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segunda-feira, 21 de abril de 2008

Catita Pastry shoppar, avsluta. Das Ende


(La nuit a été chaud. La noche estaba ayer al arder. It was a hot night, of dreams.
Era una notte completa dei sogni. Così bella)

Naquele dia, quando o dia abriu as persianas da aurora, trazia um inesperado riso de criança e salpicava as janelas de Abril com a luz em pingos. Predilecta cuidou-se ainda a sonhar, quando o espelho lhe devolveu um olhar diferente. Não se quis querer, mas aceitou de dádiva, e penteou os cabelos negros, a única coisa que parecia manter a cor.
Desceu a Rua do Salitre a cumprimentar os restos da revista e foi-se embrenhando na algazarra. Junto ao Carmo, já as pessoas faziam de pássaro nos varões das árvores. Acha, mais de trinta anos depois, que foi aquele olhar rabino do camuflado o que lhe traduziu o sonho. Trocou com ele um olhar igual.
Quando viu o engenheiro Calisto nos fundos da outra rua, o pedaço dele que da multidão sobrava, Rosarinha tinha já trocado o receio pela alegria. O senhor Calisto enviou-lhe um beijo que, saltitando as cabeças da multidão, se lhe pegou na réstia alva que os negros cortinados de cabelo abriam.
Também o engenheiro se tinha compreendido.
Há dias, a sua filha Vitória conheceu o rapaz do engenheiro.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Pastelaria Catita.9

Hoje pensa que terá sido o efeito explosivo da sonolência rancorosa, misturado à tília que bebera apressadamente. Ou talvez – sabe-se lá? – o rendilhado do ponto que saltou da revista de lavores para o entendimento e lhe intrincou os devaneios. O certo é que muito sonhou naquela noite. Não encontra melhor definição, embora, mais de trinta anos depois, saiba cada vez menos apartar as imagens do dia erguido das que se deitam connosco no leito e nos conduzem por mundos tão reais. Abraçara-se no engenheiro como uma trepadeira sôfrega e desenhara loucuras que nunca antes, mesmo a sonhar, havia sonhado. Foi a noite inteira de um tempo incontado.

Nos arrabaldes da Cruz Quebrada, o senhor Calisto deitara-se com semelhante ânsia e o destino permitiu-lhe que roubasse o sonho da predilecta. Sentia-se trepado de um enleio novo. Se a palavra fosse então permitida, um enleio (quase, quase) estonteante. Acordou revigorado de bem-quereres, como se houvesse uma flor nova no seu vasinho das escadas de serviço.

domingo, 13 de abril de 2008

Pastelaria Catita.8

Rosarinha revirava-se na cama, ao jeito duma panqueca escaldadiça. O efeito da tisana escoara-se no choro, dobrado pela angústia do ancião, ali ao lado. Não sentia culpa que lhe justificasse o tormento; de nada valia desarribar-se em desesperos. A cura era levantar-se. Escrever-lhe-ia umas verdades e o engenheiro passava a cuidar do respeito às donzelas com outra atenção.
Descobriu a bic laranja nos fundos da mesinha e aprontou-se a largar na revista de lavores o apontamento. O ponto cruz deixara em branco o espaço bastante.
Cogitou: se isto estancou antes de romance, que melhor lhe direi? Era costume copiar frases conseguidas na Crónica Feminina, mas tudo tem a sua época. Talvez lhe escrevesse uma mistura de paródia e seriedade
Ex.mo Senhor Calisto, Engenheiro.
As penas do seu desencontro voam suavemente do meu desgosto, assim como pássaros nocturnos que só no silêncio incomodam. Não sei se tem por costume desperdiçar romances antes da partida. Saiba que a alma se me baralhou e cheguei a largar-me culpas, mas não as tenho. Foi a excelência quem se apoderou do tempo decisivo e, à primeira contrariedade, viu a ocasião para o desleixo. Diz o povo, bem lo sabe, que a ocasião faz o gatuno, e vossamercê deixou-me o coração vazio, sem, sequer, uma réstia de dote que possa valorar no prego. Acordará que a razão me acompanha e que bem mais se esperaria da sua formação tão elogiada
.
Ao riscar acordará no canto de sobra, junto a um rendilhado a três agulhas, Rosarinha sentiu uma quebra de sono. Nem tempo teve de resguardar a revista: caíram as duas no colo da almofada.

