terça-feira, 18 de novembro de 2008

Trilogia Breve

A queda breve do corpo, essa, fora amenizada pelo macio cobertor de relva que o recebera. Foi contrariado que se apercebeu como, segundos passados, dois ou três, nada prolongava aquele momento de vertigem; apenas teimava, sorrateiro, o sobressalto incomodado daquele estranho vulto, deitado no jardim fronteiro à casa onde, há vários anos, ocupava sonolentos fins-de-semana.
O som da noite retornara: o ruído continuado das cigarras, a insistência hipnótica de um grilo e o vago deslizar da brisa do verão que se anuncia.
Dentro de si, perante o vazio dos sinais exteriores, crescia rápida a evidência que o que ocorrera não acontecera afinal.
A realidade desmentia-se e já não apetecia ignorar os minutos de tranquila apatia que, devagar, se somavam.
A custo, acabou por sacudir o torpor, desfazendo-se da arma e decidindo enfim levar o corpo inerte para longe dali, largando-o mais adiante num pequeno ribeiro, ainda veloz.
Olhou como a corrente das águas arrastava o rapaz para longe.
Regressou, pressuroso, a casa. Apercebeu-se ao entrar na sala que o filme que acompanhava na televisão recomeçara havia pouco, após um longo intervalo publicitário.
ggggggggggggg
José Igreja Matos, Trilogia breve, A Contos Com A Justiça

Testemunho

Já nem valia a pena gritar.
O silêncio de cada um era, ali, um grito permanente de socorro.
O silêncio dos dois começou a unir-se num só grito, que já não conseguiam controlar, que tinha cada vez mais força e os empurrava para longe das memórias felizes, tornando-as vagas, confusas, irreais.
No entanto, à volta deles estava tudo igual.
Só eles tinham mudado.
Acusavam-se mutuamente, sem repararem que não eram mais os mesmos.
Dentro de cada um tinham crescido as dúvidas sobre tudo o que não foram as suas vidas.
Essa dúvida cresceu até fazer parecer insignificantes os pedaços de felicidade dos últimos anos.
Mais e mais insignificantes, até se tornarem invisíveis.
essa dúvida, que pode chegar mais cedo ou mais tarde, que pode surgir repentinamente e desaparecer, sem estragos, ou pode instalar-se definitivamente e imepedir a vida, acompanhada da vantagem própria daquilo que pode ser preenchido com o sonho.
E o sonho ganha sempre à realidade.
iiiiiiiiiiiiiiii
Elisabete Valente, Testemunho, A Contos Com A Justiça

Mishima



03-11-2008 a 30-11-2008
CICLO MISHIMA UM ESBOÇO DO NADA

“A 25 de Novembro de 1970, o mundo era surpreendido com a notícia e as imagens do suicídio ritual do escritor Yukio Mishima (nascido em 1925 como o nome de Hiraoka Kimitake). Mishima, um dos mais notáveis escritores japoneses do pós-guerra, desenvolvera durante um quarto de século uma prolífica actividade como romancista, dramaturgo, actor e realizador de cinema, e assumira-se como uma das vozes mais críticas da modernização acelerada do Japão, que se tornara particularmente notória durante os anos sessenta. O seu suicídio foi uma forma de protestar contra aquilo que ele considerava a descaracterização da milenar civilização nipónica. Com o Ciclo Mishima, Um Esboço do Nada, o CCB evoca a figura e a obra de Yukio Mishima nas suas diversas vertentes: como dramaturgo, como romancista e como actor/personagem de cinema. Uma exposição construída pelo desenhador Tiago Manuel visita três obras fundamentais do autor de Confissões de Uma Máscara e Ko Murobushi, expoente da dança butô, apresenta-se no Pequeno Auditório.”
http://www.ccb.pt/sites/ccb/pt-PT/Programacao/Ciclos/Pages/CICLO%20MISHIMA.aspx

