segunda-feira, 14 de abril de 2008

[REC]

Título: [REC]
Género: Terror
Com: Javier Botet, Manuel Bronchud, Martha Carbonell, Claudia Font
Realização: Jaume Balagueró e Paco Plaza
Estreia: 10 Abril 2008
Classificação: M/16
Site Original: [REC]
Corre. Foge. Sobrevive. Mas não deixes de gravar!

Parece que voltou o cinema fantástico que mete realmente medo!
Parabéns aos nossos irmãos espanhóis.

Bellis Azorica


Que guarde o mar silêncio acerca dos filhos do meu nome à
frialdade das vagas convertidos
e que me deixe na ilha a limitar o tempo longo
a sonhar fracassos sombrias vidas e obscuridades.
João Miguel Fernandes Jorge, Fitando a proibida azul distância

Kraków, 1990


Mister God, This is Ana

Não tomando o lugar alheio, venho deixar aqui a lembrança e a saudade de um livro lido há muitos anos. Em rigor são dois, mas, valendo por muitos, podiam ser um, apenas.
SENHOR DEUS, ESTA É A ANA vem a prosseguir com O LIVRO DE ANA. O primeiro é de 1974 e o segundo doze anos depois. Por hoje, fica aquele primeiro, apresentado na contracapa como “um livro diferente, único, brilhante, que pode ser lido pelas crianças de todas as idades, um livro destinado à criança que existe dentro de todos nós”.

“ A diferença entre uma pessoa e um anjo é simples. A maior parte do anjo está por dentro e a maior parte da pessoa está por fora. Estas palavras são da Ana, uma miúda de seis anos a quem por vezes também chamam de Ratinha, Cara Feia ou Jóia. Aos cinco anos, Ana compreendia perfeitamente a razão de existir, o significado do amor e era amiga pessoal e ajudante do Senhor Deus. Aos seis anos, dominava a teologia, a matemática, a filosofia, era poeta e jardineira. Alguém que lhe fizesse alguma pergunta, teria sempre resposta – a seu tempo, claro. Por vezes podia demorar semanas ou meses; mas, normalmente a resposta surgia na ponta da língua: directa, simples e mesmo a propósito. Não chegou a fazer oito anos (…)
Ser abraçada pela minha Mãe era o mesmo que cair nos braços de um gorila. Tinha uns braços que mais pareciam pernas e uma estrutura anatómica tão esquisita que ainda hoje me faz confusão: um coração de noventa quilos num corpo de oitenta. Mas era uma verdadeira senhora e esteja onde estiver agora, de certeza que continua a sê-lo. Passados alguns minutos de ahs! e ohs!, as coisas começara a organizar-se. A minha mãe levantou-se e ordenou-me – despe essa roupa molhada à miúda (…)
Na opinião da Ana o céu não era uma questão de lugar mas sim uma questão de perfeição dos sentidos. A linguagem tinha uma enorme dificuldade em descrever ou explicar o conceito de céu, mas como a linguagem dependia dos sentidos, então a compreensão do céu também dependia deles (…)
Ana vivia todos os momentos da sua vida, aceitava a vida na sua totalidade e, aceitando a vida, aceitava a morte. A morte era um frequente tema de conversa com a Ana – nunca de forma mórbida, nem ansiosa, mas simplesmente encarada como uma coisa que mais tarde ou mais cedo viria a acontecer e de que mais valia ter já um conhecimento anterior antes dela sobrevir, do que esperar até ao momento de ela chegar e então entrar em pânico. Para a Ana a morte era uma porta aberta às nossas possibilidades.”
FYNN, Senhor Deus, Esta é a Ana (Mister God, This is Ana), Editorial Presença, 1988.


POEMA do DIA

Respiro até doer o teu suor
no ar condicionado do meu quarto
e faço amor contigo por amor
que de yves saint laurent já eu estou farto.

E desperto depois. E depois parto
sem lágrimas nos olhos. Sem calor.
O amor não saberei se soube dar-to
ou se ao menos o fiz, o que é pior.

Ponho à saída o cachecol de lã
e vou ao monte carlo quase cheio
pedir italiana e croissant.

E esqueço-me de ti enquanto leio
as primeiras notícias da manhã
deste dia escuro baço e feio.

JOAQUIM PESSOA
Respiro até doer o teu suor, Português Suave

domingo, 13 de abril de 2008

Rita

É realmente estranho, mas não me consigo recordar da primeira vez que falei com a Rita. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que a vi. Foi no Tropical, antes deste café ser vendido a uns Ingleses com toques colonialistas, numa noite fria e húmida de Outono.

