quinta-feira, 13 de março de 2008

Os pregos na erva

(...)
Leonardo sentou-se aos pés da cama, à espera que a chuva abrandasse. Depois, encorajado pelo pensamento de que se partisse já com ela feita, de volta da fábrica apenas teria de que deitar-se, retirou os lençóis, os cobertores, e amontoou-os no chão lavado. Estendeu o lençol e lembrou-se de Raquel. Desejou-a deitada nele, não despida mas antes do momento de despir-se, ainda nublada pelo vestido, passiva sob a esperança em vias de consumar-se. pegou no outro lençol, nos dois cobertores aos quadrados castanhos e pretos, com um fruto em cada quadrado, e acabou de fazer a cama.

Maria Gabriela Llansol

Eu deixei de fumar e arrependi-me

Devo ter começado a fumar aos doze ou treze anos. Mas só comecei a engolir o fumo aos catorze, depois da humilhação produzida por um amigo que notou a minha maneira superficial de fumar. Ele denunciou-a como sendo uma batota. Mas era só ignorância. Queria ser um fumador a sério. Desde essa vez, nunca mais parei de engolir o fumo.

Passaram vinte anos, sempre dedicados e fiéis ao tabaco. Fui esmerado e leal. Até que um dia, ingrato, deixei de fumar. Eu não só fumava muito como também cheguei a ter um método que evitava uma impossível e indesejada saturação. Começava pela manhã com Marlboro; não essas mariquices lights, mas os verdadeiros, os dos cowboys com música de Os Sete magníficos. Quando podia, fumava Craven A, os meus preferidos, com um maior teor de nicotina e de condensado de alcatrão. Ao fim da tarde, passava aos míticos Gitanes sem filtro. Não andava ali a brincar. (…)
Até que um dia tomei a decisão de deixar de fumar. Não foi por medo de doença nenhuma. O cancro e os problemas cardiovasculares, não sei porquê, não conseguem ser suficientemente dissuasores. Suponho que se o tabaco provocasse herpes ou varíola as campanhas antitabágicas seriam mais eficazes. O meu problema era simples: acordava com uma tosse incómoda, barulhenta e muito, muito pouco discreta. Só passava depois do segundo ou terceiro cigarro. Foi assim que, farto desse acordar de tísico e de dar nas vistas, decidi abandonar o tabaco. Foi então que o pesadelo começou. O primeiro dia foi menos duro do que se poderia esperar. É uma questão de orgulho. Assim que comunicamos aos nossos mais chegados, ficamos com uma espécie de sensação de vaidade messiânica. Sobretudo se os mais chegados também fumam como morcegos. O problema começa no dia seguinte. Aquela pressão dos mais chegados transforma-se em indiferença. “Queres um cigarro? Ah! É verdade. Não te incomoda que fume” é o tormento mais usual. Sei de casos de desistências absolutamente deprimentes. De pessoas que três ou quatro dias depois recomeçaram a fumar e ninguém deu por nada. Eu não. Fazia questão que o mundo soubesse (…).
Ao segundo dia de ter deixado de fumar conheci a insónia pela primeira vez. Odiei-a, mas ela nunca mais me deixou. Dia, semanas e meses estive à procura do químico exacto que me devolvesse o meu dormir de bebé (…).
No meio de tanta infelicidade, decidi que pelo menos não podia andar a privar-me de tudo. Era necessário compensar tamanha falta de alegria. À medida que aquele mal-estar de que falei no começo desaparecia, o apetite e o sabor pela comida e a bebida aumentavam. Sempre gostei de comer e de beber, mas quando deixamos de fumar o sabor das coisas é mais puro, mais límpido. Isto parece bonito dito assim. Mas não é. È trágico. Para já desminto que antes de abandonar o tabaco eu era alto, loiro e magro. Eu era só magro. Deixei de o ser (…).
A propósito: quando fumava, qualquer mal-estar otorrinolaringológico, respiratório ou de simples fadiga era rapidamente explicado pelos meus excessos tabágicos. Agora, cada vez que tenho uma amigdalite, uma tosse inesperada, uma sonolência inoportuna, não tenho a quem raio culpar. Gasto o dobro em médicos, agora que estou livre do vício e supostamente saudável. Era tão bom dizer: “Ena pá! Estas escadas dão cabo de mim. Estou a fumar de mais. Tenho que me cuidar, pá…tens lume?”

Carlos Quevedo (nos idos de 1990), Já Não Me Lembrava – os delírios da Kapa e outros textos, Oficina do Livro, 2006.

Com especial dedicatória ao ilustre Viriato Castro e em desagravo de malévolos dizeres que diamantes (ralos como o talco) lançam à blogosfera, sem propósito.

Em memória

Leonardo via a noite desfazer-se, num ritmo apressado, através das vidraças livres de cortinas. O dia poluía o repouso da noite e começava a opor sombra e luz à escuridão uniforme. Pairava sobre a sua cabeça apoiada no colchão, sem travesseiro que a elevasse, um presságio de repouso acabado. Um movimento latente crescia nas calças e na sua camisa, estiradas na cómoda gelada por um tampo de mármore, ao lado do prato com o pão partido. Maria Gabriela Llansol, Os pregos na erva.

Páscoa, 1916

Encontrei-os ao fechar do dia;
vinham com rostos vívidos
Do balcão ou secretária, por entre
Casas cinzentas setecentistas.
Passei com um acenar de cabeça
Ou palavras de cortesia sem sentido,
Ou então demorei-me um pouco e disse
Palavras de cortesia sem sentido,
E pensei antes de partir
Numa história jocosa ou chalaça
Que agradasse a um amigo
À volta do fogo no club,
Na certeza de que vivíamos
Onde reina o bobo multicolor.
Tudo mudou, de todo mudou,
E uma terrível beleza nasceu.
(...)

William B. Yeats
(trad. João Ferreira Duarte
Leituras - poemas do inglês
Relógio d'Água, 1993)

The Falling of the Leaves

Autumn is over the long leaves that love us,
And over the mice in the barley sheaves;
Yellow the leaves of the rowan above us,
And yellow the wet wild-strawberry leaves.

