domingo, 30 de dezembro de 2007

08 ao 07

Vale a pena vivê-lo só por isso?, é o que me pergunto,
mais a ti, zero-sete, que bem sabes deste assunto
e que vejo, abatido e triste, cansado de dias e dias,
depois de um ano completo com escassas alegrias.
Dizes que sim, agora, pois tanto dá, tanto te faz,
sabes muito bem que o passado não volta atrás.
Que não há outra maneira, teimas-me no espanto:
que a vida é só um cada dia, e este enquanto.
Se assim tem que ser... assim bem que seja,
mas trezentos e sessenta e seis sem tristeza
parece-me muito mais do que posso aguentar;
enfim, se for útil, guardo ainda o 07 p'ra lembrar.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Aquilo que não lhe entrava pela cabeça

Aquilo que não lhe entrava pela cabeça, entrava-lhe irremediavelmente pela vagina. É por isso mesmo que ainda hoje a vida lhe custa tanto a carregar.
Quando se casou não o fez por sentir amor, fê-lo porque procurava uma solução e todos os dias repetia: “nunca fui tão feliz!”. Mas eu nunca soube se ela procurava convencer os outros ou se procurava uma forma desesperada de auto convencimento.

A flor lentamente secou

A flor lentamente secou.
Os cravos estão secos nas bermas das estradas, junto aos passeios.
A minha cidade lentamente definha.
O meu país lentamente definha, não interessa aquilo que surge das funestas tentativas para remediar esta situação. Este é o nosso espaço… um jardim sedento de sol, água e esperança.

Unhappy Birthday

I've come to wish you an unhappy birthday
'Cause you're evil
And you lie
And if you should die
I may feel slightly sad
(But I won't cry)

Loved and lost
And some may say
When usually it's Nothing
Surely you're happy
It should be this way ?
I say "No, I'm gonna kill my dog"
And : "May the lines sag
the lines sag heavy and deep tonight"
Língua Portuguesa

A minha pátria é a língua portuguesa, e só;
Outros cantares, falares diversos, tenham dó!
Sei que me davam um lugar no estrangeiro,
Conferências e palestras no mundo inteiro.
Podia vir a conhecer belas italianas,
Dormir com elas todas as semanas;
Apaixonar-me por boas espanholas,
Ensaiar nelas o toque das castanholas.
Suecas, eslovacas, gregas, finlandesas,
Requintes lautos de camas e mesas;
Andar por o aí contente e radiante,
Ser um português muito importante.
Mas não, insisto que não quero
Por muito que louvem o esmero
Que tenho deixado aqui e além,
Sempre fixado na língua mãe.
Se me derem sabática pró poema
Fico contente: assim já vale a pena;
O mais é que não: deixem-me estar
A dormitar, a pensar, a dormitar…
Aguardando a ideia num barco à vela
E seguir firme, bem amarrado nela
A dizer, esta língua é todo o mundo;
Outras, isso não, nem por um segundo.

(14.12.2007)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

receio...

os teus olhos azuis enchem-me a lembrança de cor,
mas - seja o que for -
qualquer outro tom me deixaria assim,
fora de mim.
talvez o teu sorriso -
não era preciso... -
se misture ao olhar
e desfaça este pensar,
que é desafio.
mesmo neste frio,
aqueço-me de lembranças
e saudade,
invento esperanças,
fugindo à verdade,
perco a liberdade
de ser eu.
porque me aconchegas de tão longe?,
e dizes que está perto tudo o que foge...
tinha receio de respirar o mesmo ar,
receio de misturar
o teu sangue num só;
até receio de ter dó;
de mim,
assim.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

quando...

Quando...
Porquê?

Gostava de viver duas vezes
Para arriscar os mesmos dramas
Saborear as mesmas graças
Repetir.Repedir.

Se peço em Deus
Sinto descaramento
Lamento
Seria a resposta mais merecida.
Mas se não peço
Nem serve a vida.

Um dia destes deixo
Falta saber o quê.

06.2006

Quando, porquê?

Gostava de viver duas vezes,
para arriscar os mesmos dramas,
perder-me nas mesmas camas,
saborear as mesmas graças
ou desgraças.
Repetir.
Repedir.
Se peço a Deus
sinto descaramento.
- Lamento,
seria a resposta merecida.
Mas se nem peço
não serve a vida.

12.2007

setembro

Foi em que setembro que te senti o gosto, Amor?
Vinte anos que há ou que só tínhamos?
Sei que a neblina enevoava a manhã,
o Mondego deixava capas em sobra,
o gosto do teu beijo era cerveja.
Que seja!
Foi nessa entrega que perdeste o lance...
tanto fazia;
e ficou vazia
a margem.
Quantos sonhos sonhamos sem dormir
só nessa noite?
Só nessa noite
eu sonhei três, talvez:
amor, amor, amor, Amor.

06.2006

sábado, 22 de dezembro de 2007


I knew her eight years ago. She was in my class. I don't teach full-time anymore, strictly speaking don' teach literature at all - for years now just the one class, a big senior seminar in critical writing caleed Pratical Criticism. I attract a lot of female students. (...) Ah, it's not a fast allegro, is it? Not at all. now, there's no Mozart piece with metronome markings, and why, why is that so? You remember when Mozart died..." But here I have my orgasm, the fantasy lesson is ended, and, for the moment, I am sick no longer with desire. Isn't that Yeats) "Consume my heart away; sick with desire/ And fastened to a dying animal / it knows not what it is." Yeats. Yes. "Caught in that sensual music," and so on.

Philip ROTH, The Dying Animal.


