sábado, 29 de novembro de 2008

A caminho de Santiago

O que realmente o angustiava, como agudo ferrete, era saber-se, ele próprio, perdido perante tantas proclamadas verdades, num labirinto infindável e sem saída, bússula inútil, descrente de si e da avaliação que dos outros já não alcançava fazer. e cada dia encontrava no cru olhar do cinismo um sedutor amparo.
Talvez por isso pusera pés à estrada, palmilhando o caminho de Santiago de Compostela, escolhendo, entre outros percursos, o mais árduo; alguém lhe falara em "lavar a alma", retornar às coisas simples e absolutas, recomeçar de um desejado zero para descobrir um destino.
Assim mesmo: um passo, depois outro, devagar. Ao longe, um dia, havia de vislumbrar Santiago. E depois, regressado ao Tribunal, confrontado ainda outra vez com o denso corrupio daquelas vozes plurais, passo a passo, com desejada lentidão, e, entre outras, escolheria a que falaria mais alto, perdurando para além do ruído e da incerteza. Talvez que o testemunho mais autêntico se refugiasse, afinal, na mais altiva das mentiras.
jjjjjjjjjjjjj
José Igreja Matos, A caminho de Santiago, A Fazer De Contos

Processo Tutelar n.º 37/01. Mariana

Mas, outra vez porquê
Será porque lêem tantos livros? Mas afinal de que lhes serve isso se não sabem o que vale um simples gesto de apertar quem se gosta, assim, juntinho ao coração...
Enquanto assim pensava, deu por si a apertar com muita força as suas mãos e os seus braços franzinos, sentindo o calor que vinha do peluche que encostava ao peito, para não deixar que este, com o seu poder mágico, transformasse aqueles intrusos em pó, ou mesmo em sapos, mas sem príncipes e fadas. E, por se não querer denunciar, Mariana percorreu com os seus olhos os cantos da casa, procurando em vão os trapos que em tempos se amontoavam naquele chão, mas que agora estava limpo pelas mãos renovadas da sua mãe. E sentiu-se repentinamente tão injusta, mesmo em pecado de crucifixo, por estar a pensar nela assi,m, sim, apenas assim, como se tivesse sido algum dia apenas mais que um trapo.
lllllllllllll
Nelson Fernandes, Processo tutelar nº 37/01. Mariana, A Fazer De Contos

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

W. B.


William Blake, pintor e poeta inglês, nascido em Londres a 28 de Novembro de 1757

No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta. Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos. A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria. A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência. Quem deseja, mas não age, gera a pestilência. O verme partido perdoa ao arado. Mergulha no rio quem gosta de água. O tolo não vê a mesma árvore que o sábio. Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela. A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo. A abelha atarefada não tem tempo para tristezas. As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria (…)

William Blake, Provérbios do Inferno

memória refeita nas folhas tombadas (variação I)

Ainda trago os flocos de saudade
(além da idade... -
envoltos nos trapos de
um coração ausente)
e, de repente,
cirzo as lembranças
esfiapadas
dos retalhos de um sorriso antigo
- é contigo;
ele que me faz das memórias
um arco-íris.
Foi quinta-feira e
choveu oiro
nas cores sobrantes do verão indiano
(não é assim, contigo, todo o ano?)
que te espelha o brilho no da terra.
Gosto é dos amarelos.
Só para não ter que sonhar
os teus cabelos.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

102 (24.11.1906)

Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.

Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presente, espectro da ausência,
cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.

ANTÓNIO GEDEÃO, Tudo é foi

domingo, 23 de novembro de 2008

Dá cá uma raiva...

1.
Estás deitado na tua cama; luz apagada, olhos bem fechados e perguntam:
- Estás a dormir?
- Não! Estou a treinar para morto.

2.
Levas um electrodoméstico para reparar e o técnico pergunta:
- Está avariado?
- Não! Ele estava aborrecido de estar por casa e eu trouxe-o para passear.

3.
Está a chover e percebem que vais sair à chuva. Perguntam:
- Vais sair com esta chuva?!
- Não! Vou sair com a próxima.