The hour of the waning of love has beset us,
And weary and worn are our sad souls now;
Let us part, ere the season of passion forget us,
With a kiss and a tear on thy drooping brow.

William Butler Yeats

quarta-feira, 12 de março de 2008

Seinfeld: favorite moments

A melhor série de todos os tempos?

Seinfeld

Tudo pode tentar-me

Tudo pode tentar-me a que me afaste deste ofício do verso:
Outrora foi o rosto de uma mulher, ou pior -
As aparentes exigências do meu país regido por tolos;
Agora nada melhor vem à minha mão
Do que este trabalho habitual. Quando jovem,
Não daria um centavo por uma canção
Que o poeta não cantasse de tal maneira
Que parecesse ter uma espada nos seus aposentos;
Mas hoje seria, cumprido fosse o meu desejo,
Mais frio e mudo e surdo que um peixe.

W. B. Yeats
(trad. José A. Baptista)

terça-feira, 11 de março de 2008

tua luz

Queria eu a luz que vejo
Na escuridão da procura
Tendo ela o som de beijo
Três gestos antes de tua.

Foi esta a quadra exacta
E nesse momento preciso
Lançaste o olhar que mata
As réstias do meu juízo.

De que serviria correr?
Dali já fugira o eu…
E o outro queria morrer
Ao ver-te no olhar o céu

Ridículo!, assim escrito, este amor
Ou outro, explicaria o Sr. Fernando
De repente, no Pólo seca-se de calor
E parece eterno um pequeno quando

segunda-feira, 10 de março de 2008


Roth

(o que os romances fazem ao leitor comum) Os romances fornecem aos leitores algo para ler. Quando muito, os escritores mudam a maneira dos leitores lerem. Essa parece-me a única expectativa realista. Também me parece que seja o bastante. Ler romances é um prazer profundo e singular, uma actividade humana absorvente e misteriosa que não exige maior justificação moral do que o sexo.
(como se descreveria; como se julga ser, comparado aos seus mutáveis heróis) Sou como alguém que esteja vivamente a tentar sair de si mesmo e transformar-se nos seus heróis mutáveis. Sou muito parecido com alguém que passa o dia todo a escrever.

Entrevista a Hermione Lee, 1983-1984, Paris Review

Primeiro Final

Foi numa tarde de Julho que ela concretizou os meus piores receios…
O Verão submetia-nos à sua real dimensão. Estávamos os dois sentados no sofá de minha casa tentando espantar o calor que insistia em dar uma consistência gelatinosa aos nossos corpos.
Ela trazia no rosto a marca de cemitérios e de funerais, aniquilando desta forma toda a esperança (que agora só a mim fazia sentido) num futuro. Como ela não conseguia falar foi necessário que a pressionasse até que ela disse:
-Eu adoro-te, mas já não sei se te amo. As palavras tinham ainda o sabor do mel, mas eram frias, distantes e afiadas como uma navalha de capar grilos ou porcos.
- Não quero que me adores, disse eu. Não me adores. Prefiro ter o teu amor ou o teu ódio, porque ser adorado implica distância e eu quero-te sempre perto de mim.
-Lamento muito, mas não posso. Nos olhos dela nasciam lágrimas azuis e transparentes. Não sabes como eu lamento, mas não consigo viver com uma pessoa que não tem objectivos nem sabe lutar.
Cheguei a pensar rebater as conclusões dela e dizer-lhe que apesar de não lutar, nunca deixei de ter objectivos, nunca deixei de sonhar, mas achei que não valia a pena, que ela tinha tomado a decisão que achava mais correcta e que não voltaria a trás.

Nessa Noite sonhei com Sereias e Barcos naufragados mostrando sinais de rombos de esperança no Casco.
Publicada originalmente em http://estranhoanjo.blogspot.com/

O QUINTO IMPÉRIO

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa-- os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

Fernando Pessoa
Mensagem

Será que alguém ainda sonha,
com este cumprir de Portugal?
Ou apenas se esconde a vergonha
por apenas se ter um destino normal...

sábado, 8 de março de 2008



Subo onde, se te não vejo?


No fundo, procuro-te

no fundo, perdendo

a vista onde vi

perderes o passo


ritual

Esse ritual que desenhas na penumbra,
se bem penso,
parece-me estudado;
treinado para apenas se vislumbrar um esboço,
sem espessura.
A primeira vez
- quantos anos lá vão?... -
cuidei ser apenas um modo,
igual a qualquer outro,
de te livrares dos adereços.

Prodígios

Esquecendo tantos outros merecimentos, tantas fantásticas escritas, fica aqui, ainda em louvor da data, um começo maravilhoso. Afinal, o titulo salvaguarda-me: o dia é mesmo de (dos) prodígios.
"Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os que crêem nas palavras. Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar. Enquanto um pensa, fala e se move, aguardam os outros a sua vez. O breve tempo de uma demonstração.
Carminha parecia fazer adeus, mas apenas lavava janelas."
Lídia Jorge, O Dia dos Prodígios.

No dia

Em louvor da data que corre, socorro-me de Fernando Pessoa, quando louva, sublime, duas mulheres sublimes:

D. Tareja

As nações todas são mistérios.
Cada uma é todo o mundo a sós.
Ó mãe de reis e avó de Impérios,
Vela por nós!

Teu seio augusto amamentou
Com bruta e natural certeza
O que, imprevisto, Deus fadou.
Por ele reza!

Dê tua prece outro destino
A quem fadou o instinto teu!
O homem que foi o teu menino
Envelheceu.

Mas todo vivo é eterno infante
Onde estás e não há o dia.
No antigo seio, vigilante,
De novo o cria!


D. Filipa de Lencastre

Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto sério
Princesa do Santo Gral,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal.

