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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

- Há uma data na varanda desta sala - disse Germana...

- É uma fatalidade que pesa sobre nós, as mulheres. Não sabemos viver sós, enquanto que o homem procura o isolamento, mesmo quando se dirige para a multidão - disse ela. Há raros momentos de clarividência, mesmo nas criaturas mais triviais, e é sempre o sofrimento que os provoca. Quina acrescentou um dos seus aforismos, que sublinhou com uma ironia, pois aquela mulher, vestindo, da casa Drecoll, um traje de cetim marinho e ratine branca que lhe dava o ar duma preceptora elegante, parecia-lhe uma princesa que brinca a ser desgraçada, que se diverte a fazer experiências amargas, para quebrar a monotonia.
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Esta moralidade indignava Germa, mais do que a prática dela. Era uma injúria às boas intenções, a esse recato virginal e defeso na alma até do homem mais vil, e que ele mantém como argumento de emergência, depois da queda e em face da morte. Se ela declarasse, diante do pai, que preferia o perigo embora o temesse, que odiava a dádiva embora a cobiçasse, que aceitar é ser vencido e que a luta seria para ela como que uma fatalidade, um apelo constante, uma necessidade absurda e inapelável, ele rir-se-ia na sua cara e havia de sentenciar, com a sua tenebrosa filosofia de mundano gasto, de velho a quem a vida adaptou à lei da gravidade, ao valor da inércia, ao poder da fraqueza:«Fala-me daqui a vinte anos, e mostra-me então o lucro das tuas teorias.»
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AGUSTINA BESSA-LUÍS, a sibila

Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro.

... Mas dizer isto é tão absurdo! Sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalha-me logo em pedra. Nada mais há na vida do que o sentir original, aí onde mal se instalam as palavras, como cinturões de ferro, aonde não chega o comércio das ideias cunhadas que circulam, se guardam nas algibeiras. Eu te odeio, meu irmão das palavras que já sabes um vocábulo para este alarme de vísceras e dormes depois tranquilo e me apontas a cartilha onde tudo já vinha escrito... E eu te digo que nada estava ainda escrito, porque é novo e fugaz e invenção de cada hora o que nos vibra nos ossos e nos escorre de suor quando se ergue à nossa face.

VERGÍLIO FERREIRA, aparição