Um Tiro na Nuca, Porque Sim

O meu fortim foi sempre o gabinete onde descarno processos até à medula para encontrar a solução justa ou a que - quem faz as leis chama de justa - aquela que os honestos esperam e os vigaristas detestam. E embora o meu desvendar ou desnudar não importe a mais ninguém que a mim, e não faça, assim, parte das coisas importantes que aos outros interessaria saber, tenho de revelar (mais como fim último de catarse, nunca de exibicionismo, e muito menos, para alimentar a curiosidade de quem lê ou escuta) que um facto porventura vulgar, alterou o meu ritmo, os meus horários, influenciou as minhas inibições, agigantou os meus segredos, aumentou os meus medos, acelerou o meu ritmo cardíaco, e não sei se algum prazer ou gozo me deu ou dá (o que me faz duvidar desde já da sua importância, porque utilidade não tem).
Esse facto é tão simples e vulgar que se traduz no que os filmes, a escrita, as imagens, e a imaginação dos homens já esgotou: traduz-se numa mulher nua na janela, que às cinco e meia da tarde, (já noite quando inverno), invariavelmente a essa hora, abre as portadas da casa onde mora, embora distante, mas em frente ao meu gabinete, e muda de roupa sempre nos mesmos gestos, no memo ritmo.

António Sampaio Gomes, Um tiro na nuca, porque sim, A Contos Com A Justiça

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Os Pássaros e as Penas

De repente, a persistência na evocação dos melros deixava de ser um engano da zoologia e mais sentido fez ainda quando o barulhar das asas saiu do painel, levantou as folhas do processo aberto sobre a mesa, apagou de vez as três lâmpadas tremelicantes do tecto e ele, por dentro daquela suspensão do tempo, fixando a sua atenção onde ela era agora reclamada, consentiu que de onde antes houvera a cerimoniosa veste de um ritual propiciatório, se desprendesse agora um enorme melro que abrindo as asas voou na direcção da janela, passou por ela sem a partir, para o lado de lá, onde o adocicado do ar fazia luzir um bater de penas azeviches.
Sentou-se de novo, olhando uma e outra vez, o esboço daquela sombra solta sobre a manhã e, sabedor de que liberto é o homem que consegue chegar ao dia seguinte com os olhos lavados do anterior, respondeu à incredulidade do procurador a quem a realidade surpreendera na explicação das suas contas, que não se apoquentasse, que ele ficava ali, ali mesmo, esperando que o sr. juiz regressasse do seu voo, para que como de todas as outras vezes, o zumbido das orelhas passasse, o formigueiro dos pés desaparecesse e a tremura da gargante se descomovesse.
ggggggggggggggggggg
Manuel Capelo, Os pássaros e as penas, A Contos Com A Justiça

Beleza Americana



Para alguns, mais bela agora?...

O Ladrão das Penas

A falésia entrava-lhe pelos olhos dentro, sem piedade.
A maré daquela água mais do que azul tocava-lhe, como réstia de seda, no coração, amaciado pela ventania anónima que, naquele fim de dia, se fez indiscretamente convidada.
Sempre venerara as tempestades, sempre olhava as fúrias da Mãe Natureza com extrema indulgência e com uma vontade indómita de as seguir e com elas desfazer-se em ar e ruído, voando para outros continentes de olhos bem vendados e com apenas o poder de estremecer as folhas mais altaneiras das árvores.
Oito horas de uma noite desusadamente estival, em Cascais.
Era um pedaço de dia cheiroso, pleno de buganvílias, recheado de passageiros sem rosto e sem passado, espalhados pelas esplanadas da prais, pelos bares de estrangeirados, pelas complacentes praças...
Como preces, Tomás ouvia, junto à Boca do Inferno, os sussurros das gaivotas e entendia-os, decifrava-os.
rrrrrrrrrrrrrrrrrr
Paulo Guerra, O ladrão das penas, A Contos Com A Justiça

E os outros não?

