domingo, 7 de dezembro de 2008
sábado, 6 de dezembro de 2008
Afonso, o 1.º
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Espero, mesmo em Dezembro e à chuva
A chuva lavou das línguas as palavras quentes.
Dezembro é mês de melancolia e sem repentes.
Fica difícil soletrar-te sílabas coloridas.
A cor do sol encobre-se com a da terra.
Perdemos luz, mas ganhamos em vidas.
O nosso encanto é só um jogo de espera.
W. A. MOZART
Faltavam cinco minutos para a uma e, como agora mas há 217 anos, estava uma noite fria. Nos últimos meses tinha terminado algumas das suas mais grandiosas obras, como o Concerto para Clarinete, e a Flauta Mágica estreará amanhã. Caíra de cama no final do mês passado, mas continuou a trabalhar no que está mesmo a terminar, o magnífico Requiem. Cantaram-lhe parte dele junto à cama e ele, Wolfgang Amadeus, consciente do seu estado e do fim que se aproximava, terá dito: «Não lhes disse que estava a compor o Requiem para mim mesmo?»
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Perseguição da beleza
Já tentei ser tantos para escapar de mim, para me desviar desta vida que me deram. e depois vem a beleza. Surpreendente ao virar de uma esquina. Um desejo marcado no ponto de encontro do aeroporto onde ficaremos para sempre abraçados. Envolta em nevoeiro a tomar duche à minha frente. A irromper do nada.
A primeira coisa que uma qualquer tirania sabe que tem a fazer é demolir a beleza. Com todo o dinheiro, de todas as maneiras.
A beleza semeia a desordem nas almas e nos corpos que anima.
Alimenta-se de uma liberdade particularmente virulenta.
É impertinente. Não conhece regras. Vive da vida e de mais nada.»
hhhhhhhhhhhhhhh
Pedro Paixão, O Mundo É Tudo o que Acontece
Foto: Pedro Paixão
Foto: Pedro Paixão
Descrição Da Mentira
A verdade está na língua ou no ventre dos espelhos?
A verdade é o que responde às perguntas dos príncipes?
Qual é então a resposta à pergunta dos oleiros?
jjjjjjjjjjjjjjjjjjjjj
Se levantares uma túnica encontrarás um corpo mas não uma pergunta:
para quê as palavras enxutas em cíngulos ou as construídas em esquinas imóveis,
as convertidas em lâminas e, em seguida, despojadas e ávidas?
llllllllllllllllllllllllll
Ou melhor: alguma vez fui cínico como asfalto ou pelame?
Não se trata disso, apenas que o asfalto possuía a minha memória e as minhas exclamações relatavam a perdição e a inimizade.
A nossa sorte é difícil reclusa na beladona e nos recipientes que não devem ser abertos.
Sujo, sujo é o mundo, porém respira. E tu entras no quarto como um animal resplandecente.
lllllllllllllllllllllllll
Depois do conhecimento e do esquecimento que paixão me concerne?
Não hei-de responder mas sim reunir-me com tudo o que está oferecido nos átrios e na distribuição dos resíduos,
com tudo o que treme e é amarelo debaixo da noite.
llllllllllllllllllllllll
Antonio Gamoneda, Descrição da Mentira
(Prémio Cervantes, 2006 - tradução Vasco Gato)
Foto da capa do livro (autoria Kenn Kiser)
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
"refundação do sistema" financeiro
O Vaticano defende uma verdadeira "refundação do sistema" financeiro que implique o fim dos "paraísos fiscais". Num documento do Conselho Pontifício Justiça e Paz, aprovado pela Secretaria de Estado do Vaticano, aponta-se a existência dos "centros financeiros offshore" - os chamados paraísos fiscais - como uma das causas principais da crise financeira internacional. Citado pela Zenit, agência oficiosa do Vaticano, o longo documento diz que esses mercados "mantiveram uma trama de práticas económicas e financeiras" como "fugas de capitais de proporções gigantescas", fluxos "motivados por objectivos de evasão fiscal", práticas de facturação fraudulenta e reciclagem de "actividades ilegais". O texto, publicado a propósito de uma reunião da conferência de Doha sobre o desenvolvimento, que termina hoje, é muito crítico. Diz que a utilização dos paraísos fiscais produziu um efeito negativo duplo, beneficiando os rendimentos mais elevados, que podem escapar à tributação e ao controlo fiscal nos próprios países, e penalizando os mais baixos rendimentos - trabalhadores e pequenas empresas. Ao mesmo tempo, transferiram a tributação do capital para o trabalho.No documento, ainda de acordo com a mesma fonte, recorda-se que os centros offshore movimentam "cerca de 860 mil milhões de dólares por ano" (mais de 660 mil milhões de euros). Isto equivale a uma fuga fiscal de quase 255 mil milhões de dólares, mais do triplo do montante da ajuda pública ao desenvolvimento por parte dos países da OCDE.
