quinta-feira, 1 de maio de 2008

Maio

Os gestos vêm dar aos lugares onde um exílio se vai amassando. a certa luz da lâmpada da esquerda uma tessitura cerrada se prolonga por detrás da atenção que lhe espia as malhas juntas. e um coração aqui pulsa mais urgente. os filhos dormem em suas fábulas inocentes de universos alheios a ramaria goteja seus pingos verdes de seiva inicial um volume perfilado dá de si acomoda-se à estreiteza de sua prisão. e não sabemos já de quando somos.

- No tempo de Maio Ana foi vestida para as exéquias de Inverno: ataviada de fitas e bandos pequena e azul sacerdotisa cariátide infantil.

……………………

- Quando se lia o poema as falenas entravam passavam as bambinelas ao murmurar da fonte batiam destrambelhadas contra a redoma do candeeiro a petróleo. na outra Casa era assim: gravuras um cruzeiro uma corrente gelada que vinha do chão. maio concluía-se. os morcegos saíam dos buracos do interior dos ciprestes à esquerda da fachada da igreja escapavam-se pela ranhura das tumbas por onde a chuva penetrava na morte chã dos monges. e através dos fantasmas desencadeados pela vela acesa conheciam o emaranhado da talha barroca adejavam tocando a superfície do retábulo rasavam as trompas do órgão não raro perpassavam sua asa mais mole mais húmida mais viscosa na face ou no braço despedido de um serafim empunhando um archote ou o livro da vida.

Agora é a mosca que constrói a tarde: a cor de seu abdómen coriáceo anelado com brancos filamentos de um azul fino e clássico. e volteja sob a ameaça do raio das trovoadas previstas em suas asas. devora quilómetros horizontal ao corpo horizontal que lhe segue a viagem: zigurate que de cima para baixo vai edificando e depois ascende. profetisa-astrónoma inventora de desígnios fiandeira de luz. e os filhos cresceram: contra as abóbadas do ventre lançaram as unhas cortaram certeiros fios e cordões beberam linfa e memória. a Cidade ficou hirta mais que nunca transida de terrível beleza. MÁRIO CLÁUDIO. MAIO, As máscaras de sábado (1976).

4 comentários:

ViriatoFCastro disse...

A Excelência das letras que se escolhem para a celebração do início deste mês apenas poderiam implicar que o mesmo seja justamente apelidado de Augusto. Um Abraço!

julioletras disse...

Um MAIO augusto, como se deseja.

AugustoMaio disse...

Em mérito alheio
Abraço comum
de Maio inteiro

Anónimo disse...

Deus bem sabia que o tempo certo
Para o mundo crescer é o suave mês de Maio.
Os juncos despontam, é certo e sabido, viçosos e esbeltos
No dia primeiro do mês de Maio.
Eu olho e vejo as copas das árvores vestidas de verde
Que Deus lhe deu no tempo de luz do mês de Maio.
Jóia sem preço e doce alegria de poetas e bardos
É o tempo que vem nos dias formosos do mês de Maio

Dafydd ap Gwilym, Poemas Celtas da Natureza