Há cardos e ervas ruins

Há cardos e ervas ruins
Nos canteiros que já nos acolheram
Há cardos e ervas ruins
Que nos procuram pela fragilidade
Que é inerente à beleza que é nossa

Pastelaria Catita.8

Rosarinha revirava-se na cama, ao jeito duma panqueca escaldadiça. O efeito da tisana escoara-se no choro, dobrado pela angústia do ancião, ali ao lado. Não sentia culpa que lhe justificasse o tormento; de nada valia desarribar-se em desesperos. A cura era levantar-se. Escrever-lhe-ia umas verdades e o engenheiro passava a cuidar do respeito às donzelas com outra atenção.
Descobriu a bic laranja nos fundos da mesinha e aprontou-se a largar na revista de lavores o apontamento. O ponto cruz deixara em branco o espaço bastante.
Cogitou: se isto estancou antes de romance, que melhor lhe direi? Era costume copiar frases conseguidas na Crónica Feminina, mas tudo tem a sua época. Talvez lhe escrevesse uma mistura de paródia e seriedade
Ex.mo Senhor Calisto, Engenheiro.
As penas do seu desencontro voam suavemente do meu desgosto, assim como pássaros nocturnos que só no silêncio incomodam. Não sei se tem por costume desperdiçar romances antes da partida. Saiba que a alma se me baralhou e cheguei a largar-me culpas, mas não as tenho. Foi a excelência quem se apoderou do tempo decisivo e, à primeira contrariedade, viu a ocasião para o desleixo. Diz o povo, bem lo sabe, que a ocasião faz o gatuno, e vossamercê deixou-me o coração vazio, sem, sequer, uma réstia de dote que possa valorar no prego. Acordará que a razão me acompanha e que bem mais se esperaria da sua formação tão elogiada
.
Ao riscar acordará no canto de sobra, junto a um rendilhado a três agulhas, Rosarinha sentiu uma quebra de sono. Nem tempo teve de resguardar a revista: caíram as duas no colo da almofada.

POEMA do DIA

Sinto o domingo no ar
Da flava manhã de Abril,
Como uma essência subtil
Que tudo vem perfumar.

Vibrante, na manhã d'oiro
Canta um sino festival.
Vem deste domingo loiro
Não sei que eflúvio pascal...

E as encostas que eu distingo
Além, o prado florido,
Tudo me parece ungido
Dum não-sei-quê de domingo...

ROBERTO DE MESQUITA
Ar de Dia Santo, Almas Cativas

sábado, 12 de abril de 2008

meravigliosa...

Descia o Chiado
A passo acelerado,
Saudoso do Tejo

De repente, te vejo
Na nesga dum cotovelo

Compunhas o cabelo
De encontro à montra

E eis que – coisa tonta!
O manequim acordou
E mandou-te um beijo

Não acredito no que vejo
Mas foi! O povo parou

Olhámos-te um segundo:
M., és a melhor do mundo.

Pastelaria Catita.7

Suplicados pelos pedidos dos radiouvintes, a hertziana debitava desejos. A frase é, Poupe mais que tostão no novo sifão; dedicada a todos quanto ganham o seu pão ao longo das frias horas da madrugada (e o locutor pigarreava exemplos consabidos: o padeiro que amassa, o almeida que recolhe, digo mesmo, com permissão dos excelentíssimos ouvidos ouvintes, a senhora de vida cujo destino atraiçoou e cobra momentos ao freguês solitário) anuncio, Povo que lavas no rio, na voz inconfundível da diva e sobre as letras do poeta Homem.
O rio não lava nada, pelo menos a tristeza, disse-se Calisto.
Reiniciou o propósito, inclinando o aparo de ouro no papel em súplica. Tinha que lhe ser mais directo: agora, a esperança que formatara em quimera desvanecia-se em pingos de permanente.
Dizer-lhe, apenas, que estava despedaçado, porque uma injustiça pintada de promessa dói muito?
Repentinamente, apeteceu-lhe triturar o rascunho e deitar ao vento uma praga de futuro: que a Rosarinha ficasse aconchegada nos picos dolorosos do caule; que se espatifasse contra um valdevinos quejando, ingrato até mais não.
Amanhã havia de falar com o colega de escritório, que era um mulherengo sabido.



POEMA do DIA

O grito,
o grito verde, adstringente,

e as raparigas
na ponte,
evitando a repetição
das cores

e o fascínio da água.

Eu que não sei,
que posso aprender?

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA
Edvard Munch,Por Alguns Dias

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Casa

Em casa deitei-me no chão da sala. Fiquei bastante tempo a fumar cigarros e a olhar para o teto. Esperava que este caísse sobre mim, mas sabia que nada iria acontecer. Estranho como os meus desejos nunca se concretizam...

Edward Hopper


New York Movie (1939)

POEMA do DIA

O mar está-nos no corpo; enquanto alguém
a quem o coração serve de rei
dispõe no tabuleiro as outras peças

rebenta-lhe a mão; há entre as peças
e o mar cumplicidades de que só
quem joga estima o peso em cada lance

LUIS MIGUEL NAVA
O Rei, Rebentação

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Sonho

Sonhei com aquela que mais perto esteve, enquanto esperávamos numa plataforma de metro, por uma ligação para a Ilha do Sal. A viagem pouco custou…