e perguntou-me, como nestas ocasiões se costuma perguntar, se eu estava a escrever versos. Respondi, como nestes casos se responde, que não. A tarde, segundo a sua obrigação tradicional, caía lenta e suave. Deixei-a cair. É conhecida a índole portuguesa e o carácter propício das horas, independentemente das índoles e dos portugueses. Foi isto uma aventura amorosa? (…).
4 – A única compensação moral que devo à literatura é a glória futura de ter escrito as minhas obras presentes.
5 – (…) As coisas são sensações nossas, sem objectividade determinável, e eu, sensação também de mim mesmo, não posso crer que tenha mais realidade que as outras coisas. Sou, como toda a gente, uma ficção do “intermezzo”, falso como as horas que passam e as obras que ficam, no rodopio subatómico deste inconcebível universo.
6 – Não tenho preocupação intelectual ao escrever. Tenho a única preocupação de emitir emoções, deixando à inteligência que se aguente com elas o melhor que puder. Tenho o desejo de ser de todos os tempos, de todos os espaços, de todas as almas, de todas as emoções e de todos os entendimentos. Mesmo que tudo é nada para a alma que não cata piolhos na lógica, nem olha para as unhas na estética. Não podendo ser a própria força universal que envolve e penetra a rotação dos seres, quero ao menos ser uma consciência audível dela, um brilho momentâneo no choque nocturno das coisas… O resto é delírio e podridão”.

12 comentários:

Anónimo disse...

Sr.Nogueira pergunta a penasuave;
1)Qual é, dos seus textos, aquele que mais estima?
2)Qual deles lhe trouxe mais admiradores?
3)Deve aos seus escritos alguma aventura amorosa?
4)Qual foi a maior compensação moral que lhe deu o acto de escrever?
5)Algum dos protagonistas dos seus escritos teve existência real?
6)Qual é a sua maior preocupação intelectual ao escrever?

Anónimo disse...

Para já não vislumbro solução, e também já espreitei a Rosa Vermelha...depois de tantas ignorâncias:"Os génios não se distinguem e se – para alguns – apenas lá andam próximos, continua a não se saber como os graduar."

A M disse...

Boa!
vou-me deitar sob o coberto do linho
e trinar a cabeça, cuidando que adivinho
espremer o suspreso coração
e tentar responder à questão.

Tomando-me apenas por um dos questionados,
direi os meus bocados.
sem petas;
directamente ou pelos Letras.

Brevemente.

J L disse...

Já o Nogueira dizia... sou apenas mensageiro. Aqui, só copista. Que respondam os anjos os castros os meses. Posso só anotar. E boa sorte, pela velocidade da ideia.

Anónimo disse...

"O resto é delírio e podridão”....


Doente. Sinto-me com febre e com delírio
Enche-se o quarto de fantasmas
Uma visão desenha-se ante mim
Debruça-se de leve…

É uma mulher de sonho e suavidade
E disse-me baixinho:
“Eu me chamo Saudade,
E venho para levar-te o coração doente!

Não sofrerás mais; serás fria como o gelo;
Neste mundo de infâmia o que é que importa sê-lo

Nunca tu chorarás por tudo mais que vejas!”

E abriu-me o meu seio; tirou-me o coração
Despedaçado já sem uma palpitação,
Beijou-me e disse “Adeus!” E eu: “Bendita sejas!…”

Florbela Espanca

Anónimo disse...

Cada insensível rotação do mundo tem destes deserdados a quem não pertence nem o que foi, nem o que há-de seguir-se. Pois o que há-se seguir-se é longínquo para os homens. A nós isto não nos deve perturbar; antes nos dê a força de guardar a forma ainda reconhecível. isto que outrora estava entre os homens, no seio do destino, desse destruidor, estava no não-saber-para-onde ir, como ser sendo, e vergava para si as estrelas de céus firmes"

Rainer Maria Rilke, As Elegias de Duíno.
trad. Maria Teresa Furtado

A M disse...

"Ainda sou eu que escrevo
ou já vendi o meu estilo
e malbaratei memórias minhas?
Memórias, não. Que eu imagino linha a linha, o que me dizem,
num morto diálogo de família,
três gerações, e ainda
um Mestre, operários e eu.

Que me oiçam, pois, a dizer algo e a desdizer,
e o Todo que nos pára e separa"

Fiama Pais Brandão (Cenas Vivas).

Não é resposta, ainda, às perguntas primeiras...

Anónimo disse...

"Chama-se liberdade o bem que sentes,
Águia que pairas sobre as serranias;
Chamam-se tiranias
Os acenos que o mundo
Cá de baixo te faz;
Não desças do teu céu de solidão,
Pomba da verdadeira paz,
Imagem de nenhuma servidão!"

Miguel Torga

Anónimo disse...

Aquele que sabe falar, sabe também quando fazê-lo!
Um abraço do Nogueira

Anónimo disse...

Diz alguém:"acerca de mim... não faço uma ideia suficientemente precisa."
Sugiro que se vá "deitar sob o coberto do linho e trinar a cabeça, cuidando que adivinho espremer o surpreso coração
e tentar responder à questão,sem petas..."

Nogueira

A M disse...

Tinha meu bom avô uma Nogueira
centenária, onde à sua maneira
me ensinava as palavras certas
as que se desbrigam das petas.

Dizia-me que o som da poesia,
era o trocar de olhos lavados
que além de saltos e alegria
os netos assim eram ensinados

No mais do inquérito não saberei responder
mas o que a vida me trouxe em atacado
de tanto o perguntante assim merecer
vou acrecentar, agora, ao neto ensinado.

Oportunamente, claro.

Abraço ao Sr. Nogueira.

A M disse...

desabrigam das petas ...Claro (porque brigar, brigam)