quarta-feira, 21 de maio de 2008

Fernando Pessoa



O poeta português Fernando Pessoa foi eleito uma das 50 personalidades que mais influência teve na Cultura europeia, revelou o Bureau Internacional das Capitais da Cultura. Este foi o resultado de uma votação de âmbito universitário promovida pela organização da Capital da Cultura Catalã em vários países europeus. Um total de 137.622 pessoas do continente europeu participaram neste inquérito que decorreu durante nove meses. Entre os eleitos, que se destacaram nas áreas das Humanidades, Artes e Ciências encontra-se para além Fernando Pessoa, Leonardo da Vinci, Shakespeare, Mozart, Einstein, Sócrates (o filosofo não o nosso primeiro :)), Goethe, Galileu Galilei, Carlemany, Erasme de Roterdão e Dostoievski. O presidente do Bureau Internacional de Capitais Culturais e da Organização da Capital da Cultura Catalã, Xavier Tudela, disse que «a Cultura é a essência que une os europeus. Quanto mais se conhecer o legado das pessoas que se destacaram no contributo cultural para o nosso continente mais capazes seremos de construir uma Europa mais forte e sólida».
Fonte: Sol

Como gostava de ser europeu e partilhar cultura e saber...

Porque será o tempo tão estranho?

Um dos resultados de experiências mais perturbadores na história da ciência foi o estudo feito pelo neurocientista Benjamim Libet. Ele monitorizou os impulsos cerebrais e nervosos para demonstrar que o movimento dos músculos supostamente sob controle consciente - o tamborilar de um dedo, por exemplo - é comandado por impulsos nervosos do cérebro e da espinal medula antes de termos consciência de que queremos efectuar o movimento. Isto é perturbador, uma vez que implica de forma clara que a nossa sensação de termos um controle consciente sobre as nossas acções é uma ilusão.
Michel Hanlon, 10 Perguntas às quais a ciência não sabe responder - ainda, Civilização Editora.

O que sabemos que sabemos

Digamos que uma nave espacial aterra ao seu lado e que lá dentro está o Livro Universal de Tudo. E você pode fazer uma pergunta. Qual é?
Agora, digamos que O Livro se sente subaproveitado e você tem direito a mais uma pergunta. Pense em algo sobre que tenha apenas pura curiosidade (O Elvis está vivo; onde ficaram as chaves do carro).
Agora, O Livro sente-se exausto e tornou-se o Livro Universal de Tudo, fazendo as perguntas de todos e obtendo as respostas verdadeiras.
Assim, a questão para si - para a resposta ser adicionada a O Livro - é:
Qual é a única coisa que você sabe ao certo?
William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente (autores do filme What the Bleep Do We Know!?), Afinal o que sabemos nós, Sinais de Fogo.

Confissão

E aqueles que, lendo o que fica exposto, me perguntarem: - "Mas por que não fez a sua confissão quando era tempo? Por que não demonstrou a sua inocência ao tribunal?" - a esses responderei: - A minha defesa era impossível. Ninguém me acreditaria. E fora inútil fazer-me passar por um embusteiro ou por um doido… Demais, devo confessar, após os acontecimentos em que me vira envolvido nessa época, ficara tão despedaçado que a prisão se me afigurava uma coisa sorridente. Era o esquecimento, a tranquilidade, o sono. Era um fim como qualquer outro - um termo para a minha vida devastada. Toda a minha ânsia foi pois de ver o processo terminado e começar cumprindo a minha sentença.
A CONFISSÃO DE LÚCIO
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Lírio ou Rosa? - Vaidosa

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loura e dourada como as messes
E possuis muito amor... muito amor-próprio.

Cesário Verde, Vaidosa (1874)

terça-feira, 20 de maio de 2008


Rosa


Ainda me lembro das rosas
que deixei suavemente sobre o teu leito

Tentação



Porque me tentas se o teu objectivo é abandonar-me?

... A Few Good Men

E para os cinéfilos que, de algum modo, sempre se surpreenderam a ver o Tom Cruise - esse menino bonito dos anos oitenta -, a fazer um papel sério.