Jornal Público
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
domingo, 30 de novembro de 2008
entre as gargalhas e o choro
- Lançamos pernas e braços e as aranhas segregam suavíssimas teias opalescentes. pasmamos do terrível progredir das larvas: seu vulnerado gozo seu dramático instinto de bordar à superfície das folhas incríveis tortuosos itinerários. sabemos a voraz sede do húmus o crepitar das corolas nos vitrais da penumbra. impregnados de seiva debatemo-nos na cabeleira das paramécias ressuantes ao calor. deram-nos o desígnio dos líquenes ávidos o arrasante amor das trepadeiras contíguo ao espadaçar dos músculos. aos artelhos nos soldaram a pungência dos esporões a flora do sexo e das axilas em musgo tresmudada. e as gavinhas resultam das línguas enroscadas o sangue em linfa se precipita. uma orquídea desabrocha: pérfido lampejo entre as gargalhadas e o choro. enfim em nosso ventre a magnólia se espande de esperma cristalizada. contra as carótidas e a espadana nos atira suas lancvetas de incontida cólera.
hhhhhhhhhhhhh
Mário Cláudio, Novembro
as máscaras de sábado
Por Amor
“No dia a que se reportam os autos, estando a arguida na cozinha e o filho no quarto, preparou um chá, no qual deitou o conteúdo do frasco de Paratião, dizendo-lhe que bebesse porque lhe iria fazer bem”.
A ideia surgiu-lhe naquele instante. Preparou o chá e açucarou-o bem, como sabia que Pedro gostava. Depois, pegou no frasco do veneno e verteu-o na chávena. Misturou tudo e deu-lhe sabor com um cálice de Porto.
- Bebe, meu filho, bebe que te vai fazer bem! – disse-lhe, os olhos rasos de água.
“A arguida agiu com intenção de matar o filho”.
- Levante-se a ré – disse o juiz do meio. Maria do Rosário nem o ouviu.
Foi preciso o seu advogado chegar junto dela e abaná-la para que o espírito voltasse de novo à sala.
- Quer dizer mais alguma coisa em sua defesa? – tornou o juiz.
- Tanto se me dá ir para a cadeia como ficar cá fora. A vida para mim acabou. Faça de mim o que quiser, senhor doutor juiz. Gerei o meu filho por amor. E foi por amor que o matei.
gggggggggggg
J. Sousa Dinis, Por amor, A Fazer De Contos
(In)justiça
Levantou-se e sentiu-se, pela primeira vez, naqueles dois anos de espera, calmo e quase feliz. Ia falar. Iam ouvi-lo. Aquele homem ia ser julgado e condenado pelo acto cruel que cometera.A sua filha olhou-o e disse-lhe "Isto vai finalmente acabar, não é pai?".
A sua mulher disse-lhe "Finalmente vamos ter paz!".
jjjjjjjjjjjjjjjjjjjj
Confiante foi para o tribunal. O seu advogado, homem de poucas palavras, apenas lhe disse "Vamos ver se é desta que isto se resolve, mas, sabe como é, os tribunais têm tanto trabalho...".
