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sábado, 29 de novembro de 2008

A justiça por um conto

Houve mesmo casos extremos, de homens chegados de novo, que pecando contra Deus e o mundo, se quiseram passar pelo dito, dizendo ser o bendito. Todos eles, sem perdão, foram na hora calados, com suas línguas cortadas e lançadas mesmo às feras.
Passados anos e anos, até séculos digo eu, ficou apenas a lenda, da justiça do Justino, aquele que por ser tão divino, um dia aqui haverá de voltar, para aquela fazer reinar.
E assim esperam sentadas as gentes tamanho milagre!
É que as pessoas, afinal, quando vão a tribunal, por quererem ganhar todas, querem ter para o seu caso solução em tudo igual à do jumento rosado.
É esta a moral da história, nos ensinava na hora, o tio Manuel da Ribeira, perdoando assim tal ideia.
A justiça, digo eu, assim vista pelas gentes, é igual ao centro da aldeia, desnudado pelo tempo e fustigado pelo vento, deixando cair as ideias, como folhas de carvalho sem vontade de criar.
Assim o queiram os homens!
hhhhhhhhhh
Nelson Fernandes, A justiça por um conto, A Contos Com A Justiça

Um ciclo da água

Foi então que o juiz achou que devia voltar ao local, porque 2havia uns pormenores de que precisava de se inteirar, agora que ouvira as testemunhas".
Tudo continuaria daí a oito dias - "tanto tempo ainda a remoer os nervos!" queixou-se o senhor João, com medo do fim, mas com uma pontinha de fé ainda.
Na véspera do dia marcado para "voltarem ao rio", já ao fim da tarde, o Dr. Edmundo até estremeceu com o estardalhaço da porta a abrir num safanão.
Era o senhor João, radioso de alegreia, agitando vigorosamente um papel na mão - nem conseguia falar, todo um sorriso!
- Então? Que é isso de tão importante que o faz vir aqui, a esta hora e interromper-me dessa maneira? - disse o Dr. Edmundo, com ar sisudo, mas num tom de voz a deixar contagiar-se por tanta alegria.
Foi então que o senhor João lhe contou tusdo.
Havia uns tempos atrás, no dia da festa, foi lá à aldeia um padre pregador muito letrado "só falava latim, a gente não percebia nada do que ele pregava, mas a voz dele convencia!", afiançava o senhor João.
Almoçou lá em casa, e durante o almoço, posto ao corrente da aflição da família, considerou que "se a água era tão antiga, e o direito tinha sido dado pelo Rei, havia de haver algum documento que o dissesse".
Como não o tornou mais a ver, esquecera-se destas falas, até ao julgamento.
gggggggggggg
Fernando Fernandes Freitas, Un ciclo da água, A Contos Com A Justiça

Males de Dirceu

A lua ia-se erguendo para os lados da Fortaleza de São Sebastião e a Ilha de Moçambique libertava-se, a pouco e pouco, do negrume que a envolvia. sá a sua tristeza, que se confundia com a pestilência que, não raro, devassava a ilha, teimava em não se deixar alumiar por uma réstia de luz.
Correra o ano de 1809, um ano em que fora presenteado com a nomeação para o cargo de Juiz da Alfândega de Moçambique. Após a sua chegada, em 1792, fora secretário de José da Costa Dias Barros, ouvidor geral, que o recebeu em sua casa, a ele que, então, não passava de um naúfrago, um despojo arremessado contra as rochas, condenado ao degredo, ao esquecimento, amputado, afastado, para todo o sempre, de quem amava, obrigado a percorrer milhas e milhas, mar e céu, céu e mar, do Brasil até àquele recanto do Império. Fora, depois, nomeado procurador da Coroa e da Fazenda e vinha exercendo a advocacia, sendo o único habilitado para tal naquelas paragens. Entrava, agora, em 1810 como Juiz da Alfândega.
Cansaço, desolação, vontade de desistir. se ao menos pudesse singrar sobre as águas como os dugongos que por ali passavam, qual Tritões, impantes, plenos de vida, e partir, talvez em busca de Letes, para que o esquecimento o dominasse e lhe varesse da mente a recordação da insídia, a insolente calúnia depravada, a venenosa espada da traição.
lllllllllllllllllll
Tibério Nunes da Silva, Males de Dirceu, A Contos Com A Justiça