Claro que o melhor de tudo é este pedaço da interpretação de Jack Nicholson, no papel de Coronel Nathan Jessep, que lhe valeu a nomeação para o Óscar de Melhor Actor Secundário.

A Few Good Men, 1992

A Few Good Laughs vs...

Para os nostálgicos...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Mário Sá-Carneiro

Quase...

Teus olhos espelhavam vontade de céu
Em disfarce temporário aqui em terra,
Encoberto em sons de poemas como véu
Que todo abre ao sol e abrasando ferra

Um pouco menos luz, eras humano
Um pouco menos azul, só eras Mário
Mas da vida fizeste sudário em pano
Que disfarçava o calor de teu solário

Só a quem lê faltará o golpe de asa
Pequenos ao tamanho de tanto além
Ficámos e ficamos nós aqui aquém
Só memória tem luz da grande brasa

M S-C 19.05.890

A minh'Alma fugiu pela Torre Eiffel acima,
- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões -
Fugiu, mas foi apanhada pela antena da T.S.F.
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertezianas...

(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma!...)

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (1890 - 1916)

Os Maias

Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquela legenda de sangue e negros, o entusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinha sangue de assassino, a belta do Ticiano era filha de negreiro! As senhoras, deliciando-se em vilipendiar uma mulher tão loira, tão linda e com tantas jóias, chamaram-lhe logo a negreira! Quando ela aparecia agora no teatro, D. Maria da Gama afectava esconder a face detrás do leque, porque lhe parecia ver na rapariga (sobretudo quando ela usava os seus belos rubis) o sangue das facadas que dera o papázinho! E tinham-na caluniado abominavelmente. Assim, depois de passarem em Lisboa o primeiro Inverno, os Monfortes sumiram-se: pois dissesse logo, com furor, que estavam arruinados, que a policia perseguia o velho, mil perversidade... O excelente Monforte, que sofre de reumatismos articulares, achava-se tranquilamente, ricamente, tomando as águas dos Pirinéus... Fora lá que o Melo os conhecera...
Eça de Queiroz

Gato Fedorento - Tesourinhos Deprimentes José Ladeiras

A pedido de um amigo, fã do José Ladeiras...

domingo, 18 de maio de 2008

É. É mesmo ele. De outros tempos...

Custou encontrar, mas encontrei.
Foi a referência que motivou a busca.
Os tempos estão outros...
Em edição única e limitada e,
agora, em versão não integral.
Mas é...


Não sei de que fugíamos.
.................

Seja como for, a cidade
predispunha-se, aceitava calmamente
pequenos gestos de ternura,
delírios de morte apenas.
Zé dos Ossos, Trianon - os nomes
que decorei, enquanto fugíamos
da calúnia dos vinte anos.

As tardes no jardim, um pouco lúgubres,
pronunciavam a costumeira subida:
jantávamos os dois por setecentos escudos,
mesmo ao lado da taberna que não tinha mesas.

Saía barato, o amor. Por não sabermos,
ainda, que teríamos de o pagar a vida inteira
com juros aziagos e versos de demora.

Manuel de Freitas, Rua de Montarroio

Juros de Demora, Assírio & Alvim

sábado, 17 de maio de 2008

L'occasione

- Quem és tu, que mulher mortal não és?
Com graça tanta o céu te adorna e dota!
Descansa! Porque tens asas nos pés?
- Eu sou a Ocasião que ninguém nota.
A causa deste infindo labutar
É que ando com meus pés sobre uma roda.
Voo algum, meu correr pode igualar,
Mas estas asas nos meus pés mantenho
Pra que se iluda, ao vê-las, vosso olhar.
À frente, esparsos, meus cabelos tenho;
Neles escondo o peito e o rosto belos
Pra não me conhecerem quando eu venho.
Minha cabeça atrás não tem cabelos,
Pois, evitar que os tirem, não consigo,
Os que ultrapasso e em vão tentam prendê-los.
- Dize-me: essa quem é, que vem contigo?
- A Penitência; ouve, porém, se entendes:
Quem me não prende, prende-a por castigo.
E tu, que o tempo a discursares despendes,
Todo ocupado em pensamentos vãos,
Desleixado! não vês e não compreendes
Como é que eu te fugi por entre as mãos!