Não o ouviu. Não quis ouvir. Hoje era o seu dia. aquele em que finalmente, após contar a sua história, e ver, pela última vez, a cara daquele homem, poderia descansar. Dormir. ter paz e tranquilidade. Aquela que lhe fora roubada por aquele homem ignóbil.
llllllllllllllll
No átrio do tribunal estava uma imensidão de gente. O burburinho que se ouvia era quase ensurdecedor.
lllllllllllllllll
Mal entrou, viu-o.
lllllllllllllllll
Paula Alexandra Cardoso, (In)justiça, A Fazer de Contos
Os disfarces de Arlequim
- Escusas de me estar sempre a lembrar isso! - notava-se que Scarlett não estava nada à vontade - Já vivi essa maldita cena mais do que mil vezes! A Maggie sempre podia ter-me dado um fim melhor!
- É isso, Scarlett. Nenhuma de nós é perfeita. Se temos uma ideia, se representamos uma ideia, outras nos hão-de faltar. Não somos criaturas completas, completamo-nos umas às outras. Por isso, concordei com Maria quando disse que estávamos todas de acordo. Eu luto pela condição feminina, a Florbela pela condição apaixonada, a Isadora pela condição corporal e a Scarlett pela condição patriótica.
- Sem terem uma pátria, não sentem o corpo, sem sentirem amor, não se sentirão femininas, sem serem femininas, não darão valor ao corpo, sem gostarmos de nós próprios, de que nos vale a paixão? Tudo se completa... - Era Florbela que rematara.
Maria estava confusa. Muita coisa ainda não percebera.
- Mas porquê eu?
Foi Isadora na sua precoce infantilidade que lhe respondeu.
- Porque tu, Maria Sklodowska, vais-nos suplantar a todas. Embora todas nós sejamos portadoras de ideias universais, todas nós somos, no fundo, umas egoístas, só pensamos em nós próprias ou naqueles que nos estão muito próximos. Eu cultivo o meu corpo, a Florbela inventa príncipes encantados para a sua desdita, a Simone combate pela causa feminina, excluindo portanto, os homens e a Scarlett luta pelo seu castelo de terra ali para o Sul do Novo Continente. Tu, não, Maria, tu vais construir uma obra verdadeiramente universal em proveito de um progresso tecnológico que, fatalmente, terá de acompanhar o fulgor das ideias e das emoções. Vai para o laboratório mas não te esqueças das lágrimas apaixonadas da pobre da Florbela, da garra e sentido patriótico da Scarlett, da força da militância da Simone que luta pelo que quer alcançar e da minha sensualidade improvisada, dos meus sentidos, dos meus saltos, do amor próprio, do orgulho em seres quem és. A Ciência sem isso, nada será, apenas fará perigar a nossa vida...
jjjjjjjjjjjjjjj
Paulo Guerra, Os disfarces de Arlequim, A Fazer De Contos
sábado, 29 de novembro de 2008
A justiça por um conto
Houve mesmo casos extremos, de homens chegados de novo, que pecando contra Deus e o mundo, se quiseram passar pelo dito, dizendo ser o bendito. Todos eles, sem perdão, foram na hora calados, com suas línguas cortadas e lançadas mesmo às feras.Passados anos e anos, até séculos digo eu, ficou apenas a lenda, da justiça do Justino, aquele que por ser tão divino, um dia aqui haverá de voltar, para aquela fazer reinar.
E assim esperam sentadas as gentes tamanho milagre!
É que as pessoas, afinal, quando vão a tribunal, por quererem ganhar todas, querem ter para o seu caso solução em tudo igual à do jumento rosado.
É esta a moral da história, nos ensinava na hora, o tio Manuel da Ribeira, perdoando assim tal ideia.
A justiça, digo eu, assim vista pelas gentes, é igual ao centro da aldeia, desnudado pelo tempo e fustigado pelo vento, deixando cair as ideias, como folhas de carvalho sem vontade de criar.
Assim o queiram os homens!
hhhhhhhhhh
Nelson Fernandes, A justiça por um conto, A Contos Com A Justiça
Um ciclo da água
Tudo continuaria daí a oito dias - "tanto tempo ainda a remoer os nervos!" queixou-se o senhor João, com medo do fim, mas com uma pontinha de fé ainda.