4.
Acabas de tomar banho e alguém pergunta:
- Tomaste banho?
- Não! Está a chover no WC.

(com agradecimento a j.f.p.)

sábado, 22 de novembro de 2008

Máquina

Três sílabas - arestas -
desenham a palavra
sua parente desumanidade

Como metáfora porém a utilizas
nomeando a teia desse mundo
que os deuses amam e odeiam

João Pedro Mésseder, Ordem alfabética

Magnolia

Homenagem aos vizinhos do lado e o contínuo matar saudades deste fantástico filme

existe um arritmia ténue
no coração de quem recusou
o amor de outrém, um coração
ténue que se sobrepõe ao que
já se tem

valter hugo mãe, três minutos antes de a maré encher

Melancholic Ballad

Lindo

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

a raiz do teu gesto


a raiz do teu gesto
encontrei-a naquela barca à vela
mas foi a nau catrineta
que me disse onde não estavas
por isso fui
sempre
levado pela maresia
quando sabia
que tu eras menos do que gesto

francisco d'eulália, A raiz do teu gesto, poemas

Lisboa, um "dia desses", logo ao nascer da noite


quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Com estados de alma

Há também, nestes contos, auto-ironia e humor: "De qualquer forma, não sou como alguns juristas, pois o que mais me desagrada após aqueles infindáveis e frequentes julgamentos, é a companhia dos que se apressam a permanecer nos corredores. (...) E depois de decidir um conflito, julgar uma prostituta, um deputado, um ministro, um chulo, um administrador de empresa ou director de hospital, nada mais tem sentido nesta direcção, desde logo porque se é trabalho, fatiga, e se é conversa, é inútil."
Gosto desta lista e da sua sequência sarcástica. Acho saudável a atitude discreta e profissional do juiz-narrador. Mas do que eu gostava mesmo era desse dia em que deputados e ministros e grandes empresários chegassem a tribunal. Lugar comum: a certeza de que um dos principais problemas de Portugal, talvez o pior, é a demora e, por arrastamento (literal), a ineficácia da justiça. Mas um lugar-comum é também o sítio em que todos nos revemos.
É possível julgar sem estados de alma? Talvez. Escrever é que não.
gggggggggggggggg
Rui Cardoso Martins, do Prefácio, A Contos Com A Justiça

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Carta

Caro Francisco:

Não, comecei mal. É absurdo usar contigo o mesmo tratamento a que recorro quando quero assinar uma revista, escrever aos clientes ou mesmo reclamar de um serviço.
Tu, cujo nascimento significou para mim um mundo de novas possibilidades – saberias jogar à bola e brincar aos polícias e ladrões? Conseguirias, ainda que daí a mais tempo do que eu gostaria de admitir, ler os livros que eu começava a espreitar, ou fazer pistas de carros no nosso infinito corredor, cheias de pontes e túneis?
Nesse momento, tudo me pareceu muito confuso (e tu, muito vermelho e enrugado…). Mas sei, ainda, com que bonecos brincava quando o Pai me veio dar a notícia, e não me poderia nunca esquecer que foi na minha direcção que andaste sem ajuda pela primeira vez.
Por isso, e muito mais que não conseguiria dizer, tenho de recomeçar, desta vez com o único vocativo digno de ti.

Meu irmão:

Preciso de desabafar. Confissão rara num primogénito, que mais se assemelha a uma fortaleza inexpugnável: preocupado com o crescimento dos seus irmãos, pronto a resolver os sarilhos deles, quase se sentindo responsável se algo corre mal, acaba por não ter sequer tempo para admitir os seus próprios problemas, quanto mais para os resolver.
Só que, tendo os outros irmãos muito mais perto, porquê logo tu? É simples.
gggggggggggg
Cristina Xavier da Fonseca, Carta, A Fazer De Contos

Manhã de Júbilo

A fidelidade é um desporto da alma: começa por eliminar toda a pulsão natural e por instituir como regra de vida um artifício que só sobrevive à custa do esforço em ambiente inóspito, como não raras vezes sucede com o viver conjugal. À cessação do esforço, activam-se o ciúme e o remorso, como impulsos para a reposição daquele estado, nisto se esmifrando as energias dos organismos, as vontades e os afectos. É pois pura norma e sacrifício, capaz, por isso, de levar um juiz ao mais puro estado de levitação.
Convivi mal com a minha infidelidade. Faltava-me a destreza, que só com o hábito se adquire, para relegar o remorso para as rápidas orações do fim do dia. Por outro lado, o meu casamento, ao contrário dos das grandes fortunas, não tinha por pressuposto essas curvas do caminho, que se aceitam até com alívio, por significarem que a ordem natural das coisas continua a funcionar. Nesses grandes contratos, regados a champanhe francês nos jardins dos solares da família, sabe-se que o prazer não faz parte do dote, pelo que se aceita com a dignidade do cumprimento de uma cláusula, que cada um se governe como muito bem entende. Quem se vincula por uma dessas festas sabe que um valor vale se prosseguir um fim, sendo que a manutenção dos casamentos, como forma de sobrevivência das castas, é, sem dúvida, um fim indiscutível. Mas a fidelidade, nessas esferas, não é estritamente essencial à manutenção dos casamentos, que sobrevivem à custa de outros esforços e expedientes.
gggggggggggggg
João Felgar, Manhã de júbilo, A Fazer De Contos