Niccolò Machiavelli (1469 – 1527)
Versão de A. Herculano de Carvalho, oiro de vário tempo e lugar

adeus...


sexta-feira, 16 de maio de 2008

"Benefits supervisor sleeping"




Lucian Freud com a venda do seu quadro "Benefits supervisor sleeping", tornou-se o pintor vivo mais valioso do mundo.

dietas

Estava eu a pensar em comer uma omoleta, quando a Mariana disse: “Isto de ter ovários faz mal às pessoas.” Ainda não sei porquê, mas fiquei seriamente convencido que durante este ciclo lunar ia tentar uma dieta vegetariana…

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O Rei dos Alnos

Com todo o respeito por postagem pretérita (16.04.2008), aí na tradução de Eugénio de Castro, acrescento a de Herculano de Carvalho do grande - enorme - poema de Johann Wolfgang Goethe.
.......................
Quem vai cavalgando em noite tão fria?
O pai com seu filho ao vento fugia.
Nos braços o tem, seu vulto acalenta,
Com força o aperta e vai na tormenta.
.....................
Meu filho, que faz teu rosto esconder?
O Rei dos Alnos, pai, não vês aparecer?
Dos Alnos, o Rei, com cauda e coroa? -
Meu filho, eu só vejo a névoa que voa.
..........................
"Menino adorado, anda, vem comigo!
Brinquedos tão lindos brincarei contigo;
Tanta flor bonita há na beira-mar,
Teus vestidos pode minha mãe dourar".
........................
Meu pai, ó meu pai, não ouves com medo
O que o rei dos Alnos promete em segredo? -
Meu filho, sossega e fica tranquilo;
Tu sentes nas folhas, do vento, o sibilo.
......................
"Queres tu, meu rapaz, comigo ir embora?
As filhas que eu tenho esperam-te agora;
É delas na noite a ronda que parte,
E dançam e cantam e vão embalar-te".
......................
Meu pai, ó meu pai, não vês tu além
As filhas do Rei dos Alnos, também? -
Meu filho, ó meu filho, eu vejo, há momentos,
Que os velhos salgueiros parecem cinzentos.
......................
"Teu rosto me agrada e sou teu amigo,
Se a bem não queres vir, sou eu que te obrigo".
Meu pai, ó meu pai, não deixes levar-me!
Dos Alnos, o Rei, já fez magoar-me!
............................
O pai assustou-se, partiu velozmente,
Nos braços levava o filho gemente;
Cansado, chegou em angústia absorto;
Mas já, nos seu braços, o filho era morto.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Só se for de noite

Acalenta-me a esperança fugidia
De te rever numa curva apertada
Àquela hora onde se perde o dia,
Onde a luz se mistura com o nada

Sei assim que os contornos não são teus
A mistura do que recordo e do que sonho
Esse que perde a noite nos fogos só meus
E deixa estrelas no escuro onde me ponho

Se vieres de luz, então tenho receio
De deslumbrar ao facho que me dás
De ficar preso na corrente do enleio
Que obriga o forte julgar-se incapaz

Transparências III

Água Castello ao entardecer.
Detalhe: os "piquinhos" de gás a subir
Também à mesa da esplanada.

Duran Duran - Save a Prayer

Ainda se lembram do início dos anos 80?


Uma carta para Garcia

O meu coração enternece-se pelo homem que realiza o seu trabalho quando o "chefe" está ausente, com o mesmo empenho que demonstra na sua presença. E pelo homem que, ao receber uma carta para entregar a Garcia, pega nela sem fazer perguntas desnecessárias e sem a intenção latente de a deitar na valeta próxima, sem pensar em outra coisa que não encontrar o destinatário. Pelo homem que nunca é "despedido" nem precisa de entrar em greve por melhores salários.
A civilização é uma busca longa e ansiosa por pessoas assim. Qualquer coisa que tal homem peça será atendida. Ele é desejado em todas as cidades e aldeias, em cada escritório, loja e fábrica. O mundo clama pela sua presença: ele é necessário, e muito, o homem que pode levar uma mensagem a Garcia - Elbert Hubbard, A message to Garcia.