8 de Março

A vós que no sem desejo m’enlouquecem
entre esperanças várias e gesto desmedido
Ficam as glórias enormes que enobrecem
todo o caminho das vidas e o seu sentido

Mães dos soldados, sem o quereres,
mães de poetas por dádiva de atenção
Vós também santas, pois sois mulheres
que fazeis das rosas um regaço de pão

Feito o preito, dito em escasso saber
que o merecimento seria bem maior,
fica a lembrança teimosa de vos ver
e onde olhar-vos é gesto de louvor.

sexta-feira, 7 de março de 2008


MÃE/MAR

Quando fores velhinha e de cabelo branco
Continuarás a sentar-te junto do mar
Naquele banco onde sempre te olho em espanto
E ver-te é um exercício completo de sonhar

Olhamos o mar aberto de olhos trocados
Indiferentes à visão sozinha de cada qual
Mas ao olhá-lo e sentindo os mesmos bocados
Eu sei que nos teus olhos o quadro é integral

Mais tarde os dedos falharão os traços d’artista
Com que me pintaste o tempo toda a vida
Ao areal e ao verde não chegará a mesma vista
Porque foi comprida a tua missão cumprida

Mas ensinarás lembrança mesmo em gestos lentos
Colorindo em sépia os recortes fugidos
Como quem enlaça da vida todos os momentos
E certifica a memória como foram vividos

Temo a saudade de olhar o banco, apenas
E ver-te igual, mas sem te ouvir a voz
Mesmo que no olhar me escrevas poemas
A rimar que os dois nunca seremos sós

Cem anos que vivesse te sentiria
Em cada instante que fecho os olhos
É impossível não respirar a maresia
Que contigo se mistura em meus sonhos

(2.ª edição, revista)

Antonio López

Gran Via, 1974-1981
Óleo sobre tela
90,5cmx93,5cm
Colecção particular
Mais um Pintor. Desta feita é o espanhol António López Garcia. A sua técnica hiper-realista é conseguida através de um trabalho minucioso de paciência. Esta obra foi realizada ao longo de 7 anos, onde o pintor procura captar a luz do nascer do sol, numa determinada época do ano. Pode-se reparar no pormenor do relógio digital parado às 6h e 30m o que acrescenta ao quadro uma dimensão de temporalidade.

Ainda n' A ESTRADA

Ainda A Estrada. Ou percorrendo A Estrada. Vendo e revendo.

“A fragilidade de todas as coisas enfim revelada. Velhos dilemas inquietantes esvaziados de sentido, dando lugar ao nada e à noite. O derradeiro exemplo de uma coisa leva consigo toda a categoria. Apaga a luz e desaparece. Olha à tua volta. Nunca é imenso tempo. Mas uma coisa o rapaz sabia. Que nunca é apenas um breve instante.
Sentou-se junto a uma janela cinzenta à luz do final da tarde, numa casa abandonada, e leu velhos jornais enquanto o rapaz dormia. As curiosas notícias. As bizarras preocupações.
(…)
Ele dormitava no calor maravilhoso. A sombra do rapaz passou-lhe sobre o corpo, a transportar uma braçada de lenha. Ficou a vê-lo atiçar as chamas. O meteoro chamejante de Deus.
(…)
Que mal teriam eles feito? Parecia-lhe bem possível que, na história do mundo, houvesse mais castigo do que crime, mas isso não lhe proporcionava grande consolo.”

Na tradução de Paulo Faria, CORMAC McCARTHY (Relógio d’água)

quinta-feira, 6 de março de 2008

poema

A cor da neve no rasto da lua
O tom do nevoeiro após a chuva
A luta do olhar por uma súplica
O som do sorriso quando te vejo

Tinha na veia um poema necessário

que precisava de escrever no teu peito
a escorregar, lânguido, em tons de vento
e que desça em encanto
ou encantamento

Olha, é o House, não é?


E antes de ser Doctor House ou mesmo o Zé Pesca (como, de resto, aqui se mantém), já Hugh Laurie era um bom artista, agradando qualquer um que o visse a trabalhar.

E também se ri aqui.

Gerhard Richter 2


Wolkenstudie (Gegenlicht) / Cloud Study (Contre-jour)1970
80 cm X 100 cm
Óleo Sobre Tela
Deixo mais uma imagem de um quadro do Pintor vais valioso da actualidade e que, infelizmente, em Portugal poucas pessoas conhecem. Como mera informação posso indicar que esta obra, que faz parte de uma série de várias dedicadas às nuvens, se encontra exposta no Museu Staatliche Kunstsammlungen, em Dresden, e que foi adquirida por mais de 3 milhões de Dolares americanos.
P.S. - Quem quiser roubar tem a minha integral autoização...

terça-feira, 4 de março de 2008

adúlteros desorientados

Existe la creencia generalizada de que el adúltero identifica a la esposa con la madre y a la amante con la mujer. Pero no es seguro. Resulta más verosímil pensar que quien juega el papel de madre sea la amante. El adúltero se escondería, precisamente, para ocultar al mundo esa forma de incesto atenuado. En ese sentido, el adulterio guarda relación con la muerte, pues la vuelta a la madre es un intento de regresar al útero y de desaparecer por tanto. De hecho, cuando el adúltero ejerce las labores proprias de su ministerio, es como si se encontrara en el interior de una tumba, pues nadie sabe donde está. Cuando sale a la calle despúes de haber pasado la tarde o la noche con la amante, es como si resucitara, o como si naciera, pues todos los lugares del adulterio tienen mucho de útero. El adúltero es en realidad un (ad)útero.
Otro caso interesante es de los adúlteros que se engañan a sí mismos(...).
Juan José Millás
Cuentos de adúlteros desorientados, Lumen.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Urban Style


E porque na esplanada à beira da Catedral também se aspira a um estilo de vida decididamente urbano, sofisticado e viciado no puro bom gosto, a sugestão literária de hoje é dedicada a esta Revista.


Moda, design, arquitectura, conceitos - tudo junto num excelente exercício de fusão bem conseguido.


O grafismo (acompanhado por uma objectiva fotográfica certeira) procura dar o destaque que as notícias merecem. Ao contrário de outras tantas publicações - lusas, claro está - a Wallpaper não se detém na sede de protagonismo de quem nela escreve, procurando, isso sim, dar a conhecer o que de melhor se faz na Europa e no Mundo.

