domingo, 20 de abril de 2008

Boa noite, cidade

Invento uma insónia nova
para o corpo desabrigado.
Obrigo-me à prova
de alertar a cada trinta minutos.

Puxo o adereço que me aperta o pescoço
e, antes de sufocar, tresmalho
em relâmpagos de vida.

Na partida,
ergo-me e vagueio
quinze minutos
pelo corredor profundo,
antes de espetar a caneta no papel branco
e redigir mais um diálogo
de surdos.

Sei que elas não me compreendem.
Sonham, de quando em vez.
Se acordam,
cuidam-se prenhes de razão.

Ora, ora…
É tempo de esconder as persianas,
de encobrir as gelosias.

Tempo de inventar dúvidas.

Entre mim e eu, será um poema
a separação?
Ou um embuste?

A carga de uma perplexidade
ou um anjo de glória?

Haverá distâncias
na perplexidade que nos toca?

Ou só inventamos pertenças alheias?

O que somos:
Uma castidade de ânsias
ou uma devassidão de promessas pias?

Boa noite, cidade.
Entrego-me à cama sem
absoluta esperança de dormir como justo.

Reconforto-me na tentativa.

Amanhã, deu lo queira,
o sol recompensará os audazes.
Saborearemos um, sempre diferente,
brilho igual.

Boa noite, cidade.

e. u. m., Poemas Impublicáveis

7 comentários:

Anónimo disse...

“Os tolos lêem um livro, e não o entendem; os espíritos medíocres pensam entendê-lo perfeitamente; os grandes espíritos às vezes não o entendem de todo"

Sem querer melindrar:
Antes de espetar a caneta no papel branco,pense que nem todos tèm os mesmos dotes/capacidades.Sugiro,se tiver paciência, alguma tolerância e pedagogia para com os medíocres,os tolos...

e. u. m. disse...

É uma posível leitura.
É o risco da liberdade.

A ideia inicial era auto-punitiva.

Mas, reconheço, a ideia inicial não interessa; só as palvras valem.

Atento à leitura.

A M disse...

toda a leitura é poema, outro poema.
para o "bem" e/ou para o "mal", mas ainda bem.

Anónimo disse...

Interessante. O poema e as suas leituras. O autor, o leitor, o escrever e o ler. A visão de todos, cada qual ao seu modo e os sentidos possíveis. A publicação é o acto de abrir o poema e ele transforma-se? Acho que sim.

Anónimo disse...

"Isso"...já lá vai!!!

Anónimo disse...

Temos pena!

? disse...

Ambígua....