Lisboa, fim de tarde




Coimbra, fim de queima




terça-feira, 13 de maio de 2008

segunda-feira, 12 de maio de 2008

The Lovers



(1928)
René Magritte

Só por que posso...

Brett Anderson - Love Is Dead

Só por quero...

Lenta despedida

O Sol iniciava a sua lenta despedida, deixando no horizonte tons que marcavam o fim de mais um dia de Outono. Ela ao longe, só, encostada a uma árvore, não conseguia chorar; o que sentia era de tal forma grande e forte, que a transcendia como se consumisse a sua própria existência. Tudo o que ela era, tudo o que a rodeava não passava de borrões indefinidos, espalhados numa realidade que se confinava à própria dor.
O corpo envolto pelo castanho madeira baixava à terra. As silhuetas negras eram como pequenos recortes maculando a pouca luz que se esvanecia. Um vento suave, mas frio, varria as folhas prostradas sob o chão, encenando um pequeno e estranho bailado…

Peter Greenaway - NIGHT WATCHING

O artista plástico voltou ao cinema.

domingo, 11 de maio de 2008

Transparências I

Como não podia deixar de ser, também à mesa de uma esplanada, ainda que com inclinação.
Para a história e memória deste pequeno Digesto de amigos - convivas de boas tertúlias-, congratulo-me ao dar-me conta de que chegámos à metade do milhar, num lento e doce discorrer.

"Prateada"

A hora deixa na noite, de arrepios
A vista de meu cansaço enevoada
Procuro no vazio dos lugares vazios
A dela, minha lembrança esvaziada.

Salpico a memória com a luz de restos
Aflijo-me de não sentir um só recordo
Invento desculpas em jeito de protestos
Como a balir, e sabendo que não mordo

Afinal o esforço não me valeria de nada
Sempre assim é a quem por pouco sofre
A mulher escondeu-se em forma prateada
E anda a incomodar nos cantos do blogue

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Michael Nyman Band - Chasing Sheep is Best Left to Shepherds

Para os que nos acusam de sermos demasiado intelectuais, aqui vai a simplicidade do minimalismo...

fernando pessoa

Free Image Hosting at www.ImageShack.us


Prata



Em homenagem a EROS... que, por vezes, me custa estar congelado.

Longe, Perto: O Horizonte

A utopia é uma subespécie de insolência onde se refugiam os negadores de poderes. São prestidigitadores que avançam com o inédito contra a "ordem do dia" onde abrem uma ferida incurável que é a experiência do excesso. Sob o pretexto de nos proteger da fatalidade, a utopia oscila entre o apocalipse e a esperança, isto é, entre o medo e o medo de ter medo, perpetuando-nos o cativeiro mesmo se ele é, e é sempre, dissonante.
Quando o futuro se preparava para ser um exercício de repetição assente na sua legitimidade tecnológica, a utopia interrompeu-a (sécs. XIX e XX) com a sua verdade abrupta e redentora.
A utopia, é a sua função, instala a incerteza. É na incerteza que reside, ansiosa, a liberdade. Fernando Gandra, O Sossego Como Problema (peregrinatio ad loca utopica), Fenda, 2008.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

ond andaaaam oos pequeeenoos?


estás sempre a dormir...


e eu aqui perdido!


POEMA do DIA

Quem não sonhou com impossíveis
Nem fez castelos grandiosos
Sobre areias movediças?
Doces imagens que nos olhos
Ficastes pálidas e frias!

Sois como pássaros cativos
E abris em frémitos inúteis
As finas asas coloridas
Peixes no aquário translúcido
Sonhais vogar dentro dum rio.

