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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Morrissey

Gavin Hopps, especialista em romantismo britânico e autor do livro Morrissey: The Pageant of His Bleeding Heart, afirmou recentemente que o trabalho de Morrissey pode ser comparado à obra de grandes nomes da literatura como Samuel Beckett e Oscar Wilde e também a grandes nomes da comédia britânica como Frankie Howerd e George Formby.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Palavras

"Estava na natureza do signo linguístico não poder permanecer muito tempo no estádio ao qual Babel pôs fim, quando as palavras eram ainda os bens essenciais da cada grupo particular: valores tanto quanto signos; preciosamente conservados, pronunciados com parcimónia, trocados contra outras palavras cujo sentido desvendado vincularia o outro...
Na medida em que as palavras se banalizaram e em que a sua função de signo suplantou o seu carácter de valor, a linguagem contribuiu, com a civilização científica (eu diria mediática), para empobrecer a percepção, a despojá-la das suas implicações afectivas, estéticas e mágicas, e a esquematizar o pensamento."
Claude Lévi-Strauss, Les structures élémentaires de la parenté. Paris, Mouton, 1967. P. 569

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A Insustentável Leveza da Ignorância

"(...) O que me traz ao aspecto mais perturbador e alarmante de toda esta tola controvérsia. Os jornalistas e os responsáveis religiosos portugueses de um modo geral tratam os comentários de Saramago como importantes! Graças a eles, os meios de comunicação deram-lhe mais tempo na televisão e mais espaços nos jornais do que a outras questões mais importantes. E alguns representantes da Igreja Católica atacaram-no com uma ferocidade emocional que revela bem que consideram tais opiniões sobre o antigo testamento como um obstáculo à fé. Mais uma vez, como salientai mais atrás, os comentários de Saramago não são chocantes nem novos. E apenas representam um obstáculo à fé para quem não tenha a menor ideia do que é que pretendia ser o Antigo Testamento. As críticas de Saramago são unicamente banalidades superficiais, que revelam uma profunda ignorância da filosofia e da religião ocidentais e uma total incompreensão da linguagem poética e narrativa de desde há mais de três mil anos. Só quem ignora tal herança, jornalistas e responsáveis religiosos incluídos, podiam tornar o patético desabafo do romancista numa tal polémica. E, para mim, essa foi a parte mais perturbante de toda esta “inventada” noticia: descobrir que na sociedade onde vivemos, entre os seus membros mais ilustres e cultivados, possa prolongar-se tão lastimosa ignorância de uma parte importantíssima do legado civilizacional da filosofia e da cultura ocidentais."


Richard Zimler
Jornal Público de 27 de Outubro de 2009
Tradução de José Lima

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Art

"Art 'lives' through influencing other art, not by existing as a physical residue of an artist 's ideas.The reason why different artists from the past are 'brought alive' again is because some aspect of their work becomes 'useable' by living artists. That there is 'no truth as to what art is' seems quite unrealized."

Joseph Kosuth,1969

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Ena, tantos, tantos e tantos...

"Isto é: qualquer português hoje vivo, em particular o leitor, é descendente não apenas do fundador da nacionalidade como de qualquer outro português do século XII cuja linha de descendência não se tenha entretanto extinguido. portanto, além da nossa descendência real, somos também descendentes de todos os miseráveis servos da gleba, de todos os criminosos vilões e bobos da aldeia que tenham deixado descendência. do ponto de vista matemático somos todos iguais, e todos os que viveram antes de nós são iguais entre si. O mesmo argumento mostra que qualquer europeu vivo é descendente directo de Carlos Magno, Clóvis ou Maomé. Como, na verdade, também de qualquer outro europeu vivo à data deles, desde que a sua linha de descendência não se tenha entretanto extinguido. Dentro de mil e quinhentos anos, das duas, uma: ou a sua linha de descendência se extinguiu ou todos os seres humanos nessa altura vivos serão seus descendentes.
A explicação destes factos encontra-se em resultados matemáticos, alguns dos mais recentes, relativos à matemática das genealogias. No entanto, a razão matemática de fundo é muito simples, sendo perfeitamente compreensível a um aluno do secundário: trata-se do crescimento exponencial do número de ascendentes. Todos nós temos pai e mãe, portanto temos quatro avós, oito bisavós, dezasseis trisavós, e assim por diante"

Jorge Buesco, "Somos todos nobres (e servos)", O Fim do Mundo Está Próximo?, Gradiva, 2007

What Are You Optimistic About?