As ideias são o que realmente conta, fazendo acreditar que é mesmo possível voltar a outros tempos onde o espírito criativo tinha o poder de mudar mentalidades, convenções e até políticas.


De facto, conseguíssemos nós trazer de volta o Renascimento e na capa desta revista teríamos o loft de Leonardo Da Vinci, o estúdio de Miguel Ângelo e as capas dos discos que eventualmente Rafael ouviria enquanto pintasse.


A Wallpaper é assim - um canhenho de ideias que adquirem forma, volume, tempo e profundidade.


Um "must", simplesmente.

domingo, 2 de março de 2008

Flor

Sonho, por vezes,
Com o teu corpo estendido,
Repousando,
Nas águas que conduzem ao esquecimento.

Sem frutos,
Sem sementes,
Uma flor destinada a ser
Aquilo que apenas foi...

sábado, 1 de março de 2008

o nexo mais fraco


Sei que é por arribar aos meses primeiros. O Fevereiro, tal como o Janeiro frio, é invento retardado. Vou de motorizada ao sítio que não encontro e desespero (suavemente) em busca de respostas. À porta. Guardando o pórtico da dúvida. A alma acomoda-se ao ténue cair dos dias semelhantes. Sofrimento calado de noites escondidas, em perda de olhos desaparecidos nas amizades inventadas. Se não há aceleração, sobra o ritmo, coragem de primitivas necessidades, filho de circunstâncias. Não há areias que agitem o mar (de sargaço) que se compromete em lassidão. Não há amoras bastantes – mesmo se poucas – porque se esquecem na negra brancura dos lençóis gastos, indolentes a nos enxotar ao mundo, a nos forçar a abrir os braços. Como um abraço, medianamente abrangente.

(a pedido de um amigo, autor garboso, que, algumas vezes, toma cicuta em lugar de água mineral. E me deu a entender que a loucura é uma contagem não estatística da normalidade)

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Ascensão

Porque, de alguma forma, esperávamos ascender a algo, entramos os três no elevador…
Ele desejava-a… tentava disfarçar o desejo por detrás e brincadeiras, mas, no fundo tudo o que ele queria era atear-lhe o fogo que o consumia.
Ela, falsa como sempre, fingia não perceber (era imperioso não perceber) o desejo dele. Fingia aceitar as “brincadeiras” dele como brincadeiras, mas, no entanto, não conseguia disfarçar o ardor que lhe humedecia as entranhas. E eu encostado num canto, ignorado pelos dois, senti que a minha ascensão seria sempre algo estranho, apenas uma fracção de mim próprio.
E dia 29 passou, sem calor e sem desilusão…

Sans titre


29.02.1996

(ao amigo AV)

Tantos os anos que lá vão, nem os contei
Mas vejo ser muito o tempo a ti roubado
Ou, talvez, descrente, sequer eu reparei
Que continuarás em Céu mais abrigado.

Como não entendo a vida que nos dão
Ainda menos entenderia uma vida outra
Deixo só uma palavra pobre de gratidão
Por aceitar que nos guardes aquela Porta.

No mais, muito mais que pouco digo
Manda a saudade que o verbo traça;
Só na aparência não estamos contigo
Só na pequenez a morte é uma desgraça.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

J.L.B.

Quando Borges chegou a Genebra para morrer, vinha acompanhado por María Kodama. No início dos anos 60 ela fora sua aluna de Literatura Anglo-saxónica e Nórdica. Tinha metade da idade dele. Quando se casaram, oito semanas antes de ele morrer, mudaram-se de um hotel numa rua-arquivo chamada Rue de la Tour-Maîtresse, para um apartamento que ela encontrara.
Este livro, escreveu ele numa dedicatória, é teu, Maria Kodama. Deverei dizer-te que esta inscrição inclui crepúsculos, os veados de Nara, noite solitária e manhãs povoadas, ilhas, mares, desertos e jardins partilhados, aquilo que o esquecimento perde e a memória transforma, a voz aguda do muezzin, a morte de Hawkwood, alguns livros e gravuras?... Só podemos dar o que demos. Só podemos dar o que já pertence ao outro!

John Berger, Aqui Nos Encontramos
(trad. Isabel Leite da Silva)

Inscrição (J.L.B.)

Escrever um poema é ensaiar uma magia menor. O instrumento dessa magia, a língua, é assaz misterioso. Nada sabemos da sua origem. Só sabemos que se ramifica em idiomas e que cada um deles consta de um indefinido e mutável vocabulário e de um número indefinido de possibilidades sintácticas. Com esses inacessíveis elementos formei este livro. (No poema, a cadência e o ambiente de uma palavra podem pesar mais do que o sentido).
É seu este livro, Maria Kodama. Precisarei dizer-lhe que esta inscrição compreende os crepúsculos, os cervos de Nara, a noite solitária e as populosas manhãs, as ilhas partilhadas, os mares, os desertos e os jardins, o que o esquecimento perde e o que a memória transforma, a alta voz do almuadem, a morte de Hawkwood, os livros e as gravuras?
Só podemos dar o que já tivermos dado. Só podemos dar o que já é do outro. Neste livro estão as coisas que sempre foram suas. O mistério que é a dedicatória, uma entrega de símbolos.

Jorge Luis BORGES, Os Conjurados
(trad. Maria P. Pereira e Salvato T. de Meneses)

RM

Desassossegas, lá ao fundo do blogue
(como quem ouve e responder não pode)
enquanto te procuram, desesperados
atrás de telas e de véus esfiapados...

Responde-nos, RM, ou dá qualquer sinal
qualquer que seja o teu estado actual
(como se encontram as válvulas e o motor)
pois fatigamos em procura e ardor.

Desassossego II

Abandonar todos os deveres, ainda os que não nos exigem, repudiar todos os lares, ainda os que não foram nossos, viver do impreciso e do vestígio, entre grandes púrpuras de loucura, e rendas falsas de majestades sonhadas... Ser qualquer coisa que não sinta o pesar da chuva externa, nem a mágoa da vacuidade íntima... errar sem alma nem pensamento, sensação em si mesma, por estrada contornando montanhas, por vales sumidos entre encostas íngremes, longínquo, imerso e fatal... Perder-se entre paisagens como quadros. Não-ser a longe e cores...