A Luísa, o Marco e um pequeno apartamento

No Inverno passado, quando o vento e a chuva teimavam em entrar pelo respiradouro do tejadilho da Ford, munidas de papel em triplicado, duas senhoras da Segurança Social, acompanhadas de outros tantos polícias, vieram buscá-lo e levaram-no com elas.
Recorda-se ainda do choro da mãe e da raiva do pai.
Depois disso, voltou a vê-los apenas numa ocasião, duas semanas depois, quando já se encontrava naquela outra casa grande, cheia de senhoras e crianças.
De então para cá, o Marco já mudou novamente de casa, mas ainda não teve tempo para estudar química e os opiáceos.
Quando crescer, mesmo que não chegue a ser um bom aluno a química, vai acabar por perceber a razão da memória da imagem dos pais a queimarem pelo fundo a sua colher de papa, enchendo-a de uma água com que depois enchiam os seus braços.
llllllllllll
Paulo Correia, A Luísa, o Marco e um pequeno apartamento, A Contos Com A Justiça

O Senhor Fortunato

O último julgamento, há muito tinha caído a noite e na assistência apenas estava Fortunato, era de tráfico de droga e nele era protagonista um rapaz novo, ainda espigadote e na sua opinião, com a garimpa demasiado levantada.
Geração de mal educados, respondões, que não conheciam as regras mínimas de convívio comunitário, nos autocarros ou nos cafés, em qualquer lado, repetiam-se os comportamentos lamentáveis de jovens que não se levantavam nos transportes públicos, insultavam quem os repreendia, assaltavam velhinhas na rua, diziam impropérios a plenos pulmões, sempre numa atitude propositada de confronto e com permanente ar de desafio.
Era pois injustificável o comportamento deste arguido. a forma como, quase insolentemente, respondia ao Tribunal e Fortunato desejava que este agisse em conformidade, punindo-o na excata medida da sua culpa.
Ouvira esta expressão uma vez numa audiência e fixara-a porque lhe parecera que essa devia ser toda a essência de um julgamento criminal.
ççççççççç
Renato Barroso, O senhor Fortunato, A Contos Com A Justiça

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Com estados de alma

Há também, nestes contos, auto-ironia e humor: "De qualquer forma, não sou como alguns juristas, pois o que mais me desagrada após aqueles infindáveis e frequentes julgamentos, é a companhia dos que se apressam a permanecer nos corredores. (...) E depois de decidir um conflito, julgar uma prostituta, um deputado, um ministro, um chulo, um administrador de empresa ou director de hospital, nada mais tem sentido nesta direcção, desde logo porque se é trabalho, fatiga, e se é conversa, é inútil."
Gosto desta lista e da sua sequência sarcástica. Acho saudável a atitude discreta e profissional do juiz-narrador. Mas do que eu gostava mesmo era desse dia em que deputados e ministros e grandes empresários chegassem a tribunal. Lugar comum: a certeza de que um dos principais problemas de Portugal, talvez o pior, é a demora e, por arrastamento (literal), a ineficácia da justiça. Mas um lugar-comum é também o sítio em que todos nos revemos.
É possível julgar sem estados de alma? Talvez. Escrever é que não.
gggggggggggggggg
Rui Cardoso Martins, do Prefácio, A Contos Com A Justiça

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A Senhora Sem Nome e a Outra Senhora