O site Edge dedica-se a ideias especulativas, representando as fronteiras nas áreas da biologia evolutiva, genética, ciência de computadores, neurofisiologia, psicologia e física. Depois de outras perguntas - como a das Ideias Perigosas, já aqui referida - a pergunta de 2007 foi a seguinte: "Enquanto actividade e enquanto estado de espírito, a ciência é fundamentalmente optimista. A ciência descobre o modo como as coisas funcionam e graças a isso pode fazê-las funcionar melhor. A maior parte das notícias ou são boas notícias ou são notícias que podem vir a tornar-se boas, graças ao aprofundamento constante do conhecimento e a ferramentas e técnicas cada vez mais eficientes e poderosas. No limite, a ciência coloca cada vez mais perguntas melhores e mais claras. Qual é a sua ideia optimista? Porquê? Surpreenda-nos!"

Muitas foram as respostas, desde o fim da guerra ao avanço estrondoso da ciência e da tecnologia. Por ora, aqui fica apenas a primeira, escrita por Mihaly Csikszentmihalyi (Psicólogo e director do Centro de Investigação para a Qualidade de Vida da Claremont Graduate University): "Estou optimista pela simples razão de que, tendo em conta as possibilidades ínfimas de existência de entidades capazes de fazer tais perguntas e de computadores portáteis nos quais responder-lhes - e por aí em diante - aqui estamos nós, a colocar a pergunta e a responder-lhe!".

IDEIAS OPTIMISTAS, Coord. de John Brockman, Tinta da China

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Dangerous Idea

A ideia é perigosa, não porque se presume ser falsa, mas porque pode ser verdadeira!
"A história da ciência está cheia de descobertas que, na sua época, foram consideradas social, moral ou emocionalmente perigosas: as revoluções geradas por Copérnico ou Darwin são as mais óbvias. Qual é a sua ideia perigosa? Uma ideia em que tem meditado (não necessariamente uma ideia sua, original) e que acha que é perigosa, não porque se presume ser falsa, mas porque pode ser verdadeira?"
O site Edge (www.edge.org) é uma celebração das ideias da terceira cultura. As ideias aí apresentadas são especulativas, representando as fronteiras. Um acontecimento anual do site é The World Question Center, introduzido em 1971 e muito implementado com o avanço da Internet. A pergunta de 2005 foi "o que acredita ser verdade, mesmo sem poder prová-lo?"; agora (2006) refere-se às Ideias Perigosas.
Grandes Ideias Perigosas, Coord. John Brockman, Tinta da China, 2008

sábado, 31 de maio de 2008

Humanismo

O acaso fez com que no dia 11 de Setembro de 2001 estivesse a dar aulas a jovens físicos europeus, numa Escola de Verão organizada pela Universidade do Algarve. O fim das minhas aulas coincidiu com o narcisismo póstumo dos fanáticos religiosos de hoje e vivemos, em directo e incrédulos, o que se estava a passar em Nova Iorque. O homem tinha inventado uma nova forma de violência. Valeu-me o meu pequeno telescópio, uma noite calma de fim de Verão e as minhas terras da Serra Algarvia para que evasões, que a formação do físico estimula, me permitissem partir para longe do nosso planeta e da nossa época. Imaginei que, à volta desta ou daquela estrela que estava a ver na direcção do sagitário e das suas nebulosas, havia um planeta com características físicas diferentes do nosso: outra massa, outro campo magnético, outra inclinação do eixo de rotação, outra evolução geológica, onde uma vida inteligente tivesse evoluído de maneira diferente da nossa e onde as características privilegiadas pela selecção das espécies tivessem sido mais cooperação e menos individualismo, mais solidariedade e menos competição, mais tolerância e menos fanatismo. Esses seres inteligentes poderiam até ter menos unidades funcionais que os nossos cem mil milhões de neurónios, talvez não organizadas em hemisférios, mas as conexões entre elas talvez tivessem privilegiado mais o que une e não o que separa, isto é, aquilo a que chamamos, no nosso pequenino planeta azul, Humanismo.
Manuel Paiva, Como respiram os Astronautas, Gradiva, 2004 (Manuel Paiva nasceu no Porto em 1943 e fixou-se em Bruxelas em 1964, tendo-se licenciado e doutorado na Universidade Livre de Bruxelas. É professor de Física na Faculdade de Medicina da mesma Universidade e director do Laboratório de Física Biomédica. Participou em dez missões espaciais e é presidente dos Fundos Educativos da Agência Espacial Europeia, associados à Estação Espacial Internacional)