sábado, 12 de abril de 2008

Pastelaria Catita.7

Suplicados pelos pedidos dos radiouvintes, a hertziana debitava desejos. A frase é, Poupe mais que tostão no novo sifão; dedicada a todos quanto ganham o seu pão ao longo das frias horas da madrugada (e o locutor pigarreava exemplos consabidos: o padeiro que amassa, o almeida que recolhe, digo mesmo, com permissão dos excelentíssimos ouvidos ouvintes, a senhora de vida cujo destino atraiçoou e cobra momentos ao freguês solitário) anuncio, Povo que lavas no rio, na voz inconfundível da diva e sobre as letras do poeta Homem.
O rio não lava nada, pelo menos a tristeza, disse-se Calisto.
Reiniciou o propósito, inclinando o aparo de ouro no papel em súplica. Tinha que lhe ser mais directo: agora, a esperança que formatara em quimera desvanecia-se em pingos de permanente.
Dizer-lhe, apenas, que estava despedaçado, porque uma injustiça pintada de promessa dói muito?
Repentinamente, apeteceu-lhe triturar o rascunho e deitar ao vento uma praga de futuro: que a Rosarinha ficasse aconchegada nos picos dolorosos do caule; que se espatifasse contra um valdevinos quejando, ingrato até mais não.
Amanhã havia de falar com o colega de escritório, que era um mulherengo sabido.

domingo, 6 de abril de 2008

Pastelaria Catita.6

E prosseguiu, aprimorando uma letrinha legível, desenhada no que o excesso de carinho pode olvidar a saudade:
As palavras para reflectirem a imagem da minha funda tristeza não são minhas. Com efeito, não tenho palavras. E – peço-lhe, como recompensa ao respeito – que não tome estas palavras como um jogo delas mesmas. É sentido que elas de todo me falecem. Que seria capaz de inventar para lhe entregar em ditos um tão imenso padecimento de alma? Não sou poeta, menina Rosarinha. E que fosse! Que arte de fingimento poderia criar para mentir a verdade do que sinto? É que a verdade, a menina sabe, nunca seria bastante. Rasguei-me de todos os encargos psicológicos a que a vida me acorrentou para poder resplandecer no seu olhar uma vida nova. A menina Rosarinha assumiu um compromisso que tomei por eterno; e, sabendo embora que tudo o é apenas enquanto dura, como do amor dizem os sabedores, o nosso caso quedou-se antes do nascimento, mera promessa, dolorosa ilusão.
Calisto acendeu a telefonia, à espera de um intervalo musical que lhe recompusesse as ideias.

Pastelaria Catita (resumo dos capítulos anteriores)

Tinha o coração desarrumado, logo naquela hora do dia em que o Sol se habituou a mandar beijos. As acácias já não filtram as venturas luminosas e, com o tempo em que se perdera, receava perder o troco dos olhos, que marcara na agenda rosa. Foi com a Pastelaria Catita ao alcance da vista que viu o vulto fugidio do senhor Calisto. Não era menina de arremessar um grito. Susteve a lágrima e o passo.

O Senhor Calisto regressou tombado de desânimo. Carregava uma sombra pesada que lhe fazia de vulto, mas a noite respeitosamente escondia. Antes de recuperar o Amarelo, resolveu abeirar-se do rio, olvidando por instantes o cacimbo. Ali lavou os olhos, a estender a vista na corrente.

A noite ia já escurinha quando volveu a casa. Pensou frigir um ovo, a burlar o estômago. Mas atormentava-o o desencontro. Tinha que deixar nas letras o desgosto que o atravessava. No papel rosado, redigiu
Menina Rosarinha. Predilecta.
Daqui lhe entoa, suplicante, o Calisto que seus olhos apartaram, deixando os dele turvados de pranto.

