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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Preso à impossibilidade de esquecer

não fossem os anzóis
(o nome que escolhi para a tua saudade)
e podia partir, atravessando o mundo;
descobrir uns olhos
que apaguem os teus.
e viria de volta,
completado com o silêncio
das palavras que já te não lembro.
(12.05.2009)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

assim, dou-te...

lancei o risco na roleta do teu propósito,
ilusão puríssima de torpe devaneio
e no triste fardo constatei, de permeio
que só me sobrou o argumento ilógico

assim, dou-te

um beijo de suborno
um lenço de chorar
num tempo quase morno
o querer, de volta, voltar

quinta-feira, 30 de abril de 2009

ausências

Empresta-me o teu bafo quente
Para respirar os frios da tua ausência
E poder recuperar a paciência
De esperar mais, de esperar sempre

É que

Tenho o coração pequenino de frio
E já torra o Verão na tarde seca
É Deus que me faz o desafio
A natureza que de ti me separa, peca

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Vinhas a correr

vinhas a correr do sótão do nada,
onde se deixam fés, por mais antigas
e as esperanças se permutam
por idênticos riscos. passaste
no meu olhar
sem parares de não me ver,
e nem o respeito dos abraços antigos
te comoveu o passo. fui-me. de
olhos a nublar as ruas
(onde gentes faziam
de marcos de correio boquiabertos ou
de estátuas paralíticas)
e deitei-me no lugar
onde repousa uma cama
cheia de espaço,
e a mesa, na manhã,
ria-se da insane ironia
dos dois pratos. o carro
não ligou às circunstâncias
e eu desisti de te ligar,
mais tarde.
o dia demorou quarenta e oito horas
(habituado a ser teu e meu)
mas nem uma lágrima deixei cair.
vingativo. como o destino.
ele mesmo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Seguindo a tua voz

Seguindo a tua voz
(d’encontro ao vento dos rochedos)
retornei aos espaços imaginados,
entre o bibe e a sacola dos deveres,
e deixei cair, uma e outra,
as vogais pintadas da infância.
Lembrei.
Lembrei todas as gentes
(todos os gestos)
em quem as perdi
(por angústia – confesso
por teimosia – declaro).
E cresci na rudeza das consoantes,
arriscando o silêncio:
com medo
do sabor a ferro
dos timbres metálicos.
(a pensar no poema Dois Rostos
de Armando Silva Carvalho, Sol a Sol)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Não digo adeus.




rrrrr
rrrrr
rrrrr
rrrr

Não digo adeus. Não. Sento-me
à varanda do mar e respiro azul
a tarde inteira
. Já só
te imagino
(blusa vermelha a destoar a neblina da manhã,
saco de marca sem pertences interiores,
lenço de dizer partida recolhido na vergonha).
Saudade de ter saudades. Depois
da igreja que abençoou uma desforra,
só um acaso me compete
com o lodo e as algas.
Nada posso construir na areia
(já antes o não fizera
com os teus braços).
Há uma cama vazia onde me deito,
e continua –
sempre assim –
pelo escuro fora.
A manhã chega-se sem aviso
e recordo uma vez outra, e outra,
a tua partida.
A cada dia me despeço dos dias
com um cerimonial mais lento.
Mas não preciso de me repetir
que é a tua falta.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Se a música

Se a música conseguisse suspender
o tempo,
não sei que acorde me bastaria
em ti. e se
o silêncio da sombra
a que me habituei
permitiria escancarar-se
à tua luz.

Sei que a tentativa são asas,
mesmo se nem voam.
Predispõem.
Pressagiam.
Consomem-se no gesto
que -
como um fugaz começo –
te completa.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Um momento só

Um momento só. Inacabado,
infindo,
que se confunde com o sonho
onde não acordo
mas continuo a sentir
o som leve do teu gesto.
O encanto é escuro,
só se imagina.

Tenho possibilidade de me aconchegar
no teu dorso de carinho
mas deixo-me ficar
à espera do mundo. É
tão mais fácil com a tua leveza.

Dizes uma palavra


Dizes uma palavra
que te finjo ouvir
e dissipo-me do medo da surpresa.
Às vezes, rezas
e acredito adivinhar
o som que trocas com Ele
só pelos lábios que não abres
quando os olhos transbrilham
em cerimónia de núpcias.
É bom. Tão bom
sentir que abalroamos o medo
da descrença,
que por momentos vencemos.
Seja o que seja.