Bernardo Soares

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Desassossego

Que serve sonhar com princesas, mais que sonhar com a porta da entrado do escritório? Tudo que sabemos é uma impressão nossa, e tudo que somos é uma impressão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos construímos nossos próprios espectadores activos, nossos deuses por licença da Câmara.
(...)
Olho, como uma extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.
Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da pouca luz do cárcere a que se habituara.

Bernardo Soares

The Road

Cormac McCarthy reste l'un des écrivains les plus secrets d'Amerique. Reclus du côté de la frontière mexicaine, tournant les dos aux micros et aux caméras e creuse son sillon en solitaire, claquemuré derrière les murailles d'une ouvre magistrale, tourmentée, hantée par la violence aveugle d'une époque maudite dont le diable semble orchestrer le destin.
(...)
Les deux pénitents de McCarthy sont inoubliables. Il ne leur reste qu'une seule issue: marcher vers la mer. Où les rivages sot fouettés par le sinistre ressac de la damnation. Mais où un pére peut encore serrer son fils contre son coeur. Et où un écrivain peut encore répandre quelques mots sur la grève, comme on vide un chargeur, pour que résonne "l'ultime musique terrestre".
Celle de McCarthy, lyrique, dépouillé, tragique, est un très grand moment de littérature.
André Clavel, Lire (Fev. 2008)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Seda

Seta é o título original do livro de Alessandro Barico, recentemente publicado pela Dom Quixote. É considerado o best seller deste autor nascido em Turim em 1958 e que publicou, além de peças de teatro e ensaios, os romances Oceano Mar, Sem Sangue, Esta História e City, depois de, aos trinta e três anos, se haver iniciado com Castelos de Raiva.
Seda é um romance suave, falsamente lento, que conta a história de Hervé Joncouer, um negociante de bichos-da seda francês que estabelece ligações com o Japão. O livro é de leitura rápida e assemelha-se a um conto longo.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

autoridade


Gehard Richter



Seestuck (Gegenlicht) / Seascape (Contrejour)1969
200 cm X 200 cm
Óleo sobre tela

Filho da Pauta

Ao sabor de uma Perrier (what else?...), o som que se vai ouvindo na Esplanada é o deste senhor. Vincent Delerm... Voz agradável, letras engraçadas - embora buscando um dado cliché de "vivre amoureux", é certo - e melodias descontraídas. Uma breve sugestão para o gira-discos.

domingo, 24 de fevereiro de 2008


Distância

Sentia no corpo e no olhar dela a distância de quem era capaz de esquecer. E eu, receando o que era então inevitável, transformava-me frequentemente num molusco, vivendo na esperança que os meus tentáculos e as minhas ventosas fossem o suficiente para a manter junto de mim. Nunca o foram… Por isso sentia, de uma forma dolorosa, que ela me fugia viscosamente por entre os tentáculos, evitando todas as minhas tentativas de aproximação, deixando uma sensação de paralisia nas guelras e nas cordas vocais.

No Country for Old Men


Antes da chegada do veredicto da Academia, fica o livro: seco, sóbrio, suave e hábil. Sendo certo que literatura não é cinema, venha a escolha.

MÃE/MAR

Quando fores velhinha, de cabelo branco
Continuarás a sentar-te feliz junto do mar
No banco onde ainda t’espreito de espanto
E ver-te é um exercício inteiro de sonhar.

Os dedos já falharão os traços de artista
Com que me pintaste o tempo toda a vida
O areal, o verde não abarcará a mesma vista
Porque foi comprida a tua missão cumprida.

Temo a saudade de olhar o banco, apenas
E ver-te tal e qual, mas sem te ouvir a voz
Ainda que no lembrado olhar dites poemas
A dizer-me que nós dois nunca estamos sós.

Cem anos que eu vivesse te sentiria
Em cada instante que cerro os olhos
É impossível não respirar a maresia
Que contigo se mistura em meus sonhos.

(1.ª versão)

sábado, 23 de fevereiro de 2008

uma história verdadeira



Só o conhecia em lígua espanhola. Tal como a generalidade do Roth, mostra uma serena angustiosa escrita, com o muito de pessoal que não ignora a universalidade de todos. Agora, na língua de cá da fronteira, será interessante repetir. Vou correndo. Darei notícias.

Les intermittences de la mort

L'oeuvre de Saramago est une toile d'araignée aux allures de gigantesque parabole: à chaque noveau livre, on y voit le monde se détraquer un peu plus, comme si l´humanité courait à sa parte. (...) Ce roman est une fable délirante, une farce tragi-comique où la métaphysique croise la pataphysique, où Cioran se fait alpaguer par le pére Ubu. Et où Saramago brocarde joyeusement une humanité qui chavire parce que son plus vieux rêve - devenir immortel - se transforme soudain en cauchemer. Moralité: la mort, notre pire ennemie, nést pas si détestable que ça.
Lire, Février 2008

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008


GLOSA

Quem me roubou a minha dor antiga,
E só a vida me deixou por dor?
Quem, entre o incêndio da alma em que o ser periga,
Me deixou só no fogo e no torpor?

Quem fez a fantasia minha amiga,
Negando o fruto e emurchecendo a flor?
Ninguém ou o Fado, e a fantasia siga
A seu infiel e irreal sabor...

Quem me dispôs para o que não pudesse?
Quem me fadou para o que não conheço
Na teia do irreal que ninguém tece?

Quem me arrancou ao sonho que me odiava
E me deu só a vida em que me esqueço,
"Onde a minha saudade a cor se trava".

Fernando Pessoa, 1929

MA VIE

Tu t´en vas sans moi, ma vie.
Tu roules,
Et moi j´attends encore de faire un pas.
Tu portes ailleurs la bataille.
Tu me déserts ainsi.
Je ne t´ai jamais suivie.
Je ne vois pas clair dans tes offres.
Le petit peu que je veux, jamais tu ne l´apportes.
A cause de ce manque, j´a aspire à tant.
À tant de choses, à presque l´infini...
À cause de ce peu qui manque, que jamais tu n´apportes.

