terça-feira, 16 de março de 2010

barco

Meu coração é um barco. Perdido
das graças e do mar. Nem prata
da noite me refaz a solidão. O escuro do dia
a luz das estrelas:
deixem que viva ao contrário do ritmo. E se
invento gestos, imitador das ondas,
nem a espuma lava os dias mansos
serenamente pausadamente irmamente
esperando as horas de Godot.

Navegarei um dia à tona das nuvens
cerzido rendilhado, curvas a destroçar,
enquanto os olhos dos peixes bogalham
tanta certeza da dúvida.

E o meu barco voa, só por ser inquieto,
que as malhas (caídas) do tempo assim o impõem;
em descoberta de azul degradê
como um solfejo a percorrer a pauta em bicos
(espelho de gestos que só a imagem cria)
tropeçando nos fios, os que
podiam cercar anéis em saturno
(poeira igual ao baço acordar dos teus olhos)
ou só as desgraças - só - com que se esquece a chuva
no falso morno de um sol de Fevereiro. Coração e barco
perdido em mês sem tempo dum ano sem calendário.
Seja fevereiro... (nosso amor é solidário:
aos mais pequenos!).

Tivera eu um navio. Também tu tens os olhos azuis
e o mar - acuso - plagiador... Há dias em que a luz entra
no respirar do vento e ganham traços de cristal
(com o seu vences o mar. Saudade)

Em vezes, sem rombo nem assombro
cai-me o coração ao mar. Sufoco de imensidão
balouço em agitamento razão inventadas
numa tarde de luz roxa.

(...)

E de nada serve o perdão do alheamento
o doce sono que finge a espera
o silêncio das cores misturadas
as ondas que chilreiam antes da manhã
Nem ir de novo em busca da aurora

O meu coração é um barco cansado
do mar e dos sargaços. Vive num cais sem espera
a acotovelar-se com os desânimos.

Naufrágio de um oceano longínquo.
Onde os sóis brincam sombras
com as crianças traquinas
e os jogos fazem o xadrez dos panos.
(...)

14 comentários:

p. coimbra disse...

Lembras-me Eugénio de Andrade...será?

p. coimbra disse...

Lembras-me Eugénio de Andrade...será?

AugustoMaio disse...

"lembras..." ou lembra, o escrito em referência. Mas, quanto à pergunta, não sei se será. Li ontem umas coisas muito lindas desse saudoso, mas este escrito é anterior.

AugustoMaio disse...

O 8.º d"as mãos e os frutos" é uma maravilha:
Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às româs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.

E como os mortais gostam de copiar os génios (eu.génios) podia ser assim:

Foi por ti que criei as rosas
Foi por ti que lhes dei perfume
Por ti soletrei versos e prosas
onde dei ás romãs a cor do lume.

Foi por ti que pus no céu a lua
e o verde? o mais verde no pinhal
Por ti meu corpo fresco sua;
ser coberto como um animal

Ser é substantivo, ali.

p. coimbra disse...

"Lembras-me" é o chamado dativo de interesse.

AugustoMaio disse...

Muito bem.
Esse dativo lembra-me a pergunta feita ao noivo, imediatamente antes da celebração: É por amor ou por interesse? - É por amor, certamente; eu não tenho interesse nenhum nela.

p. coimbra disse...

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

Fernando Pessoa

p. coimbra disse...

Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa.

Sophia de M. B. A.

AugustoMaio disse...

E então o Eugénio?

Ou, melhor ainda, os seus!

Flor de Bela Alma disse...

Augusto, que descoberta linda essa minha! Sua escrita inscreve um
desejo lírico lindo no mundo. Vc escreve e me acerta em cheio, mesmo de longe! Adorei a pena como uma metáfora dessa suavidade e sutileza- quando a gente não sabe ser pluma ou abismo. Gosto dos acasos mallarmeicos! Risos ....amei! Vc tem livros publicados? Beijo carinhoso: Bia

AugustoMaio disse...

Cara Bia (flor de Alma): obrigado pelo seu enlevo e atenção. O que anda escrito, por aí anda e ainda sem fixação gráfica; talvez um dia. Gostei de ver o seu Blog. E aquela ideia dos vestidos poderem ter poesia, belo.

Anónimo disse...

Mais denso q Eugénio, tão profundo, negro e luminoso qt Mário de Sá ou Baudelaire... cosmopolita de ser que nem Pessoa e jovial que nem de agora.**Será q acertei? :) Lindo, beijos. Adorei.
CSFerreira

AugustoMaio disse...

Ena tantos. Obrigado.

fincapé disse...

Good poem