OS FUMADORES MORREM PREMATURAMENTE

(anúncio visível em maços de cigarros, mesmo hoje, dia dos não fumadores)

Um Inverno em Lisboa

"Tenía una sumaria dignidad vertical. Más tarde me di cuenta de que yo siempre había notado en él esa cualidad inimitable de quienes viven, aunque no lo sepan, con arreglo a un destino que probablemente les fue fijado en la adolescencia. Después de los treinta años, cuando todo el mundo claudica hacia una decadencia más innoble que la vejez, ellos se afianzan en una extraña juventud a la vez enconada y serena, en una especie de tranquilo y receloso coraje. "

Antonio Muñoz Molina
Un invierno en Lisboa (fragmento)
www.epdlp.com

Estudo em Vermelho

Chapter 2
The Science of Deduction
We met next day as he had arranged, and inspected the rooms at No. 221B, Baker Street, of which he had spoken at our meeting. They consisted of a couple of comfortable bedrooms and a single large airy sitting-room, cheerfully furnished, and illuminated by two broad windows. So desirable in every way were the apartments, and so moderate did the terms seem when divided between us, that the bargain was concluded upon the spot, and we at once entered into possession. That very evening I moved my things round from the hotel, and on the following morning Sherlock Holmes followed me with several boxes and portmanteaus. For a day or two we were busily employed in unpacking and laying out our property to the best advantage. That done, we gradually began to settle down and to accommodate ourselves to our new surroundings.
Holmes was certainly not a difficult man to live with. He was quiet in his ways, and his habits were regular. It was rare for him to be up after ten at night, and he had invariably breakfasted and gone out before I rose in the morning. Sometimes he spent his day at the chemical laboratory, sometimes in the dissecting-rooms, and occasionally in long walks, which appeared to take him into the lowest portions of the city. Nothing could exceed his energy when the working fit was upon him; but now and again a reaction would seize him, and for days on end he would lie upon the sofa in the sitting-room, hardly uttering a word or moving a muscle from morning to night. On these occasions I have noticed such a dreamy, vacant expression in his eyes, that I might have suspected him of being addicted to the use of some narcotic, had not the temperance and cleanliness of his whole life forbidden such a notion.
As the weeks went by, my interest in him and my curiosity as to his aims in life gradually deepened and increased. His very person and appearance were such as to strike the attention of the most casual observer. In height he was rather over six feet, and so excessively lean that he seemed to be considerably taller. His eyes were sharp and piercing, save during those intervals of torpor to which I have alluded; and his thin, hawk-like nose gave his whole expression an air of alertness and decision. His chin, too, had the prominence and squareness which mark the man of determination. His hands were invariably blotted with ink and stained with chemicals, yet he was possessed of extraordinary delicacy of touch, as I frequently had occasion to observe when I watched him manipulating his fragile philosophical instruments.
Arthur Conan Doyle
A Study in Scarlet

sábado, 15 de novembro de 2008

Sob Escuta

- Estou esmagado, absolutamente esmagado... (risos)
- Mas ouve lá, agora falando a sério, quem vê de fora e eu, como sabes, numa fase da minha vida já estive próximo dos juízes, conheci muitos e sei como a maioria deles pensa, eh pá... quem vê de fora... ouve o vosso discurso sobre a justiça e depois confere-o com as vossa medidas... e é quase inevitável não pensar que vocês, deliberadamente, quiseram confrontá-los!
- Mas porque dizes isso?
- Então olha lá, quem estiver atento e fizer a retrospectiva dos factos... então faz algum sentido que a primeira medida anunciada para a área da justiça tenha sido a alteração das férias judiciais?
- Bom...
- Sabes bem que tenho razão, ambos somos licenciados em direito e já trabalhámos na área da justiça e dos tribunais...
- Tempo já passado felizmente e ao qual, se Deus quiser, não voltarei!
ggggggggggggg
Renato Barroso, Sob escuta, A Fazer De Contos

O Passo do Anjo

A Maria Eugénia, por seu lado, também não se sentia nada tranquila, vivia com um aperto no peito como se estivessem a querer arrancar-lhe o coração, a filha estava cada vez mais distante, quase pareciam duas estranhas.
E por isso a Maria Eugénia tomou a decisão de ir falar com o padre, nos seus momentos de aflição virou-se sempre para a Igreja e este não seria excepção.
O padre era um indivíduo curioso, que tinha conseguido naquela pequena paróquia perdida no meio das frágas mobilizar os jovens com uma postura muito alegre e comunicativa, e após alguma desconfiança inicial venceu todas as resistências dos mais velhos, que acabaram por acolhê-lo.
Deus, dizia ele, tem um projecto de felicidade para cada um de nós.