O Cosmos de Einstein

Assim que nos apercebemos que o espaço pode ser curvo, emerge uma nova imagem, desconcertante. Pensemos numa pedra pesada em cima de uma cama. A pedra afunda-se um pouco. Agora atiremos um pequeno berlinde para cima da cama. O berlinde não vai mover-se numa linha recta, mas numa linha curva, em redor da pedra. Há duas maneiras de analisar este efeito. À distãncia, um newtoniano poderia dizer que há uma "força" misteriosa que emana da pedra para o berlinde, obrigando-o a alterar o seu percurso. Esta força, mesmo que invisível, alcança e atrai o berlinde. No entanto, um relativista vê uma imagem completamente diferente. Para este, olhando a cama de perto, não há nenhuma força a atrair o berlinde, há apenas a depressão da cama, que dita o movimento do berlinde. À medida que se vai movendo, a superfície da cama "empurra" o berlinde até que este passa a deslocar-se num movimento circular.

Agora substituímos a pedra pelo Sol, o berlinde pela Terra e a cama pelo espaço e o tempo. Newton diria que uma força invisível chamada "gravidade" atrai a Terra e a mantém em torno do Sol. Einstein responderia que não há qualquer atracção gravítica; a Terra é deflectida em torno do Sol porque é a curvatura do próprio espaço que está a empurrar. De certo modo, a gravidade não atrai, mas o espaço empurra.

De acordo com esta imagem, Einstein conseguia explicar porque razão qualquer perturbação no Sol levaria oito minutos a chegar à Terra. Por exemplo, se de repente retirássemos a pedra, a cama recuperaria imediatamente a sua forma normal, criando ondas que se deslocariam, a uma velocidade definida, através da cama. Da mesma forma, se o Sol desaparecesse, criaria uma onda de choque de espaço distorcido que se deslocaria à velocidade da luz. Esta imagem era tão simples e elegante que Einstein conseguiu explicar a ideia essencial a Eduard, seu filho mais novo, que lhe perguntou por que é que ele era tão famoso. Einstein respondeu: "Quando um besouro cego rasteja sobre a superfície de um ramo curvo, não repara que o caminho que percorreu é, na realidade, curvo. Eu tive a sorte de reparar naquilo em que o besouro não reparou".

Michio Kaku, O Cosmos de Einstein, Gradiva, 2005 (Michio Kaku é professor de Física Teórica na City University e no City College de Nova Iorque. è autor de programas na Rádio e na Televisão e de vários livros de ensino ao nível do doutoramento que constituem leitura obrigatória nas mais prestigiadas universidades do mundo).

