sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O Gato Borralheiro

Lembro-me, como se tivesse acontecido há momentos, aqueles olhos enormes, negros como a noite do lugar de onde provinha, o seu rosto aluado e corte de cabelo à "Amélie", mudo pela imponência do espaço, a que, transitoriamente, por necessidade de pintura do gabinete, me vira obrigado a utilizar mesmo para aquele tipo de diligências.
- Tens a certeza que já sabes ler, Miguel?
A sala era, ainda assim, pequena de mais para conter tantos odores. O corpo e a roupa do Miguel, cheiravam-se, já não viam sabão há um bom par de semanas.
Ainda bem que me lembrara de trazer aquelas bandas desenhadas que o meu "puto" tinha em duplicado (demasiadas festas de aniversário é no que dá).
O Miguel contava então com oito anos de idade, feitos dias antes.
Se, além da idade e da descrição do rosto, lhes disser que o Miguel vivia num barracão, de tábuas negras encortiçadas, com o chão térreo coberto por um oleado que as águas barrentas de Inverno iam tingindo de "laranja", fica mais fácil imaginar o Miguel?

Paulo Correia, O Gato Borralheiro, A Fazer De Contos

2 comentários:

jose eusebio disse...

Sensibilidade e beleza. Parabéns ao autor.

Anónimo disse...

Básico...