segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O homem escreve um poema para...

gggggNós somos um povo seriamente contaminado de moralismo, por um lado, e de esclavagismo sócio-político, por outro. Nada melhor para a criação de um mito optimista moralizante, de benefício popular. Se isso pode inspirar uma realização, o caso é que o nível do assunto não deve ser decerto o da ética artística. Questões destas resolvem-se noutras dependências da acção humana.
gggggDepois, pensar que o acontecimento estético possui as mesmas leis que o acontecimento social, ou mesmo vital, é ignorar um ponto básico. A ser assim, não se compreenderia que o psiquismo humano tivesse necessidade de criar uma situação de vivência da mesma natureza de outras já existentes. Se o homem cria uma vida nova, é porque o seu espírito exige novas leis. O homem escreve um poema para se opor à vida e ao mundo, para negar o poder dos homens e libertar aquele «daemon» interior que, ao mesmo tempo que indica uma tensão criadora, manifesta igual tensão destruidora. E não se trata aqui sequer de considerar a liberdade individual do artista, mas de ser justo e inteligente para com o espírito humano.
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Herberto Helder (1963)
Relance Sobre a Poesia de Edmundo de Bettencourt
Poemas de Edmundo de Bettencourt, Assírio & Alvim, 1999

1 comentário:

Daniel Silva (Sair das Palavras) disse...

Conheço pouco dele, mas este excerto é muito bom...