- Teorias, doutor Almeida! Teorias: essa coisa de crimes continuados e de concursos... teorias. A realidade era outra: eu estava ali pela primeira vez, com uma ré sem nome, a ser julgada por não ter querido dizer... o nome! Ia-me pôr com teorias, doutor Almeida?... Não – respondeu quem perguntava -, isso só ia complicar: então eram crimes por aí fora, parecia champanhe em cascata! Sabe... olhei para o meu mestre e ele havia perdido o entusiasmo, só me sussurrou que nunca lhe tinha acontecido; olhei para o defensor e não ouvi som... e só disse: estou feito. Então, entre desânimo e silêncios, o senhor delegado permitiu-se tomar a palavra e chegou-se mais junto da cidadã, a meia distância comigo. Olhou-a com uma bonomia terna e disse-lhe, a senhora deve ter um documento em sua casa, todos nós nos esquecemos onde pomos as coisas; talvez se procurasse um bocadinho... nós esperávamos... porque sabemos que não quer tratar mal ninguém.
Os olhos do juiz mais novo esbugalhavam uma surpresa que emparelhava com a admiração de uma prematura ruga, a franzir-lhe na testa: o atrevimento do delegado! O juiz-presidente arrastou ninguém até ao silêncio. Mas logo alteou o tom, de peito cheio:
- Foi magia, doutor Almeida: a senhora, era assim que se chamava e tinham-se esquecido, disse que às vezes deixava a identidade na mesinha de cabeceira, não fosse perdê-la no ruedo, e a autoridade não lhe permitira ir à sua cata. Claro que eu interrompi o julgamento, doutor Almeida... deixei as teorias lá onde devem ficar e, passado nem cinco minutos, a senhora tinha nome, tinha os demais adereços e até tinha cartão de identidade... e tudo se resolveu. Sei lá se contra a lei!
- Sei lá! – mal se ouviu ao mais novo.
- Sei lá... – nem se ouviu ao doutor Fernandes.
- Como vê, doutor Almeida, a surpresa atacou-me na ocasião mais frágil, mas a solução -... e aí é que quero chegar – reforçou-me o entendimento: cada dia é um caso, cada caso é um olhar; depois, há sempre gente... atrás das teorias.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
José Eusébio Almeida, A senhora sem nome e..., A Contos Com A Justiça

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Trilogia Breve

A queda breve do corpo, essa, fora amenizada pelo macio cobertor de relva que o recebera. Foi contrariado que se apercebeu como, segundos passados, dois ou três, nada prolongava aquele momento de vertigem; apenas teimava, sorrateiro, o sobressalto incomodado daquele estranho vulto, deitado no jardim fronteiro à casa onde, há vários anos, ocupava sonolentos fins-de-semana.
O som da noite retornara: o ruído continuado das cigarras, a insistência hipnótica de um grilo e o vago deslizar da brisa do verão que se anuncia.
Dentro de si, perante o vazio dos sinais exteriores, crescia rápida a evidência que o que ocorrera não acontecera afinal.
A realidade desmentia-se e já não apetecia ignorar os minutos de tranquila apatia que, devagar, se somavam.
A custo, acabou por sacudir o torpor, desfazendo-se da arma e decidindo enfim levar o corpo inerte para longe dali, largando-o mais adiante num pequeno ribeiro, ainda veloz.
Olhou como a corrente das águas arrastava o rapaz para longe.
Regressou, pressuroso, a casa. Apercebeu-se ao entrar na sala que o filme que acompanhava na televisão recomeçara havia pouco, após um longo intervalo publicitário.
ggggggggggggg
José Igreja Matos, Trilogia breve, A Contos Com A Justiça

Testemunho

Já nem valia a pena gritar.
O silêncio de cada um era, ali, um grito permanente de socorro.
O silêncio dos dois começou a unir-se num só grito, que já não conseguiam controlar, que tinha cada vez mais força e os empurrava para longe das memórias felizes, tornando-as vagas, confusas, irreais.
No entanto, à volta deles estava tudo igual.
Só eles tinham mudado.
Acusavam-se mutuamente, sem repararem que não eram mais os mesmos.
Dentro de cada um tinham crescido as dúvidas sobre tudo o que não foram as suas vidas.
Essa dúvida cresceu até fazer parecer insignificantes os pedaços de felicidade dos últimos anos.
Mais e mais insignificantes, até se tornarem invisíveis.
essa dúvida, que pode chegar mais cedo ou mais tarde, que pode surgir repentinamente e desaparecer, sem estragos, ou pode instalar-se definitivamente e imepedir a vida, acompanhada da vantagem própria daquilo que pode ser preenchido com o sonho.
E o sonho ganha sempre à realidade.
iiiiiiiiiiiiiiii
Elisabete Valente, Testemunho, A Contos Com A Justiça

