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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Quando a pele
se torna evasiva

e está e não está
ali, escancara-se

uma janela nos poros
da alma: assoma e

grita à tua vontade!

Rui Caeiro, O quarto azul e outros poemas

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

País da Tarde



País da tarde,
a que se deve esta demora?
Que luz é esta
que não vem de dentro nem de fora?
Que presença é esta
que está até chagarmos
depois vai embora?

Os meninos fechados
num ponto final
ou os olhos dos meninos
há muitos anos mortos
e ainda com brilho.

De tanto esperarem
são aquilo onde ficaram.
País da tarde,
em que direcção estamos parados?

Recitam distâncias
dantes eruditas
as luzes de néon enlaçados no corpo
e as avenidas alongam-se
até desaparecerem nas dunas.
País da tarde
a quantos metros estamos do deserto?

(...)

País da tarde,
quantos mais anos são precisos
para passar o que passou?

Há alusões e vestígios
que os comparam ao que são.
As ideias favoráveis
são lacónicas
e ensinam umas às outras
uma exactidão nova
portátil e breve.
A face sísmica do século
reduziu a memória
a um texto curto:
agora é só fazer como se escreve.

Boaventura de Sousa
Viagem ao Centro da Pele
Edições Afrontamento, 1995

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Absurdo

E a bordo diz-se: este comboio
é um absurdo.

Absurdo é estarmos sentados nele,
olharmos pela janela
e não vermos senão as costas da noite.

Absurdo
é haver absurdo.

- e nós, com água pela boca,
esbracejarmos nele.

A. M. Pires Cabral, Que Comboio É Este

Pulsação

O comboio oscila nos desníveis
entre trilhos
impassível como um pêndulo
que se limita a cumprir
as leis da física.

E eu oscilo com ele.

Tentei uma vez a insurreição:
inclinar-me para o lado esquerdo
no momento em que o comboio se inclinava
para o lado direito,
e vice-versa.

Mas não consegui.
Está muito fundo em mim o jeito de oscilar
ao sabor do inimigo.

Como se fosse o seu par
numa dança brejeira.
Ou como se ele fosse
a minha pulsação.
Ou como estando eu já
no interior da morte.

E tão solidário me tornei
que mesmo que algum dia me apeasse
oscilaria sempre vida fora
com aquela cadência do comboio
inscrita nos passos.

(No sangue, em todo o caso,
talvez não.)

A.M. Pires Cabral, Que Comboio É Este
Poesia Portuguesa Contemporânea, teatro de vila real, 2005

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Não nos deixeis cair na curiosidade dos outros,
Na piedade dos outros ou, pior, de nós mesmos.
Livrai-nos de sermos eternamente jovens,
Mas também nados-velhos, mortos-vivos.
Livrai-nos sobretudo de nos jactarmos.
Não nos deixeis cair nas ciladas
Daqueles que só se desculpam ou nunca se desculpam.
Não nos deixeis cair na tentação de corrigir a vida
Quando tantas coisas nos morrem
E morrem às nossas mãos ou pela nossa memória.
Livrai-nos de falarmos em nome dos outros,
Dai-nos cada dia a lembrança de também sermos outros
E não nos perdoeis nunca se o esquecermos.

(primeiro poema de Últimos Poemas - edições quasi, Maio de 2009 - livro com prefácio de Joana Matos Frias e ilustrações de Rasa Sakalaite, onde se reúne a poesia de Nuno Rocha Morais, poeta nascido no último dia de 1973 e falecido em 8 de Junho do ano passado, ainda na idade em que morrem aqueles que os deuses amam)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O mais breve poema dedicada a uma mãe

Recebi da morte uma nota de crédito
Endosseia-a a quem devia a vida

Ademar Ferreira dos Santos, Inconfidências e Confissões,
Descansando do Futuro (Reserva de Intimidade), Edições ASA, 2003

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Que não se perca...