Sailing to Byzantium

I
That is no country for old man. The young

In one another's arms, birds in the trees -
(...)

III
O sages standing in God's holy fire
An in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away, sick with desire
And fastened to a dying animal
It Knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.

W. B. YEATS, The Tower

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

canção de natal

Tocam os sinos da igreja
O som vai até ao céu
O mundo fica sabendo
Que jesus Cristo nasceu.

Ó meu Menino Jesus
Como tu não há igual
Dá-me um brinquedo bonito
No dia do teu Natal.

Tu nasceste pobrezinho
Na grutinha de Belém
A tua mãe é a minha
A minha é a tua mãe.

(Célia Almeida)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Blues fúnebres

(directamente de um poema de W. H. Auden)

Parem todos os relógios e cortem o telefone
Entreguem um osso ao cão para que não sone
Silenciem os pianos e, em suave caminhar
Tragam p’ra fora o caixão e venham chorar.

Que os aviões o sobrevoem num gemido
Desenhando no céu a mensagem Falecido.
O papo branco das rolas de crepes se traça
E os sinaleiros calçam luvas de desgraça.

Ele era o Sul, o Leste, o Oeste e o meu Norte
A semana de trabalho e o Domingo de sorte
O meu meio-dia e a meia-noite, meu falar e cantar
Cuidava que o amor durava, mas era a enganar.

Não mais quero estrelas: cada qual seja apagada
E que seja demolido o Sol e a Lua emalada
Esvaziem o oceano e o bosque por igual
Pois daqui em diante tudo virá por mal.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007


a canção das ingénuas

(até lembra as mulheres ocas...)

Nous sommes les Ingénues,
Aux bandeux plats, á l'oiel blue,
Qui vivons, presque inconnues,
Dans les romans qu'on lit peu.

Nous allons entrelacées,
Et le jour n'est pas plus pur
Que le fond de nos pensées,
Et nos rêves sont d'azur:

Et nous courrons par les prés
Et rions et babillons
Des aubes jusqu'aux vesprées,
Et chassons aux papillons;

Et des chapeaux de bergères
Défendent notre fraîcheur,
Et nos robes - si légères -
Sont d'une extrême blancheur;

Les Richelieux, les caussades
Et les chevaliers Faublas
Nous prodiguent les oeillades,
Les saluts et les "hélas!"

Mais en vain, et leurs mimiques
Se viennent casser le nez
Devant les plis ironiques
De nos jupons détournés;

Et notre candeur se raille
Des imaginations
De ces raseurs de muraille
Bien que parfois nous sentions

Battre nous coeurs sous nos mantes
A des pensers clandestins,
En nous sachant les amantes
Futures des libertins.

Paul Verlaine
(Poemas saturnianos e outros)

quanto puderes...

Se não podes fazer da vida o que tu queres,
tenta ao menos isto,
quanto puderes:
não a disperses em mundanas cortesias,
em vã conversa, fúteis correrias.

Não a tornes banal à força de exilada,
e de mostrada muito em toda a parte
e a muita gente,
no vácuo dia-a-dia que é o deles
- até que seja em ti uma visita incómoda.

Constantino Cavafy (1913)

When You Are Old

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false and true,
But one man loved the pilgrim soul in jou,
And loved the sorrows of your changing face,

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amind a crowd of stars.

W. B. Yeats
(Os pássaros brancos e outros poemas)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

the body artist



"Sempre que era obrigada a curvar-se e a procurar alguma coisa nas zonas mais baixas e recônditas do frigorífico soltava um gemido, mas nem sempre, diga-se, gemido esse que se assemelhava ao queixume de toda uma vida. (...) Ele continuou a agitar a embalagem, ainda em pé. Agitou-a durante mais tempo do que o necessário porque estava distraído, pensou ela, e porque isso lhe dava uma prazer apatetado e inocente, que se esgotava na puerilidade do gesto, no sacolejar repetitivo, no ruído viscoso e no cheiro a laranja exalado pelo pacote de cartão. (...) - Ela segurava o fio de cabelo entre o polegar e o indicador, contemplando-o com uma repugnância genuína levada aos limites do artifício, a boca paralisada num esgar oblíquo. (...) Nada podia descrevê-lo. Era um cheiro em estado puro. Era a matéria de que é feito o cheiro, isolado de todas as suas fontes."


Don DeLillo, O Corpo Enquanto Arte

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007



Sonho só um reflexo da tua luz

e fico preso, ai Jesus;

rio do choro da tua saudade.

O mar dá-me essa liberdade.

natal

Combinaste o encontro no portal
(abrigado em lonas e cartão)
avançando a desculpa do Natal
e uma treta de ter q'dar a mão.
Cheguei, estava tudo a gelar,
um frio que abrasava os ossos.
Bem melhor é dar um salto ao bar:
uns finos sempre apagam os remorsos.
Há anos que combinas este adeus...
Como podia andar tão distraído?
Agora é tarde p'ra ver, menino Deus
que eras quem segredava ao ouvido.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

rm

No dorso do teu encanto,
esgotado de espanto,
imagino, sonho, minto
além do que vejo e sinto:
a voz doce do teu nome engano,
o tom de mentires, frágil,
o sopro de teus olhos onde abano
o medo de fugir, não fora ágil.
Até no fumo que sobe
o teu batom
oiço esse som
do teu nome.
Um ponto incandesce
e desce
da ponta do cigarro parado
que o lábio guarda, alheado.
Sonho, daí partindo,
ir indo, ir indo...
percorrer a brasa do teu ser
até poder...
sempre seguindo,
e entender
lá no (teu) fundo
o fim do Mundo.