terça-feira, 16 de março de 2010

Dedicoratória II

Este conto é-te devido, Margarida. Conta quantas estrelas roubámos do céu nas noites claras em que os olhos piscavam de procura. Conta as vezes das vezes que os lábios humedeceram as manhãs, antes da madrugada cantar vitórias. Conta o receio do teu peito, o aprendiz do meu jeito e, um a um, todo o preceito com que violámos as regras. Conta as histórias por contar, roubadas das nuvens de sonhos por poetas famosos. Eram nossas e estão perdidas nas calçadas de basalto que os pescadores salpicam. Mas conta, muito mais que a totalidade do mundo, o que sempre fica por reinventar naquele mês de Neruda além de Dezembro, antes de Janeiro. E o nome da Rosa, que Borges usava a dar-lhe o aroma da cor. O perfume de Eugénio. As raivas de Júpiter, a tentação de Cristo, a figueira de Shidarta. conta que nos teus olhos se via o cristal dos alquimistas, a caverna, as categorias, um beijo de chá no côdo de Novembro. E os atritos do mundo que Ludwig ensinava ser precisão dos passos. talvez te copie um poema de Novalis, um sonho de Rimbaud; que a juventude é modo único de contar.

9 comentários:

p. coimbra disse...

Esta Margarida foi/é muito amada! Sorte para quem ama!

AM disse...

Ora, cara p. c., é literatura (não desfazendo da dita)

Margarida disse...

"O que nos faz vibrar na Primavera
não são as cores garridas, os sons da alegria e o ar quente.
É o espírito silencioso e profético de infinitas esperanças,
a antevisão de muitos dias felizes."
"" """
"Nada mais romântico do que aquilo a que habitualmente se chama mundo e destino.
Vivemos um romance colossal.
Observação dos acontecimentos à nossa volta.
Orientação romântica.
Apreciação e tratamento da vida humana"
Novalis
Trd. de Mário Cesariny

Margarida disse...

"Quando a chave de toda a creatura
seja mais do que o número e figura
e quando esses que beijam com os lábios e os cantores, sejam mais que os sábios,
e quando o mundo inteiro, intenso vibre devolvido ao viver da vida livre, e quando luz e sombra, sempre unidas, celebrem núpcias íntimas, luzidas, quando em lendas e líricas canções escreverem a história das nações, então, a palavra misteriosa destruirá toda a essência mentirosa"
Novalis
Trd de Mário Césariny

AugustoMaio disse...

Estou derrubado, surpreso numa boca (aberta)que ganha o tamanho do corpo. Melhor dito: sem palavras que diga.

Margarida disse...

Espanto algum merece copiar e oferecer NOVALIS, pois que todas as margaridas que borges usava a dar-lhes o aroma da cor rosa cultivam o romantismo literário.
Certo é tb que a dita meia-idade constitui momento em que o "sturm und drang" da juventude dos 20s tende a transmutar-se por alquimia em algo mais elevado (espera-se, pelo menos).
Espanto, só decorrente da indevida assunção da dedicatória em apreço; já que como, em tempo, se aclara, o belíssimo texto que a integra se assume como um exercício de estilistica da língua.

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Anónimo disse...

Isso foi há vinte anos. agora trocam-se as margaridas

Anónimo disse...

e jacintos