Que não se perca o quanto que me perco
nem o silêncio rompa mais que o visto
fosse desejo vê-lo, da carência
de que revisto ainda se dispersa
mais: que nos olhos desse olhar sobeja,
subindo os braços, senda, sibilante,
confuso agrado. Desapertam laços,
se contendo na voz, no gesto nunca.

António de Almeida Mattos, Conjuntivo Presente,
Edições Afrontamento, 1991

Epígrafe

Agora que colocaste
em torno do meu pescoço
a tesoura dos teus dedos

e, ó profundo caroço,
minha carne te rodeia,
te nutre meu sangue insosso;

agora que, teu cavalo,
à custa do meu destroço,
te transporto a meu pesar -

me passeias pelo fosso,
ambos numa ira só,
como a água no seu poço.

A. M. Pires Cabral, como se Bosch tivesse enlouquecido,
João Azevedo Editor, Mirandela, 2003

47

Passo o teu nome da minha boca para este lugar de papel.
E assim tu vens, menina do rio,
louca e desastrada, nessa tua canoa de silêncios,
a entrar no poema.
Mãos em existência felina

e respirando sem pausas. Voltas a cabeça para o lado
da luz e abre-se devagar o talento incendidado
do teu rosto.
(...)
A minha alegria é um aroma de tangerinas nos dedos,
comer aos gomos a paisagem
e limpar depois
a boca
à manga do espanto.
Tu puxas-me
e somos duas crianças
nnnnnnnnn num trilho de mata,
nnnnnnnnnnnnn num banco de pedra,
nnnnnnnnnnnnnnnn num portão verde dividindo
o aqui e o ali.
Porque nós estamos aqui.
Aqui onde te entrego os meus bolsos,
e - repara - as tuas mãos cabem.

Nós estamos aqui.
(...)

Vasco Gato, 47, edição do autor, 2005

sábado, 22 de novembro de 2008

Máquina

Três sílabas - arestas -
desenham a palavra
sua parente desumanidade

Como metáfora porém a utilizas
nomeando a teia desse mundo
que os deuses amam e odeiam

João Pedro Mésseder, Ordem alfabética
existe um arritmia ténue
no coração de quem recusou
o amor de outrém, um coração
ténue que se sobrepõe ao que
já se tem

valter hugo mãe, três minutos antes de a maré encher

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

a raiz do teu gesto


a raiz do teu gesto
encontrei-a naquela barca à vela
mas foi a nau catrineta
que me disse onde não estavas
por isso fui
sempre
levado pela maresia
quando sabia
que tu eras menos do que gesto

francisco d'eulália, A raiz do teu gesto, poemas

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Nocturnas Portas

Portas, imensas e nocturnas portas, quando o que desejamos é um rasgão luminoso.

Mário Rui de Oliveira, O vento da noite

sábado, 8 de novembro de 2008

Coliseu dos Recreios, 2004

Desconhecerei - para sempre? -
essa arte de tornar presente
a mais pura e inesperada ausência.
Não sei explicar melhor.

Horas depois, na penumbra
de um bar fechado, alguém
me obrigou a escrever o seguinte:
"os nossos filósofos e historiadores
(raiz quadrada) são os
nossos compositores e intérpretes".

talvez seja isso - a pior manhã
que nos encontrou vivos,
a morte que não se diz

quando apenas o cavaquinho sabe
que nenhuma voz regressa.

Manuel de Freitas, Cretcheu Futebol Clube

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

No Poema

O poeta que pensa no poema?
Que sobre o mundo muda o arco do futuro
como um vasto universo inverso ao tempo

Gastão Cruz, Crateras

segredo

segreda-me a canção dos dias
sem que nos ouça a noite terrível
e deixa que dance em mim a voz,
a voz azul que é o lugar onde
o mundo não para de nascer.

segreda-me o teu nome, agora,
e farei de nós o amor, a constelação,
o sonho de uma estação sem morte.

Vasco Gato, Um mover de mão

terça-feira, 4 de novembro de 2008