Henry Michaux

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008



cuco teimoso

O relógio do sétimo, cucando rouco, insistia em avisar por doze vezes que estávamos a meio da noite. Chega!, desabafei-lhe com um som irritado. Deu resultado: só passado uma hora inteira ele voltou a si, e praguejou tímido, uma vez única. Dormi que nem um absolvido, horas atrás de outras. O tolo, julgando-se já liberto, voltou a guinchar doze avisos, assim que a manhã chegou ao fim. Haja paciência…

lábios

Deixa que eu beije os teus lábios rotos
ansioso os vejo, carentes como poucos
deste reencontro pintado de vermelho.

Antes de te chegar, treino-me ao espelho
Antecipando receio de me imaginar velho

Os teus são só os meus, que ali emolduro
não vendo mais que meus se teus procuro
mas insisto em treinar-me pró reencontro
acreditando assim que teus não desaponto

Amanhã, muito cedo ainda, partirei
carregando juventude e longo estágio
e esses lábios que aos meus encostarei
são dos do espelho a carne de plágio.

Afinal, é apenas nosso o que expandimos
fingindo e sonhando ser pertença de outro
e tudo isso, nosso e não, ainda repartimos
deixando-nos, a nós, pedaços de tão pouco

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

T S Eliot

ora aí está!

Claro que não podia consentir aquela nobreza inglória de arruinar as contabilidades. O cavalheiro tem um gosto hirto, parece um pêndulo quando deixa cair os olhos nas somas e nas diferenças! Dito isto, avançou o Sr. Nogueira a descoberta metafísica: o homem, sim obstante, tinha um peculiar decaimento para vasculhar o oco do ser e, como o oco se sonoriza, pintava um eco a cada observação. Tinha de o escolher, concluiu veemente. O VG? – atrevi-me. Paciência, ripostou o Sr. Nogueira: cada Soares tem o seu VG, tal como todos temos um Vasques, na maioria nem damos por tal! Está contratado? – renovei. Contratado; contratado, mas não deixo de lhe deitar a mão ao embaraço: o rapaz é novo… burilando os inícios do Guedes e com umas cinzeladas minhas acho que chega a guarda-livros; se se desassossegar, bem entendido. Bem entendido, terminei eu, como se entendesse.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

teimoso

Ainda assim, aí mesmo afastando hipóteses de um encontro olhos nos outros, teimou-me que o seu lugar estava seguro. Pensava mesmo – imaginem! – convencer VG a ceder-lhe o quarto na Rua dos Douradores; aí aplicaria uns cortinados mais distintos e disporia uns sofás mais fundos e confortáveis. A caligrafia dos números – elogiou-se – transformara em museu os livros de deve e haver. E terminou o relatório ao som de um peito em brasa: “Vais receber concludentes cá do Soares!”

ora essa!

Cá a mim, apeteceu gritar-lhe que tivesse juizo! Afinal, é justamente o que o Sr. Nogueira exige que se tenha para não ser contratado. Mas o moço é fino: ainda chega a guarda-livros. Por enquanto, só lhe digo que, nos tempos que correm, ainda ninguém se chama Bernardo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

o Soares não pode ouvir nada!

Entretanto, o Soares desconfiou da queixa e disse-me que nem pensasse em falar com o Sr. Nogueira. Ele, Soares, era muito mais inquieto, quase inquietado. Se fosse nos dias de hoje, acrescentou-me, teria sido uma criança hiperactiva. Se verá...

Eva beijava

Eva beijava de dentes cerrados e pernas encolhidas, tanta era a culpa que sentia por desejar. Só no Verão, com a chegada do (e)terno sol quente, o seu corpo dilatava; as pernas abriam-se e cresciam de tal forma que impedimento algum lhe tolhia a alma.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

solidário com VG

Que andava desassossegado com a escrita, foi a queixa do Guedes, há dias, quando afazeres me deslocaram a Lisboa. Não era só a falta de vontade, era o patrão – todos temos um Vasques, segredou-me – que pretendia contratar um tal Soares para lhe aprimorar as contabilidades. Não encontrava motivos para esta desconsideração, justamente ele que sempre se demonstrou suficientemente inquietado; a mais, receava que o novo ajudante desse andamento ao livro de insossegos que já lhe roubara noites imensas de insónia, ali no quartinho da baixa, mobilado no preceito de confortar o tédio. Ouvi-o, mas pouco havia a acrescentar: desalento já ele o tinha. Disse-lhe só que se pudesse daria uma palavra ao Sr. Nogueira. Compreendam que o Vicente sempre foi meu amigo.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

que se lixe

São perigosos os instintos da imagem
O que se vê e bem mais o que insinua
Os dedos tremem, falham a postagem
E a cabeça desaparece longe, lá na lua

A precariedade da carne é uma benesse
Ou um castigo que desafia a serenidade
Deixando o corpo no transe que falece,
Enquanto o nervo relembra a mocidade?

Seja como for, cada coisa de sua vez
Nem há esperança que tanto acredite
Vou contar de repente um, dois e três
E esquecer a já esquecida Anna Smith

peço desculpa

Meninos, desculpem por esta interrupção
Mas está Anna Nicole Smith na televisão
Este blogue é um escrito muito educado,
Mas não nos garante salvação do pecado
E que alegria mais suprema pode haver?
De mesmo velho ter uma deusa a entreter
Que cada qual a possa imaginar de per si,
Não careço sonhar mais, depois do que vi

No Távora (com a minha tia)

O rio descia (não eu) como quem ri
E só o acompanhava aos tropeços
Na giesta maior escondia-me de ti,
Cocavas-me dava outros arremessos

Era a tarde das merendas no S. Pedro
Pão de centeio, queijo e marmelada
Depois de esbracejar água, sem medo
A sério, eu nem tinha medo de nada

Contavas então a história da princesa
Moura que enfeitiçara na Granjinha
O príncipe, e eu esquecia sobremesa
E corria novamente, encosta acima

Chegado a casa o pai pedia conta
De uma tarde inteira a fazer nada
E eu deixava os lábios em ponta
E tu fingias-te deveras preocupada

Mas claro que aprendera a aritmética
De contar os passos até saltar ao rio
E guardar a tua ideia tão profética
De aprender a ser um grande tio.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Escher - Auto retrato


A pedido de um amigo...