Crianças doentes, que no quarto
Fazeis projectos de futuro.
Surdas canções de condenados…
Breve paisagem de algum quadro
Presa debaixo da moldura.

Ó flutuantes sombras tímidas,
Que receais o mundo e os homens,
Ficai em nós, mudas e moles:
Recordações indefinidas
De tudo aquilo que não fomos.

CABRAL DO NASCIMENTO
Nostalgia, 33 Poesias (1941) e Cancioneiro (1963, 1976)

(e assim passou um mês de poemas, dia a dia)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

300


Porque a Banda Desenhada também é arte...

O Mestre e o Admirável

Pergunto-te, Mestre, se sem memória não vivemos; se o tempo em que dormimos e não recordamos os sonhos conta como vida ou é apenas instrumental.

Não conta. Se tanto, é instrumental: só se vive o que se pensa e só se pensa o que se recorda.

Então, viveremos mais ou menos, consoante os anos de pensamentos e memórias, não consoante o que chamamos vida.

É certo.

Então, se pensarmos mais depressa, vivemos mais tempo.

Não digo mais tempo, viveremos mais. O tempo atrapalha a questão. Se pensarmos ao dobro da velocidade, viveremos o dobro.

Mas o Admirável diz o contrário: se conseguirmos pensar mais devagar, o tempo torna-se pastoso, em vez de corrido.

Pastoso ou corrido não é velocidade, é profundidade. A resposta não está no tempo mas no viver. Se pensares depressa, verás que o Admirável vive menos, porque se perde no tempo.

O Mestre e o Admirável, O Sétimo Livro

Ryuichi Sakamoto - Merry Christmas Mr. Lawrence (Trio Tour)

Para além do tempo. Simplesmente maravilhoso!

Douro


Veneza, 2005


POEMA do DIA

Uma mesa de plástico, branca
junto da tarde que morre
e renasce por pequenas paixões
de repente estávamos sozinhos
as ilhas muito inacessíveis
agora que escureceu
o menor desejo teria um sentido delicado
os olhos velozes de um gato
viam coisas belas
lado a lado com os homens
pareciam quase não ter sofrido

a mesa estava encostada às janelas do café
e nós de forma desolada
ignorados, aturdidos, de passagem
não muito mais

procuro desse facto uma versão
que me conduz à inconfidência

era uma mesa lisa, branca
uma razão soletrava um acaso
a medida soberana do incerto

olhos velozes de um gato os teus
olhos

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
Reis Magos, Pequenas Paixões (Baldios)

terça-feira, 6 de maio de 2008

à espreita











POEMA do DIA

Uma figura de mulher encaminha-se para a floresta.
Vai devagar. Desce a longa avenida de ventos que,
rudemente, lhe estilhaçam os ouvidos.

Quis adivinhar o seu rosto. Descrever as cores
do vestido que lhe estreita o corpo, o movimento
dos braços para a frente, o ruído dos passos lentos

sobre as amarelecidas folhas. Mas ele é, cada vez mais,
um ponto que se afasta. Uma vontade perdida
para o dobrar das árvores à sua passagem.

Quando a mulher entrar na floresta
tudo se suspenderá. A solidão da paisagem
será a minha solidão.

Os meus olhos serão os olhos da paisagem.

LUÍS QUINTAIS
Postal Ilustrado, A Imprecisa Melancolia

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Maternidade(s)

Leonardo Da Vinci, "A Virgem, Sant'Ana e o Menino"

Puro Vintage II - Making of #5

Variação em anos oitenta


Puro Vintage II - Making of #4

O preciosismo das melhores nuances de luz

POEMA do DIA

Milhões de barcos perdidos no mar!
Perdidos na noite!
As velas rasgadas de todos os ventos
os lemes sem tino
vogando ao acaso
roçando no fundo
subindo na vaga
tocando nas rochas!
e quantos e quantos naufragando...

Quem vem acender faróis na costa do mar bravo?!
Quem?!

