sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O Tempo das Promessas

O tempo não se desembrulha em horas nem em minutos, e tão pouco tem a forma circular que enganosamente os relógios sugerem. São os nascimentos e as mortes que lhe dão a substãncia de que é feito. Epifanias ou eclipses da existência, separados por intervalos mais ou menos longos, dispostos por ordem cronológica numa linha delirantemente recta que se prolonga, com tédio ou deslumbramento, na direcção da finitude ou da eternidade.
Desde que por exercício de função a possibilidade de julgar os outros passara a ser nele o dever de sentenciar, numa idade quase ainda intacta de baptismos e funerais, tinha-lhe nascido e morrido tanta gente, que quase sem se dar conta deu por si feito adulto, a caminho de velho, e com as imperatudes de ter de deixar o lugar que durante anos lhe conhecera os dias, para se mudar, também ele, para aquela dimensão da realidade dos tribunais em que a justiça para lá de ser cega é, em simultâneo, invisível aos olhos de quem dela se serve.
jjjjjjjjjjjj
Manuel Capelo, O tempo das promessas, A Fazer De Contos

6 comentários:

jose eusebio disse...

Prosa de cuidado e qualidade ímpares. Arte em palavras.

Anónimo disse...

Texto lindíssimo, de grande qualidade literária

Anónimo disse...

Quando me pedem que escreva faço-o sózinho/ porque escrever deve ser como rezar/ como essas coisas que dizemos a alguém que dorme/ tendo e não tendo esperança alguma de ser ouvido./ Só a beleza pode descer para salvar-nos/ quando as barreiras levantadas dos suspiros da respiração distante/ permitirem às imagens que desenhamos, aos ruidos que sonorizamos, aos sedimentos vagos que pensamos/ integrar um magnífico cortejo/ sobre a espavorida indiferença de quem lê / ou sobre a glória de um eco agradecido./
Quem reza e quem escreve é um mendigo de última geração/ remexendo profundamanto em si como num caixote / através de um vazio/ até que por dentro esse nenhume deflagre e seja redenção./
Pedem-me que escreva , mas eu Quando me pedem que escreva hesito sempre/ é que apenas sei dizer segredos/
e dar passos prudentes que são como palavras incompletas.

Anónimo disse...

Aqui, até os anónimos escrevem (muito) bem.
Esta declaração não serve de espelho, é claro.

Anónimo disse...

Se calhar o anonimato é toda a sobriedade que a vaidade concede a quem a combate.
Isto de anónimo para anónimo, evidentemente...

Anónimo disse...

Se calhar porque o anonimato é a única sobriedade e sensatez que a vaidade consente.
Isto de anónimo para anónimo, obviamente...