sábado, 18 de outubro de 2008

Longo tempo são três dias

Pequeno apenas no formato, Os últimos três dias de Fernando Pessoa (Quetzal Editores) é um livro enorme de intensidade e beleza. Antonio Tabucchi, um italiano quase português, conhecedor profundo, amante e tradutor da obra do Poeta, escreve um delírio - assim lhe chama - dos dias de agonia do Mestre, deitado no leito de morte do Hospital de S. Luís dos Franceses, em Novembro de 1935. Fernando Pessoa recebe os seus heterónimos e, como num delírio, fala com eles e dita as suas vontades, dialogando com os fantasmas que lhe fizeram companhia ao longo da vida. Mistura de romance e biografia imaginária, é a evocação ternurenta e apaixonada da morte e da vida de um dos maiores poetas do século anterior.
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Pessoa levantou a mão e fez um gesto esotérico. Disse: absolvo-te, Álvaro, vai com os deuses eternos, se tiveste amores, se tiveste um só amor, estás absolvido, porque és uma pessoa humana, é a tua humanidade que te absolve.
Posso fumar?, perguntou Campos.
pessoa fez um gesto afirmativo com a cabeça. campos tirou do bolso a cigarreira de prata e pegou num cigarro, enfiou-o numa comprida boquilha de marfim e acendeu-o.
sabes, fernando, tenho saudades de quando era um poeta decadente, da época em que fiz aquela viagem de paquete nos mares do oriente, sim, então teria sido capaz de escrever versos à lua, garanto-te, à noite, no convés, quando havia baile a bordo, a lua era tão teatral, era de tal modo minha. Mas nesse tempo eu era estúpido, fazia ironia com a vida, não sabia aproveitar a vida que me era dada, e foi assim que perdi a oportunidade e a vida me escapou.
E depois?, perguntou Pessoa.
Depois, comecei a querer decifrar a realidade, como se a realidade fosse decifrável, e veio o desencorajamento. E com o desencorajamento, o niilismo. Em seguida já não acreditei em nada, nem mesmo em mim. E hoje aqui estou á tua cabeceira, como um farrapo inútil, fiz as malas para lado nenhum, e o meu coração é um balde despejado.
Campos dirigiu-se para a mesa de cabeceira e apagou o morrão do cigarro num pratinho de loiça.
Bem, meu caro Fernando, acrescentou, precisava de te dizer tudo isto agora que vamos talvez deixar-nos, tenho de ir, sei que os outros também virão ver-te e já não te resta muito tempo, adeus.
Campos pôs o sobretudo pelos ombros, ajustou o monóculo no olho direito, fez um rápido gesto de despedida com a mão, abriu a porta, deteve-se um instante e repetiu: adeus Fernando. Depois disse: as cartas de amor talvez não sejam todas redículas. E fechou a porta.

4 comentários:

Passiflora Maré disse...

Caríssimo Augusto também gostei imenso do texto, que li, embora mais extenso, com o título "A hora dos fantasmas" publicado na revista "EGOISTA" dedicada ao Fernando A. N.Pessoa.
Foi bonito publicá-lo aqui e gostei de saber que faz parte deum livro mais extenso e com uma amplitude biográfica...

Eduardo F. disse...

Olá,

gostava de saber onde posso arranjar este livro (desta editora)?

Se não souber de nenhum que haja por aí, gostava de saber quanto me pediria por ele.

Aguardo resposta.
Obrigado desde já pela atenção.

Eduardo F. disse...

Olá.

Então, alguma informação desse lado?

(Não é um comentário de circunstância, estou mesmo interessado em ter o livro).

Obrigado.

AugustoMaio disse...

Caro Eduardo:

O atraso da resposta surgiu do facto de, colocado o comentário, não saber em que post se encontrava. Tive de andar... pé ante pé.


O livro é da editora que é referida.
É um livro - relativamente - poco conhecido, atento o seu valor, mas cuido (até por isso) que não estará esgotado.

E... não peço nada por livros. Mas estou certo que o encontrará (Fnac, por exemplo).

Em último caso diga, que procuro o meu.

Mas escreva num post recente, caso não, perco-me.

AM