Sónia Alexandra Moura, O passo do anjo, A Fazer De Contos

Cavalos Árabes

E o meu olhar diluiu-se no mar e, numa fracção de segundos, regressei a uma sala de Tribunal onde havia alguns anos se contara um conto de fadas como tantos outros iguais aquele e imaginei-me a escrever-lho.
Era uma vez num local não muito distante, logo aqui ao lado... ao alcance de um sorriso, ou de uma palavra, ou de um gesto, uma rapariguinha de cerca de nove anos, chamava-se Ana e tinha quatro irmãos. Era filha de sua mãe e de um homem desconhecido de quem não sabia o nome.
Os dois irmãos mais novos, eram do seu padrasto. viviam todos numa casa em que havia dois quartos e uma cozinha que servia de casa de jantar. A casa de banho, se assim se podia chamar, era na rua do lado de fora da casa, fosse dia ou noite, Verão ou Inverno.
Essa casa estava situada dentro de uma grande quinta de um senhor rico que tinha muitos cavalos. Alguns, diziam, eram puro-sangue árabe e ela não percebia porque lhes davam tanto valor se até eram mais baixos que os outros cavalos, embora percebesse que iam a concursos e ganhavam muitos prémios.
Diziam também que eram os cavalos de raça mais antiga e que reis e faraós (que ela não sabia o que eram), desejavam ter muitos, ou pelo menos conseguir um. também lhe contavam que havia reis nas arábias que estendiam sedas para os seus cavalos árabes se deitarem.
Não percebia a pequena Ana como podiam dar tanta importância a cavalos a ponto de os deitarem em sedas! Coisas de Reis! Mas gostava deles, dos cavalos.
ggggggggggggg
Adelina Oliveira, Cavalos árabes, A Fazer De Contos
(foto fotografada do Jornal Público)

É sempre tempo


de voltar às flores


2.

Quando me perguntas se a aurora
é constante
(querendo assim dizer que
a persistência te justifica o som)
só porque,
na idade que tens por tua,
te dá o esporádico medo da noite fria;
só porque,
se não adormeces no instante do desejo,
o devaneio apodera-se do escuro
que te envolve
(e é ele que decide - acrescentas)
- ...
quando o perguntas
(quanto o perguntas!)
queres uma resposta que não tenho.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O Lugar do Vivo

- Já ninguém se mata à beira-mar, junto do farol. Saiu-me da boca, mas não fui eu a falar.
O medo continuou, agora num sussurro fechado, só comigo: "Que havia de dizer, se não uma graça? Ele é medonho, repara bem!"
Na terceira semana de Novembro, desde há dez anos, conseguia aconchegar dias dispersos e ia respirar o mar. Sozinho, apartado da cidade, escondido em invisibilidade incógnita. As pegadas do Verão tinham desaparecido e o São Martinho não tem quentura para contrariar o ritmo das estações. Preciso de arrefecer e só o ar do mar me ajuda a retomar o desgosto do trabalho, a reinventar o fôlego. Todos os anos, era este o pedaço de Outono que me rejuvenescia. Fugia à família e esvaziava-me no som das ondas, nas réstias de Sol e nas longas caminhadas pelo areal lavado.
Todas as vezes, como numa destinação astrológica, temendo que o olvido fosse agoiro, percorria o pontão na noite anterior ao regresso. Caminhava da fortaleza ao farol e enchia o peito daquela terna brisa fresca. Chovesse, ventasse forte (houve uma noite, vão lá seis anos, que uma trovoada medonha me escolheu e tive de avançar em gatas, enquanto a ventania me fazia de trapo sacudido). Regressava do farol, peito cheio, percorrendo o quilómetro de volta. Sempre sem um parceiro, sempre sem vivalma que visse, e sempre com o descanso de nem polícia nem bombeiro se inquietarem com a minha ousadia, impotentes na imaginação de haver um louco a percorrer o frio escuro de Novembro.
Foi a três curtos passos do farol, num escuro salpicado de bagos de reluzente espuma, que vi o homem.
"Vai atirar-se dali, mesmo á tua frente, ou não, pode é estar à tua espera".
oooooooooooooo
José Eusébio Almeida, O lugar do vivo, A Fazer De Contos

