segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Ao ouvir as suites inglesas de bach, a humidade
dos campos envolve-me, com uma névoa de rios
e uma auréola de margens. Esta música puxa-me,
pelas suas mãos de som, para o ritmo que o poema
devia encontrar no limite dos teus cabelos; e tu,
contra o portão, nesse contra-luz que te incendeia
o vermelho da túnica sobre o fundo branco dos
muros, roubas ao cravo o seu sorriso profano,
plantando nas suas tevlas um desejo que o jardim
do teu corpo fará florescer. Assim, vens até mim
pelos degraus deste ritmo que bach inventou,
para descrever não se sabe que dança, movimento
de saias com o vento, baloiço vago que se evola
de uma entrega evanescente, num canto de arbusto,
até ao silêncio branco com que o amor se fecha.

Nuno Júdice, Episódio Musical
Poesia no Porto Santo, Antologia 2004

1 comentário:

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

O silêncio...O mesmo que ouço quando me transporto aos picos gelados do Himalaya...