MANUEL DA FONSECA
Noite, Canções da beira-mar

domingo, 4 de maio de 2008

De Mãe para Mãe

Mãe, tu que sofreste amargurada
A morte de teu Filho na cruz,
Tu que sofres dia após dia
Pela humanidade
(que nem crê na Verdade)
Só o mal a seduz.
Mãe, porque és Mãe
Peço-te, sem nada eu merecer
Apenas sabendo que me vais valer:
Dá-me protecção e carinho, Mãe!
Amparo, ternura, vigilância,
Fala-me baixinho ao coração,
Aconchega-me sob o teu manto
Dá-me a tua santa benção, Mãe!

Escuta a minha prece
Concede-me teu perdão
Mãe de todas as mães,
Senhora da Conceição.

(Foto e Poema: C. A.)

noburacodagulha


Protesto da Terra (tantas flores...)


Poema: O Dia da Mãe


POEMA do DIA

Deixa contar...
Era uma vez
O Senhor Mar
Com uma onda...
Com muita onda...

E depois?
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
E depois...

A menina adormeceu
Nos braços de sua mãe.

MATILDE ROSA ARAÚJO
História do Sr. Mar, O Livro da Tila

sábado, 3 de maio de 2008

ai flores...







Cabra, há tantos anos


lentidão


Sem publicidade.
Apenas uma ideia kunderiana de sossego.

POEMA do DIA

Paro em frente do mar
as ondas esperadas
vêm transfigurar
o corpo seu desterro

Fotografias cor de ferro
metamorfoses junto à casa
(na mesma areia) de madeira
ondas no corpo desterradas

Na pele as ondas matinais
projectam veias linhas curvas
no fundo corpo radiografam
outros verões à luz da luz

Ondas pequenas semelhantes
à crua infância agora iguais
ao mar lembrado revelai
em mim os dias de verão

GASTÃO CRUZ
Canção das Ondas, Crateras

sexta-feira, 2 de maio de 2008


fogo de artifício


artifício de fogo


muda!

Às vezes, mudar o mundo é apenas um olhar diferente;
Apenas uma nova cor, um gesto de procura.
Nota: é possível e basta baixar o mundo ao nosso esforço e alegrar-lhe as cores.

quadrinhas do Maio

Deixa-me fugir de exilado
Só por um mês e neste Maio
Que o coração assim parado
Rebenta-me se eu não saio

Prometera-te o esconderijo
E assim me tenho ficado
Mas mais não consigo e finjo
Que te manténs ao meu lado

A luz de Maio é intensa
E eu temo não a beber
O coração que só te pensa
É um coração a sofrer

Sei que te posso imaginar
Mas isso só, já me cansa
Se não me vieres libertar
Afogo-me nessa esperança

Rogo-te por Maio, peço
Vem beber da mesma cor
Bem sei que o não mereço
Mas é mesmo isso o amor

POEMA do DIA

recolhe o frio ao nó dos dedos
e a noite se embrulha de estrelas
uma breve leve carícia na minha pele
quando fecho os olhos e escuto o teu corpo

"curei um homem", dizes-me a medo
o quarto inclina-se como se entendesse
e subitamente eu não posso evitar
choras, escondes as mãos
e eu não posso evitar amar-te

lá fora, o homem curado
deita-se à beira-mar
abraçado ao teu nome
a espuma vem morrer
à nossa cama
para buscar as tuas lágrimas

abro os olhos e digo-te:
ensina-me de novo a ter mãos

VASCO GATO
abraçado ao teu nome, Um Mover de Mão

quinta-feira, 1 de maio de 2008

pormenor de pé esquerdo (séc. XXI)


larguem daqui


Estou a ver

Vejo que tens os olhos raiados
Raiados de encarnado
Espesso como o silêncio
Que espera o toque do telefone.

Vagueias submissa ao pensamento
Que te promete ser eu.

Os minutos explodem
As lembranças enervam
O desatino floresce.

A memória confunde-te
E ouves.

No andar de cima
Uma estudante atende
E logo promete
Uma noite de beijos.