A Inutilidade da Lide

Sou um processo de divórcio e a minha história simples conta-se em meia dúzia de articulados.
Nasci no longínquo ano de 1990, era então uma frágil ,petição inicial de 66 artigos, nos quais a minha autora acusava o marido de coisas terríveis, como maus tratos e adultério.
Sofri uma violenta contestação de 132 artigos e, a partir daí, a minha vida tornou-se um inferno.
Engordei com incidentes processuais, reclamações e recursos, e tornei-me caro e pesado com custas e multas que têm recaído em idênticas proporções sobre os meus dois litigantes.
Já depois da contestação, criei uma vasta prole a que me ligam estranhos atilhos umbilicais: primeiro foi o arrolamento intentado pela minha autora, a que se seguiu o processo de embargos - e vão dois; depois veio o arrolamento intentado pelo meu réu, a que se seguiu outro processo de embargos - e vão quatro; a seguir veio a providência cautelar de alimentos provisórios e mais tarde a acção de alimentos - e vão seis; nasceu depois o incidente de atribuição da casa de morada de família e, decorrido algum tempo, a execução de alimentos - e vão oito; finalmente a minha autora zangou-se com o advogado que me subscreveu a petição inicial e pronto, lá nasceu a acção de honorários - e vão nove apensos, já todos felizmente bem nutridos com certidões, documentos vários, incidentes, recursos, custas e multas.
Mas, voltando à minha história simples...
kkkkkkkk
Carlos Querido, A inutilidade da lide, A Fazer de Contos

O Tempo das Promessas

O tempo não se desembrulha em horas nem em minutos, e tão pouco tem a forma circular que enganosamente os relógios sugerem. São os nascimentos e as mortes que lhe dão a substãncia de que é feito. Epifanias ou eclipses da existência, separados por intervalos mais ou menos longos, dispostos por ordem cronológica numa linha delirantemente recta que se prolonga, com tédio ou deslumbramento, na direcção da finitude ou da eternidade.
Desde que por exercício de função a possibilidade de julgar os outros passara a ser nele o dever de sentenciar, numa idade quase ainda intacta de baptismos e funerais, tinha-lhe nascido e morrido tanta gente, que quase sem se dar conta deu por si feito adulto, a caminho de velho, e com as imperatudes de ter de deixar o lugar que durante anos lhe conhecera os dias, para se mudar, também ele, para aquela dimensão da realidade dos tribunais em que a justiça para lá de ser cega é, em simultâneo, invisível aos olhos de quem dela se serve.
jjjjjjjjjjjj
Manuel Capelo, O tempo das promessas, A Fazer De Contos

O Gato Borralheiro

Lembro-me, como se tivesse acontecido há momentos, aqueles olhos enormes, negros como a noite do lugar de onde provinha, o seu rosto aluado e corte de cabelo à "Amélie", mudo pela imponência do espaço, a que, transitoriamente, por necessidade de pintura do gabinete, me vira obrigado a utilizar mesmo para aquele tipo de diligências.
- Tens a certeza que já sabes ler, Miguel?
A sala era, ainda assim, pequena de mais para conter tantos odores. O corpo e a roupa do Miguel, cheiravam-se, já não viam sabão há um bom par de semanas.
Ainda bem que me lembrara de trazer aquelas bandas desenhadas que o meu "puto" tinha em duplicado (demasiadas festas de aniversário é no que dá).
O Miguel contava então com oito anos de idade, feitos dias antes.
Se, além da idade e da descrição do rosto, lhes disser que o Miguel vivia num barracão, de tábuas negras encortiçadas, com o chão térreo coberto por um oleado que as águas barrentas de Inverno iam tingindo de "laranja", fica mais fácil imaginar o Miguel?

Paulo Correia, O Gato Borralheiro, A Fazer De Contos