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A tinta que falta

É uma velha piada que circulava na RDA sobre um trabalhador alemão que encontra trabalho na Sibéria. Consciente que todas as suas cartas serão lidas pelos censores, explica aos amigos: "Estabelecemos um código: se receberem uma carta escrita a tinta corrente, azul, estou a dizer a verdade; se ela estiver escrita a tinta vermelha, estou a mentir." Um mês depois, os amigos recebem a primeira carta, escrita a tinta azul: "Aqui tudo é maravilhoso, as lojas estão abastecidas, a comida é abundante, os aposentos espaçosos e bem aquecidos, as salas de cinema passam filmes ocidentais, há raparigas disponíveis - a única coisa que falta é a tinta vermelha".
A estrutura é mais complicada do que parece: mesmo não podendo indicar da forma previamente estabelecida que está a mentir, o trabalhador consegue passar a mensagem. Como? Inscrevendo a referência ao código na mensagem codificada, como um dos seus próprios elementos. É a clássica problemática da auto-referencialidade: se a carta está escrita a tinta azul, o seu conteúdo não é verdadeiro? O facto de mencionar a falta de tinta vermelha assinala que a carta deveria ter sido escrita a vermelho. O interessante é que seja essa mesma alusão a produzir o efeito de verdade, independentemente da sua própria verdade literal: mesmo que tivesse sido possível encontrar tinta vermelha, as condições específicas da censura implicavam necessariamente o recurso à mentira para conseguir transmitir a verdadeira mensagem.
Slavoj Zizek, Bem-vindo ao deserto do real, Relógio de Água.
(Slavoj Zizek é filósofo, psicanalista e cinéfilo. Investigador do Instituto de Sociologia de Liubliana, é também professor visitante na New School for Social Research, em Nova Iorque)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Joga, não joga...

Deus não joga aos dados com o Universo - Albert Einstein.
Deus não só joga aos dados como por vezes os atira para onde não se podem ver - Stephen Hawking.

O que é a consciência?

O terceiro problema da consciência, intimamente relacionado com a questão do eu, é o problema da liberdade. Se o eu é uma ficção narrativa, quem é o autor dos actos volitivos conscientes? E, mais importante do que isso, como conciliar a sensação de que somos agentes livres com as provas manifestas de que o agente tem de estar sujeito às leis (determinísticas) da física?
Keith Sutherland, O que é a consciência, Grandes Questões Científicas, Gradiva.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Porque será o tempo tão estranho?

Um dos resultados de experiências mais perturbadores na história da ciência foi o estudo feito pelo neurocientista Benjamim Libet. Ele monitorizou os impulsos cerebrais e nervosos para demonstrar que o movimento dos músculos supostamente sob controle consciente - o tamborilar de um dedo, por exemplo - é comandado por impulsos nervosos do cérebro e da espinal medula antes de termos consciência de que queremos efectuar o movimento. Isto é perturbador, uma vez que implica de forma clara que a nossa sensação de termos um controle consciente sobre as nossas acções é uma ilusão.
Michel Hanlon, 10 Perguntas às quais a ciência não sabe responder - ainda, Civilização Editora.

O que sabemos que sabemos

Digamos que uma nave espacial aterra ao seu lado e que lá dentro está o Livro Universal de Tudo. E você pode fazer uma pergunta. Qual é?
Agora, digamos que O Livro se sente subaproveitado e você tem direito a mais uma pergunta. Pense em algo sobre que tenha apenas pura curiosidade (O Elvis está vivo; onde ficaram as chaves do carro).
Agora, O Livro sente-se exausto e tornou-se o Livro Universal de Tudo, fazendo as perguntas de todos e obtendo as respostas verdadeiras.
Assim, a questão para si - para a resposta ser adicionada a O Livro - é:
Qual é a única coisa que você sabe ao certo?
William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente (autores do filme What the Bleep Do We Know!?), Afinal o que sabemos nós, Sinais de Fogo.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Longe, Perto: O Horizonte

A utopia é uma subespécie de insolência onde se refugiam os negadores de poderes. São prestidigitadores que avançam com o inédito contra a "ordem do dia" onde abrem uma ferida incurável que é a experiência do excesso. Sob o pretexto de nos proteger da fatalidade, a utopia oscila entre o apocalipse e a esperança, isto é, entre o medo e o medo de ter medo, perpetuando-nos o cativeiro mesmo se ele é, e é sempre, dissonante.
Quando o futuro se preparava para ser um exercício de repetição assente na sua legitimidade tecnológica, a utopia interrompeu-a (sécs. XIX e XX) com a sua verdade abrupta e redentora.
A utopia, é a sua função, instala a incerteza. É na incerteza que reside, ansiosa, a liberdade. Fernando Gandra, O Sossego Como Problema (peregrinatio ad loca utopica), Fenda, 2008.