Um Tiro na Nuca, Porque Sim

O meu fortim foi sempre o gabinete onde descarno processos até à medula para encontrar a solução justa ou a que - quem faz as leis chama de justa - aquela que os honestos esperam e os vigaristas detestam. E embora o meu desvendar ou desnudar não importe a mais ninguém que a mim, e não faça, assim, parte das coisas importantes que aos outros interessaria saber, tenho de revelar (mais como fim último de catarse, nunca de exibicionismo, e muito menos, para alimentar a curiosidade de quem lê ou escuta) que um facto porventura vulgar, alterou o meu ritmo, os meus horários, influenciou as minhas inibições, agigantou os meus segredos, aumentou os meus medos, acelerou o meu ritmo cardíaco, e não sei se algum prazer ou gozo me deu ou dá (o que me faz duvidar desde já da sua importância, porque utilidade não tem).
Esse facto é tão simples e vulgar que se traduz no que os filmes, a escrita, as imagens, e a imaginação dos homens já esgotou: traduz-se numa mulher nua na janela, que às cinco e meia da tarde, (já noite quando inverno), invariavelmente a essa hora, abre as portadas da casa onde mora, embora distante, mas em frente ao meu gabinete, e muda de roupa sempre nos mesmos gestos, no memo ritmo.

António Sampaio Gomes, Um tiro na nuca, porque sim, A Contos Com A Justiça

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Os Pássaros e as Penas

De repente, a persistência na evocação dos melros deixava de ser um engano da zoologia e mais sentido fez ainda quando o barulhar das asas saiu do painel, levantou as folhas do processo aberto sobre a mesa, apagou de vez as três lâmpadas tremelicantes do tecto e ele, por dentro daquela suspensão do tempo, fixando a sua atenção onde ela era agora reclamada, consentiu que de onde antes houvera a cerimoniosa veste de um ritual propiciatório, se desprendesse agora um enorme melro que abrindo as asas voou na direcção da janela, passou por ela sem a partir, para o lado de lá, onde o adocicado do ar fazia luzir um bater de penas azeviches.
Sentou-se de novo, olhando uma e outra vez, o esboço daquela sombra solta sobre a manhã e, sabedor de que liberto é o homem que consegue chegar ao dia seguinte com os olhos lavados do anterior, respondeu à incredulidade do procurador a quem a realidade surpreendera na explicação das suas contas, que não se apoquentasse, que ele ficava ali, ali mesmo, esperando que o sr. juiz regressasse do seu voo, para que como de todas as outras vezes, o zumbido das orelhas passasse, o formigueiro dos pés desaparecesse e a tremura da gargante se descomovesse.
ggggggggggggggggggg
Manuel Capelo, Os pássaros e as penas, A Contos Com A Justiça

O Ladrão das Penas

A falésia entrava-lhe pelos olhos dentro, sem piedade.
A maré daquela água mais do que azul tocava-lhe, como réstia de seda, no coração, amaciado pela ventania anónima que, naquele fim de dia, se fez indiscretamente convidada.
Sempre venerara as tempestades, sempre olhava as fúrias da Mãe Natureza com extrema indulgência e com uma vontade indómita de as seguir e com elas desfazer-se em ar e ruído, voando para outros continentes de olhos bem vendados e com apenas o poder de estremecer as folhas mais altaneiras das árvores.
Oito horas de uma noite desusadamente estival, em Cascais.
Era um pedaço de dia cheiroso, pleno de buganvílias, recheado de passageiros sem rosto e sem passado, espalhados pelas esplanadas da prais, pelos bares de estrangeirados, pelas complacentes praças...
Como preces, Tomás ouvia, junto à Boca do Inferno, os sussurros das gaivotas e entendia-os, decifrava-os.
rrrrrrrrrrrrrrrrrr
Paulo Guerra, O ladrão das penas, A Contos Com A Justiça