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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

sou. não sou?

meu castigo é branquear os rios
de vermelho sangue turvos
de dar voz aos surdos
de dar ouvido aos mudos
escravo de impróprios desafios

sou de resto o que resta da perdição
do mundo, o nem presta é
a sobra de uma canção
por trautear. nem sei se sou
espelho da vista do rosto
luz fugidia, sol-posto
amarelo de criança em balão
cinzento d'esperança. tufão
que arrase o mundo velho
em noite de sol intenso. calor profundo.

não penso. não sou. não vou.
fico encostado ao infinito
e no silêncio do grito
não falo, não calo:
devolvo o último som do medo.

nem sei se parto. só
estou farto
que m' iluminem a revolta.

anda ainda alguém à solta?

(e.u.m.)

sábado, 4 de outubro de 2008

liberta-me

Ah!, liberdade que me corrói a firmeza da vontade;
a ti me entrego em desmedida negação de sobras reservas
e fico preso à ânsia de nunca querer um rumo certo,
uma responsabilidade.

“Vou ausentar-me por algum tempo”, se assim
me deixares ser sério:
Era uma vez na América –
Brindo ao fim da lei seca,
ao último carregamento!
Quem é que vai querer beber aqui ilegalmente?

Deita uma frase e eu construo um verso;
lança um sorriso e eu lavro um poema.
Que pena:
Grita um grito e eu fico!
Não:
Liberta-me desta liberdade.

e. u. m., P.I

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

inexorável

Roubados ao desejo,
suplicamos uma paisagem
que nos ordene o mundo
e volte a permitir
que o desejo seja o horizonte
onde se perdem olhos de criança,
depois de salpicar o areal do mar
com gestos incontroláveis de sal.

Queremos que o Sol aguarde
o retomar da vontade,
a memória da cama de pétalas,
o perfume adocicado do teu umbigo.
E fazemos um pacto com o tempo,
em troca de trocarmos o mundo.
Aceitamos envelhecer, mesmo a desgosto,
só para que os lábios se unam outra vez.

Quando chegamos a casa
há uma televisão que pinga disparates
e a louça da cozinha
sintoniza o eco sanitário dos vizinhos.

Trocamos os olhos sem dizer amor.
Comprámos a segunda sem pagar ao diabo.
E deitamo-nos tristes.
E mais velhos.

e. u. m., P.I.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Janelas de escuro

Vou abrir as janelas
à luz futura.
É tarde e escuro,
o sono cambaleia-me.

Se dormir com os olhos
cerrados de paz,
como um fecho que me acorrenta
na permissão dos sonhos,
perco o levantar da manhã.
Mas ela há-de espreitar
as janelas abertas
e combinar com o Sol
um acordar de menino.

Depois, amanhã,
hei-de abraçar o mar
com o corpo inteiro.
Já então a luz
me elogiara a ideia.

e. u. m., P.I.

domingo, 13 de julho de 2008

Calor

Quando o calor sobra,
pintamos a cara de areia molhada
e sentamo-nos nos degraus da tarde.
A lua espreita, tímida,
e conversamos com as horas da espera.
Quando o Sol partir
havemos de entrelaçar desejos
na candura da noite.
Amanhã abrasaremos de novo,
num sentimento repetido.
E esperamos a noite,
vezes sem tempo.

e. u. m., P. I.

sábado, 5 de julho de 2008

arrepio há idos anos

Inteirei-me daquele momento único
Em que a tua passagem me arrepiou.
O que daí é meu? O que será teu…
Não há modo de inventar quem ditou

Resposta? Certo é que os anos incertos se perderam sem ela
Como quem desespera a olhar o infinito duma trôpega janela

Gostava que tu gostasses de pensar o mesmo
Que a tua vida tivesse as mesmas saudades
Que nenhum de nós fosse capaz de recompor
O castigo daquela troca de olhar

Talvez me transforme em castigador
E me convença, amor, que é tudo amor

Sim: só porque é teu
Só porque, na tua boca vermelha, é céu
O que imagino em cada esquina do caminho
Em cada dia que fatigo
Em cada espaço de seguido
Sem sentido.

e. u. m., P. I.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O que recordo

Que encanto pode ter a ousadia
de te lembrar?,
Se o que recordo é uma nuvem
desigual:

a reconstrução dos teus pedaços
no magma dos meus desejos;
mistura de pouca ternura
e de tantos medos...

e. u. m., P.I.

Sequer nas sombras

Que é o tempo e o medo
se não forem a mesma coisa;
um qualquer pedaço de pavor
que se dilata no espaço.

Tal como um olhar
demasiadamente perdido no horizonte
sem te encontrar,
sem te cruzar...

Sequer nas sombras.

e. u. m., P. I.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Estou a ver

Vejo que tens os olhos raiados
Raiados de encarnado
Espesso como o silêncio
Que espera o toque do telefone.

Vagueias submissa ao pensamento
Que te promete ser eu.

Os minutos explodem
As lembranças enervam
O desatino floresce.

A memória confunde-te
E ouves.

No andar de cima
Uma estudante atende
E logo promete
Uma noite de beijos.

Reivindicas-te

Quando já resguardas o tédio
Num poema por fazer
Finges de novo ouvir
E obrigas-te ao silêncio.

Não seria eu, outra vez?

e. u. m., Poemas Impublicáveis

domingo, 20 de abril de 2008

Boa noite, cidade

Invento uma insónia nova
para o corpo desabrigado.
Obrigo-me à prova
de alertar a cada trinta minutos.

Puxo o adereço que me aperta o pescoço
e, antes de sufocar, tresmalho
em relâmpagos de vida.

Na partida,
ergo-me e vagueio
quinze minutos
pelo corredor profundo,
antes de espetar a caneta no papel branco
e redigir mais um diálogo
de surdos.

Sei que elas não me compreendem.
Sonham, de quando em vez.
Se acordam,
cuidam-se prenhes de razão.

Ora, ora…
É tempo de esconder as persianas,
de encobrir as gelosias.

Tempo de inventar dúvidas.

Entre mim e eu, será um poema
a separação?
Ou um embuste?

A carga de uma perplexidade
ou um anjo de glória?

Haverá distâncias
na perplexidade que nos toca?

Ou só inventamos pertenças alheias?

O que somos:
Uma castidade de ânsias
ou uma devassidão de promessas pias?

Boa noite, cidade.
Entrego-me à cama sem
absoluta esperança de dormir como justo.

Reconforto-me na tentativa.

Amanhã, deu lo queira,
o sol recompensará os audazes.
Saborearemos um, sempre diferente,
brilho igual.

Boa noite, cidade.

e. u. m., Poemas Impublicáveis