segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O Verão

Estás no verão,
num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre a duna.
Estás em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,
sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.
És o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces o ardor das maçãs,
as claras noções do pecado.
Ouve as canções dos jovens amantes nas altas colinas dos meus anos.
Quando me deixas, o Sol encerra as suas pérolas, os rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é Setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.

José Agostinho Baptista, Paixão e Cinzas

5 comentários:

ap disse...

A propósito de Setembro...

Olho o encontro entre o rio e o mar,
Esse fenómeno que se chama foz.
E nestas águas,
Despidas de mágoas,
Ouço o murmurar da tua voz.

E no horizonte a abraçar o mar,
O sol põe-se encandescente,
Com um brilho que não mente
O brilho do teu olhar.

Páro um pouco para pensar
É agora que me lembro,
Que já estamos em Setembro
E eu sem te abraçar.

AugustoMaio disse...

altura apropriada
alcance permanente

ap

Dedalus disse...

Setembro é cruel e doce, sem dúvida. Lembra o fim do estio, mas logo avança com uma frescura que é simpática.

Passiflora Maré disse...

O texto é muito bem escolhido e o do Lobo Antunes também, ambos belos e profundos.
Este início de ano de trabalho é muito complicado, além do trabalho normal muitas reuniões, decisões urgentes, tudo impedimentos para as visitas costumadas.
Voltarei, logo que a maré vague.

AugustoMaio disse...

Sempre muito bem vinda.