Receita

Como fui avisado pela Beatriz que a nossa relação tinha poucos anticorpos, corri apressadamente para a farmácia mais próxima com o intuito de comprar uma vacina. “Só com receita médica…” disse a farmacêutica, escondida por detrás do balcão e de uns óculos de massa grossa.
Para quê uma receita?, pensei eu. Não seria suficiente a vontade de todos aqueles que se expõem deliberadamente a todo tipo de vírus?

futuro...

Seguíamos uma condução prudente, distraída com a suavidade da paisagem. Tu segredaste-me ao ouvido esquerdo, numa manobra que só o sonho consente, que tinhas tido ciúmes e muito medo, porque – dizias – como já estou velhinho podia ter-me esquecido do teu número de telefone. Querias dizer que, não fora o acaso, talvez sucedesse nunca mais nos encontrarmos. Não te lembro a cara, mas a voz que ficou é impossível de esquecer. Não guardo o número de telefone na memória, embora não esteja velhinho (que ideia foi essa? Talvez o sonho tenha antecipado décadas…). Já ninguém decora o número, apenas o aponta no telemóvel. Daqui a anos já ninguém lembra nada, porque guarda tudo na Net. Os homens vão perder a memória e, logo a seguir, haverá chips que substituem o pensamento. Mas, a ser assim, porque estavas tu preocupada? Será que o mundo vai regressar ao passado? Ora era só porque os ciúmes, mesmo no futuro, nunca têm razões de compreender?

avanças pelo poema como gazela
a pensar que te livras da corrente
engano teu: se não é laço é trela,
o mundo vai a passo à tua frente

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

desespero de saudades em todo o corpo
como se fosse verdade tu seres imenso
quando afinal é com o sonho que sofro
porque em ti mesmo eu já nem penso
maneirista é teu gosto de poetar, rapaz
como é capaz o capelista no seu posto
enfeita o altar com rosas de embalar
sonhos de apartar as prosas do desgosto

se numa noite fria um viajante

Se numa fria noite de Outono um viajante
Entrasse desabrido nas palavras, em rompante
As dilacerasse em cacos e cacos de sentidos
Dos antigos e breves aos novos e compridos
As puxasse insistente, letra a letra, som a som
Desfazendo-lhe nesse dissecar cada seu tom
Como quem separa pétala e espinho ao lado
Como quem aparta o som do riso do som do fado
E, depois de tudo, mesmo exausto, fosse inventar
Sentidos novos, já perdidos, como se fosse acabar
Por descobrir o último sentido, o sem-sentido
Deus e diabo em verso de prosa desmedido
Nesse verso procurando, acho eu encontraria
Santo Graal, pedra filosofal, enfim, toda a poesia.

Se revirando o poema, carnal – reprocurasse
E hipótese avara, infernal, não o encontrasse
Perdia eu na esperança do lance o selo sétimo
(ele define quem no após mundo resta préstimo)
E lhe diria, de nó no joelho, pintado em pranto
Que por muito que sem resultado fizesse espanto
O que interessa é a labuta, a empresa a que se deu
Pois só no gesto da demanda (só) se alcança o céu.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

coisas da vida

Verdadeiramente, custava-me a ver aquela
Insistência de m’avisares sempre do perigo
Seguindo-me os passos como numa sequela
De um filme mudo, passado e muito antigo.

Se queres dizer, corro riscos, quem não
Os corre, nesta vida airada e d’aventura
Quando nos cabe, dia a dia, essa opção
D’escolher entre desatino e compostura.

Deixa estar assim, d’ânsias embriagado
Na corda bamba entre sarcasmo e siso
Pior seria se me tivesse aí desfeiteado
D’omissões que enganei não ser preciso.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Ontem pela tarde ensolarada

Ontem pela tarde ensolarada
Circulando através de Berlin a cidade morta
No regresso de um qualquer país estrangeiro
Senti pela primeira vez a necessidade
De ir desenterrar a minha mulher ao seu cemitério
Eu próprio deitei sobre ela duas pazadas cheias
E de ver o que dela ainda resta
Os ossos que nunca vi
De segurar o seu crânio na minha mão
E de imaginar o que era o seu rosto
Por detrás das mascaras que trazia
Através de Berlin a cidade morta e de outras cidades
No tempo em que estava vestido com a sua carne.

Não cedi a esta necessidade
Por medo da policia e dos comentário dos meus amigos.

Heiner Müller

sábado, 9 de fevereiro de 2008

poema a pedido

Vens agora reclamar-me um poema de lembrar,
Mas há tantos anos que não te vejo na escuridão
Quando te desenhava só por respirar o mesmo ar
Melhor do que se a Miguel Ângelo pedisse a mão

Sabia de cor os gestos dos teus contornos
E a cor com que te desfazias da penumbra
Despindo em correria os vistosos adornos
Que apartavam ânsias tuas das da sombra

O que tenho agora é a intermitência da ilusão
Rasgos soltos que rememoro incerto e a custo
Sem saber se reconstruo ou são restos de paixão
Se és apenas o traço com que à noite me assusto

Desenhar, pintar-te assim um poema não consigo
Confundo o que penso, quero, sinto, com o que és
Misturar na mesma tela desejos de ambos é perigo
Tão grande como pôr a cabeça onde tu usas os pés

Digo pés de propósito, porque a lembrança zangada
Dá a esta escrita um estilo piroso ou até abandalhado
Em vez de um poema irá sair uma grande trapalhada
Porque escreve o desgosto e não o poeta abandonado