O pai balouçava-se na cadeira de castanho, escondido nas folhas do Notícias. Rosarinha fez por disfarçar o desencanto, mas a um pai que filha engana? Rosarinha foi esquentar uma verbena para melhor acolher os lençóis saudosos.

Os lençóis contornavam-lhe o corpo, a enrugar as mesmas desgraças. A luz do candeeiro trôpego escrevia sombras na cal da parede. Em vão tentou conciliar o repouso. Do quarto ao lado, ouviu o pingar de um choro miudinho. Virou-se de encontro à almofada e chorou pelos dois.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Pastelaria Catita (V)

Os lençóis contornavam-lhe o corpo, a enrugar as mesmas desgraças. A luz do candeeiro trôpego escrevia sombras na cal da parede, ritmando o virar das páginas do livro gasto de surpresas. Em vão tentou conciliar o repouso. Do quarto ao lado, ouviu o pingar de um choro miudinho. A pena crescia-lhe ao pensar na do pai. O ridículo do desencontro invadia a casa. Virou-se de encontro à almofada e chorou pelos dois.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Pastelaria Catita (IV)

O pai balouçava-se na cadeira de castanho, escondido nas folhas do Notícias que puxaram às centrais o escândalo da primeira página. Uma nora descabelada, desalmada de instintos, diluíra remédio dos ratos na gasosa da sogra e foram escassos instantes até que a santa se esticou. Rosarinha subiu os degraus a acautelar-se, silente como quem pisa neve, e rodou a chave com o cuidado de gatuno de cofre. O pai, mesmo assim, agitou-se e, depois de piscar os olhos de sete décadas, olhou os dela. Rosarinha fez por disfarçar o desencanto, mas a um pai que filha engana? Apercebendo-se, logo cogitou não acrescentar o drama. Desejou-lhe as boas noites e desculpou-se com o cansaço de um dia longo. Rosarinha foi esquentar uma verbena para melhor acolher os lençóis saudosos.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Pastelaria Catita (III)

A noite ia já escurinha quando volveu a casa, só umas luzes fatigadas faziam de pirilampos. Também o coração lhe estava pouco iluminado. Andava a mãe pela Beira, à beira das tias anciãs que depenicavam afazeres de lavoura perdulária. Pensou frigir um ovo, a burlar o estômago. Mas atormentava-o o desencontro. Tinha que deixar nas letras o desgosto que o atravessava. No papel rosado, redigiu
Menina Rosarinha. Predilecta.
Daqui lhe entoa, suplicante, o Calisto que seus olhos apartaram, deixando os dele turvados de pranto.
Bebeu um vaso de água fresca e sacudiu-se. Voltou à suave pena, lavrando as que o padeciam.

sábado, 22 de março de 2008

Pastelaria Catita (II)

O senhor Calisto regressou tombado de desânimo. Carregava uma sombra pesada que lhe fazia de vulto, mas a noite respeitosamente escondia. Seis de aguardente, bebera-a de trago e o estômago voltou a arrefecer. A noite vinha pálida e fria. Apertou o último botão do sobretudo cinzento, esfregou uma mão na outra e estugou o passo. Antes de recuperar o Amarelo, resolveu abeirar-se do rio, olvidando por instantres o cacimbo. Ali lavou os olhos, a estender a vista na corrente.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Pastelaria Catita (I)

Tinha o coração desarrumado, logo naquela hora do dia em que o Sol se habituou a mandar beijos, trinados num “até amanhã”. As acácias já não filtram as venturas luminosas e, com o tempo em que se perdera, receava perder o troco dos olhos, que marcara na agenda rosa, semana e meia passada. Mesmo assim, desceu à Baixa em passo de andarilha, socorrendo-se do primeiro Amarelo. Foi com a Pastelaria Catita ao alcance da vista (nesse instante preciso o dia soltara o derradeiro beijo) que viu o vulto fugidio do senhor Calisto. Não era menina de arremessar um grito. Não! Nem com o sentimento a pressionar-lhe a garganta. Susteve a lágrima e o passo.