Na véspera do dia marcado para "voltarem ao rio", já ao fim da tarde, o Dr. Edmundo até estremeceu com o estardalhaço da porta a abrir num safanão.
Era o senhor João, radioso de alegreia, agitando vigorosamente um papel na mão - nem conseguia falar, todo um sorriso!
- Então? Que é isso de tão importante que o faz vir aqui, a esta hora e interromper-me dessa maneira? - disse o Dr. Edmundo, com ar sisudo, mas num tom de voz a deixar contagiar-se por tanta alegria.
Foi então que o senhor João lhe contou tusdo.
Havia uns tempos atrás, no dia da festa, foi lá à aldeia um padre pregador muito letrado "só falava latim, a gente não percebia nada do que ele pregava, mas a voz dele convencia!", afiançava o senhor João.
Almoçou lá em casa, e durante o almoço, posto ao corrente da aflição da família, considerou que "se a água era tão antiga, e o direito tinha sido dado pelo Rei, havia de haver algum documento que o dissesse".
Como não o tornou mais a ver, esquecera-se destas falas, até ao julgamento.
gggggggggggg
Fernando Fernandes Freitas, Un ciclo da água, A Contos Com A Justiça
Males de Dirceu
Correra o ano de 1809, um ano em que fora presenteado com a nomeação para o cargo de Juiz da Alfândega de Moçambique. Após a sua chegada, em 1792, fora secretário de José da Costa Dias Barros, ouvidor geral, que o recebeu em sua casa, a ele que, então, não passava de um naúfrago, um despojo arremessado contra as rochas, condenado ao degredo, ao esquecimento, amputado, afastado, para todo o sempre, de quem amava, obrigado a percorrer milhas e milhas, mar e céu, céu e mar, do Brasil até àquele recanto do Império. Fora, depois, nomeado procurador da Coroa e da Fazenda e vinha exercendo a advocacia, sendo o único habilitado para tal naquelas paragens. Entrava, agora, em 1810 como Juiz da Alfândega.
Cansaço, desolação, vontade de desistir. se ao menos pudesse singrar sobre as águas como os dugongos que por ali passavam, qual Tritões, impantes, plenos de vida, e partir, talvez em busca de Letes, para que o esquecimento o dominasse e lhe varesse da mente a recordação da insídia, a insolente calúnia depravada, a venenosa espada da traição.
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Tibério Nunes da Silva, Males de Dirceu, A Contos Com A Justiça
A Luísa, o Marco e um pequeno apartamento
Recorda-se ainda do choro da mãe e da raiva do pai.
Depois disso, voltou a vê-los apenas numa ocasião, duas semanas depois, quando já se encontrava naquela outra casa grande, cheia de senhoras e crianças.
De então para cá, o Marco já mudou novamente de casa, mas ainda não teve tempo para estudar química e os opiáceos.
Quando crescer, mesmo que não chegue a ser um bom aluno a química, vai acabar por perceber a razão da memória da imagem dos pais a queimarem pelo fundo a sua colher de papa, enchendo-a de uma água com que depois enchiam os seus braços.
llllllllllll
Paulo Correia, A Luísa, o Marco e um pequeno apartamento, A Contos Com A Justiça
O Senhor Fortunato
Geração de mal educados, respondões, que não conheciam as regras mínimas de convívio comunitário, nos autocarros ou nos cafés, em qualquer lado, repetiam-se os comportamentos lamentáveis de jovens que não se levantavam nos transportes públicos, insultavam quem os repreendia, assaltavam velhinhas na rua, diziam impropérios a plenos pulmões, sempre numa atitude propositada de confronto e com permanente ar de desafio.
Era pois injustificável o comportamento deste arguido. a forma como, quase insolentemente, respondia ao Tribunal e Fortunato desejava que este agisse em conformidade, punindo-o na excata medida da sua culpa.
Ouvira esta expressão uma vez numa audiência e fixara-a porque lhe parecera que essa devia ser toda a essência de um julgamento criminal.
ççççççççç
Renato Barroso, O senhor Fortunato, A Contos Com A Justiça
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