Devia deixar ficar, para sentires a dor do castigo
Como eu senti, assim que me mandaste às urtigas
Dizendo que me entendia era sozinho, eu e comigo
Sem que pudesse enfeitar quaisquer outras raparigas

Mas para que te não fiques a rir, eu te minto
Tenho a desculpa de assim serem os poemas
Em vez de consentir o que te choro que sinto
Roubo aos mais hábeis o risco destes fonemas

E se não mais usarei do meu servil talento
Ouso usar um verso obstinado e lento
Para te lembrar ter tentado o que podia
Mas foi o teu augúrio que não quis poesia

a minha cara

Dizes que estou, logo hoje, de melhor cara
E eu sei que nem és budista para acreditar
Nessa mudança que a cada dia nos separa
Da lembrança de em cada dia ainda mudar

A cara é d’ ontem e antes, certamente
E será a minha daqui ao fim dos dias
Salvo se lhe descobriste, num repente
Apagada imagem de antigas alegrias

Ou então, sei lá, dormi anos a fio
E a idade confunde-me a memória
E nem consigo vencer este desafio
D’emparelhar a cara com a história

Como quer que seja, uso a que cá tenho
Que será a que vês, mesmo sem eu a ter
E seja ou não seja, com ela eu me amanho
Porque só me serve a que tu quiseres ver.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Começo

Comecei a morrer numa manhã de fim de Agosto, enquanto esperava por um comboio que me iria trazer de volta a Coimbra. Um calor abafado, de nuvens baixas, criava uma estranha consistência, o que garantia à minha lenta forma de morrer uma sensação de intemporalidade. Entrei numa tasca velha e rasca e pedi um Brandy, café e cigarros. Fumei como se esperasse que algo acontecesse, mas o tempo mantinha a sua marcha da mesma forma monótona e constante...

amores de mar

Escassas as palavras que se confundam
contigo e renovem esperanças perdidas
de quando aceitávamos todo o mundo
como luz a incandescer as tristes vidas.

Tínhamos aí quinze anos e liberdade
era Agosto, o sol queimava os corpos
nenhum saberia dizer, nem a saudade
nem a oração libertadora dos devotos.

Só nos entregávamos à inconfidência
dos beijos ressuscitados além da duna
depois de castelos d’areia em paciência
de conseguirmos o cimento que nos una.

Deixámos no mar a promessa inteira
de nunca esquecermos essa ousadia
que era a cresta agreste da soleira
nos lábios humedecidos em fantasia.

Entrelaçámos mãos em compromisso
eterno como o fulgor dos tais abraços
numa fé ainda maior que a do noviço
que a Deus entrega ambos os braços.

No Verão seguinte não te vi na onda,
senti que o desespero tinha chegado,
rogando que a mágoa, bem profunda
tivesse o mesmo desgosto do teu lado.

Mas não, não sei sequer se foi assim
porque aprendi o timbre da saudade,
fiquei sozinho, mais chegado a mim
mesmo que creditado em liberdade.
R m
(és) uma mistura indomável entre a impossibilidade e o desejo. Um impossível compromisso entre a devassidão e a castidade. O limite do termo nos termos luminosos que consigamos inventar.
Deixa-te estar:
pode ser que eu consiga soletrar uma palavra nova. Tão grande, tão grande que te abarque.

o brilho do teu olhar

Entendo, mesmo a custo, física de partículas
Trato por tu, há quanto, todo o sistema solar
Na estrada sei dos carros todas as matrículas
É meu irmão o mícron, o neutrino e o pulsar.

Coisas complexas de entender, sei eu bem
Sempre a variar nas mentes dos cientistas;
Coisas que, a fundo, nem as sabe ninguém,
Incluso talvez o maior de todos os artistas.

Mas mesmo sabendo tudo isso que sei eu,
Até certezas algumas que poderia ensinar,
Sei que nem roubando o fogo a Prometeu
Entendo, só um pouco, teu brilho d’ olhar.

é verdade

É verdade
Que me pergunto vezes a mais
Porque receio ouvir-te nos meus sonhos
Quando suo suores e solto
Ais
E da tua ausência vejo
Fantasmas medonhos
Será de gostar que tenho medo e me arrepio?
Será a tua voz mesmo suave que me enche de frio?
Anteontem fui para a cama mais cedo
Esperando que o sono viesse
E que se fosse o medo

Arriscar o receio de te pensar
E o mesmo de te perder
(eu sei que não vai dar,
que vou continuar a tremer)

Amanhã cedo o Sol talvez se finja de amigo
Teimando-me que qualquer ideia é um perigo
Não valendo de nada fugir ao pensamento
Seja de ti e da história que nós tínhamos guardada
Como se por um gesto, num escasso momento
O tempo do mundo fosse uma coisa de nada
E eu vou inventar a vida de um dia inteiro
Distraindo-me da tua imagem com coisas que nem sei
Dissimular que te esquecendo pareço porreiro
E que posso findar as coisas que comecei
Mas é tudo mentira e não sou um feiticeiro
Nem consigo explicar-me porque tanto te amei

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Setembro, junto à avó

Em Setembro na altura das vindimas ias
À tarde recolher-te à sombra da ramada
Olhando céu, os bichos, as cestas vazias
Enquanto o bulício mexia a brisa parada

Enchias os olhos da labuta saudosa
Com que recordavas o teu ido tempo
Vendo cada gesto na forma vagarosa
Que confunde saudade e movimento

Se um catraio te reclamava uma atenção
De te ausentares da observação do outro
Arranjavas-lhe gesto de emprestar a mão
Sem que da paisagem vacilasses o gosto

E ganhavas a tarde no tempo perdido
Despreocupada com qualquer desafio
Sem pensares no teu netinho fugido
Que deveria andar a saltitar no rio

Alheio aos deveres de fingir-se capataz
A cuidar dos mostos e do vinho fino
Perdido nalgum verso que não era capaz
De prender ao gosto de continuar menino

E assim o ensinavas sem nada lhe dizer
Que o bom da vida é sentir-se a idade
Interessa é brincar, correr, crescer e ver
Que cada poema tem a sua liberdade.