Reivindicas-te

Quando já resguardas o tédio
Num poema por fazer
Finges de novo ouvir
E obrigas-te ao silêncio.

Não seria eu, outra vez?

e. u. m., Poemas Impublicáveis

Puro Vintage II - Making of #3

Detalhe criativo

Photoshopianice da Mariana.


Puro Vintage II - Making of #2

Ensaio de luz

Cautela...

Quando rasuras esses ditames de profundidade, que cautela te afasta do Abismo?

Só o senso da loucura, mestra da normalidade possível.

Anónimo, Séc. XXII

Maio

Os gestos vêm dar aos lugares onde um exílio se vai amassando. a certa luz da lâmpada da esquerda uma tessitura cerrada se prolonga por detrás da atenção que lhe espia as malhas juntas. e um coração aqui pulsa mais urgente. os filhos dormem em suas fábulas inocentes de universos alheios a ramaria goteja seus pingos verdes de seiva inicial um volume perfilado dá de si acomoda-se à estreiteza de sua prisão. e não sabemos já de quando somos.

- No tempo de Maio Ana foi vestida para as exéquias de Inverno: ataviada de fitas e bandos pequena e azul sacerdotisa cariátide infantil.

……………………

- Quando se lia o poema as falenas entravam passavam as bambinelas ao murmurar da fonte batiam destrambelhadas contra a redoma do candeeiro a petróleo. na outra Casa era assim: gravuras um cruzeiro uma corrente gelada que vinha do chão. maio concluía-se. os morcegos saíam dos buracos do interior dos ciprestes à esquerda da fachada da igreja escapavam-se pela ranhura das tumbas por onde a chuva penetrava na morte chã dos monges. e através dos fantasmas desencadeados pela vela acesa conheciam o emaranhado da talha barroca adejavam tocando a superfície do retábulo rasavam as trompas do órgão não raro perpassavam sua asa mais mole mais húmida mais viscosa na face ou no braço despedido de um serafim empunhando um archote ou o livro da vida.

Agora é a mosca que constrói a tarde: a cor de seu abdómen coriáceo anelado com brancos filamentos de um azul fino e clássico. e volteja sob a ameaça do raio das trovoadas previstas em suas asas. devora quilómetros horizontal ao corpo horizontal que lhe segue a viagem: zigurate que de cima para baixo vai edificando e depois ascende. profetisa-astrónoma inventora de desígnios fiandeira de luz. e os filhos cresceram: contra as abóbadas do ventre lançaram as unhas cortaram certeiros fios e cordões beberam linfa e memória. a Cidade ficou hirta mais que nunca transida de terrível beleza. MÁRIO CLÁUDIO. MAIO, As máscaras de sábado (1976).

POEMA DO FERIADO

Era ele que erguia as casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Nada sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De facto como podia
Um operário em construção
Compreender como um tijolo
Valia mais que um pão?
Tijolo ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia…
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento.
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse facto extraordinário
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- garrafa, prato, facão –
Era ele que os fazia.
Ele um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, cadeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele que o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabeis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou a sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção,
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo o que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

………….

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão.
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voa
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

VINICIUS DE MORAES
O Operário Em Construção.
A um/a anónimo/a cansado/a do registo "natura",
o olhar de militar aprumo - se tanto -, quando, em
razão da idade, as batalhas podiam encarar-se assim.
(uma vez sem exemplo)

Sinais inquietantes do perigo

Conseguiremos (tentaremos...) reformular o homem para que galgue a entrada das casas mais pequenas ou continua a bastar encolher os ombros?
"Virtude é para eles o que os faz modestos e mansos; com isto convertem o lobo em cão, e o homem no melhor animal doméstico do homem" - Nietzsche.
Nota de edição: este texto é perigoso; há alguma vantagem em ser lido depressa e nenhuma razão para ser repetido. Cf. Peter Sloterdijk (O discurso de Elmau) e Nietzsche (Assim Falava Zaratustra).

POEMA do DIA

Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do Sol no sítio errado,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E que tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

JOSÉ SARAMAGO
Retrato do poeta quando jovem