segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Os Pássaros e as Penas

De repente, a persistência na evocação dos melros deixava de ser um engano da zoologia e mais sentido fez ainda quando o barulhar das asas saiu do painel, levantou as folhas do processo aberto sobre a mesa, apagou de vez as três lâmpadas tremelicantes do tecto e ele, por dentro daquela suspensão do tempo, fixando a sua atenção onde ela era agora reclamada, consentiu que de onde antes houvera a cerimoniosa veste de um ritual propiciatório, se desprendesse agora um enorme melro que abrindo as asas voou na direcção da janela, passou por ela sem a partir, para o lado de lá, onde o adocicado do ar fazia luzir um bater de penas azeviches.
Sentou-se de novo, olhando uma e outra vez, o esboço daquela sombra solta sobre a manhã e, sabedor de que liberto é o homem que consegue chegar ao dia seguinte com os olhos lavados do anterior, respondeu à incredulidade do procurador a quem a realidade surpreendera na explicação das suas contas, que não se apoquentasse, que ele ficava ali, ali mesmo, esperando que o sr. juiz regressasse do seu voo, para que como de todas as outras vezes, o zumbido das orelhas passasse, o formigueiro dos pés desaparecesse e a tremura da gargante se descomovesse.
ggggggggggggggggggg
Manuel Capelo, Os pássaros e as penas, A Contos Com A Justiça

6 comentários:

Anónimo disse...

... nenhuma grade porende uma pena que se sabe capaz de voar ...

Anónimo disse...

Lindo, lindo...

caneta disse...

...mas podiam ser estorninhos, não podiam?

AugustoMaio disse...

Ora, e porque não.

(maravilhoso comentário... aparo d'oiro)

Anónimo disse...

Tudo era agora limpo e claro ...

Anónimo disse...

Um olhar...