Renascer

O avião acabara de levantar voo.
Ana tentou descontrair um pouco. Não era fácil. Ainda sentia a euforia póstuma dos momentos vividos com intensidade.
Revia mentalmente os acontecimentos da última semana. A conferência Ibero-Americana, sobre violência doméstica, na qual participara, superou as suas melhores expectativas. Havia sido magnificamente acolhida pelos colegas brasileiros. Nada que devesse constituir factor de surpresa, porquanto, em todas as viagens de férias que fizera aquele país, sempre se havia sentido em casa.
Agora, apenas oito horas de travessia atlântica a separavam do marido e filhos, que a esperariam em Lisboa.
Havia que voltar à rotina diária: lidar com os conflitos simbolizados e corporizados pelos processos que, inapelavelmente, se amontoavam no seu gabinete de trabalho.
Enfim, retomar as responsabilidades adiadas, por uma semana que primara pelo contraste com o frenesim do seu quotidiano pessoal e profissional.
Apesar de tudo, considerava-se afortunada e nem por um momento punha em causa a escolha profissional que havia feito, ainda era uma criança.
Veio-lhe à memória essa época.
Em especial, o dia em que a pretexto de um trabalho escolar, pediu aos pais fotografias da sua infância.
Já por diversas vezes havia estranhado o facto de aqueles nunca terem relatado o seu nascimento, nem terem feito referência aos seus primeiros passos.
E foi nesse dia, que os pais, emocionados, lhe revelaram não ter acompanhado o período em relação ao qual não havia registo fotográfico na sua casa.
ffffffffffffffffffff
Marília Fontes, Renascer, A Fazer De Contos

A Senhora Sem Nome e a Outra Senhora

- Teorias, doutor Almeida! Teorias: essa coisa de crimes continuados e de concursos... teorias. A realidade era outra: eu estava ali pela primeira vez, com uma ré sem nome, a ser julgada por não ter querido dizer... o nome! Ia-me pôr com teorias, doutor Almeida?... Não – respondeu quem perguntava -, isso só ia complicar: então eram crimes por aí fora, parecia champanhe em cascata! Sabe... olhei para o meu mestre e ele havia perdido o entusiasmo, só me sussurrou que nunca lhe tinha acontecido; olhei para o defensor e não ouvi som... e só disse: estou feito. Então, entre desânimo e silêncios, o senhor delegado permitiu-se tomar a palavra e chegou-se mais junto da cidadã, a meia distância comigo. Olhou-a com uma bonomia terna e disse-lhe, a senhora deve ter um documento em sua casa, todos nós nos esquecemos onde pomos as coisas; talvez se procurasse um bocadinho... nós esperávamos... porque sabemos que não quer tratar mal ninguém.
Os olhos do juiz mais novo esbugalhavam uma surpresa que emparelhava com a admiração de uma prematura ruga, a franzir-lhe na testa: o atrevimento do delegado! O juiz-presidente arrastou ninguém até ao silêncio. Mas logo alteou o tom, de peito cheio:
- Foi magia, doutor Almeida: a senhora, era assim que se chamava e tinham-se esquecido, disse que às vezes deixava a identidade na mesinha de cabeceira, não fosse perdê-la no ruedo, e a autoridade não lhe permitira ir à sua cata. Claro que eu interrompi o julgamento, doutor Almeida... deixei as teorias lá onde devem ficar e, passado nem cinco minutos, a senhora tinha nome, tinha os demais adereços e até tinha cartão de identidade... e tudo se resolveu. Sei lá se contra a lei!
- Sei lá! – mal se ouviu ao mais novo.
- Sei lá... – nem se ouviu ao doutor Fernandes.
- Como vê, doutor Almeida, a surpresa atacou-me na ocasião mais frágil, mas a solução -... e aí é que quero chegar – reforçou-me o entendimento: cada dia é um caso, cada caso é um olhar; depois, há sempre gente... atrás das teorias.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
José Eusébio Almeida, A senhora sem nome e..., A Contos Com A Justiça