sábado, 12 de fevereiro de 2011

sonho de bandido

lanço fogo ao quarto onde me deito
antes que o escuro derrube a cerca
e contemple a madrugada. voam
lençóis em adeus festivo, içando
braços de revolta, outros de prece.
a cidade está morta no sono,
castiga-me num mar de desinteresse.
não posso ser herói
que nem me deixam ser bandido.
angustiado, reparo que só sonho
e sou o menino de côro,
a lavar os dentes, daqui a nada
com água bem desinfectada.
e toda a minha revolução
(que ia mudar o mundo
naquele preciso e
conseguido instante)
fica-se em arrumar os papéis selados
e, se ligeiro, apanhar o eléctrico.
Mas o devaneio obriga-me
a chamar o táxi.

(10.02.2009)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Compromisso

Desaconchego o lençol
(atrapalha o subtil calor
de um pé dormente)
enquanto distraio
as recomendações do relógio
(petulante
com ares arrogantes
de inequívoco)
e,
por minuto e meio que seja,
decido respirar o silêncio,
desprezar o compromisso, e
gritar
- sem uma palavra que devolva
os vizinhos à manhã -
NÃO VOU.
Satisfeito, levanto-me de imediato.

(19.05.2009)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

e pronto!

é invisível o que ontem me sobrou
dum sonho inconcluso; sei que
havia algo mais, mas não sei
como o esquecimento mo garante
(habitualmente estás presente, mesmo quando me digo
que é apenas um sonho repetido e tresmalhado)
e agora ganhei o medo
onde só estavas pela minha dúvida de renovar o enredo.
gostava de sonhar como sonha um gravador,
e pronto!

verão gelado

está um calor no soalho das ruas
um cortinado de bafo ergue-se até até ao dorso dos adultos
e eu estou gelado, sem febre, neste agosto
que estala as canas dos riachos
secos desde junho.
as saudades humedecem os ossos...
de que serve o teu xaile feito de mãos
se as não sinto desde o inverno ido?
- minha bordadeira de afetos, dobadoira de carícias
em flor de linho;
seguiste o teu caminho
e eu?
arrefeço o verão inteiro.
tenho as malárias da tua picada
(e a europa aqui tão junto).
se voltas só depois de setembro...
tão longe, como é que lembro?
vou agonizar em tranches d'arrepios.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Umbigo

Da mesma forma que o Mundo gira em torno do Sol, para um vasto número de Mulheres o Universo gira em torno do seu umbigo…
E o facto das duas concepções teóricas terem surgido na mesma época histórica não é coincidência….

NON ou a Vã Glória de Mandar



Um filme fraco, mas que parte de uma premissa brilhante...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

no escuro

escrevo no escuro
os sons do teu silêncio
e leio, de olhos bem fechados,
um coração encadernado
nas cores cintilantes da poesia;
rio-me do sol, que está medroso
tal como eu, teme que esse olhar
- só imaginado - o ofusque,
o envolva no plástico da noite.
é o poema que embeleza a coisa
ou só a coisa faz viver o poema?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Lisboa I

Ao longe um barco sem flores
deixa no Tejo um risco de sofrimento;
dizes que trarão saudades
os contentores vermelhos que o engordam;
deixo seguir a vista; imagino o deleite
com que reinventas essa poesia do concreto.
Alfama parece um lego, e
umas ceroulas penduram-se num fio
como podia ser nas unhas duma gaivota;
tão surreal assim, o resto de cerveja
espuma-me uma confidência, e eu: "vamos"!
Lisboa, tarde de um ano que chegará.

Lisboa II

E o polícia desfralda a boina
como um certificado
e a mulher gasta, toina
repete-lhe o gesto, e é pecado;
no intendente há sempre gente,
passei o martim moniz e, por um triz,
alcancei o rossio na ocasião do desafio:
a mulher voltou ao lugar do engate
o polícia emboinou (que disparate...).
Lisboa não anda boa
do juízo. Nem é preciso.

De frente para o mar

Com a organização e o prefácio de David Rodrigues, e comemorando os 150 anos do tratado de Paz, Amizade e Comércio entre Portugal e o Japão (2010), foi publicado um livro de poesia haiku contemporânea, com a participação de vários autores portugueses. Chama-se De frente para o mar (Palimage, Coimbra, 2010) e aqui se deixam algumas gotas dessa escrita frugal.

Peixes: os sobreviventes
dos antigos
naufrágios

(Albano Martins)

E tudo são conchas -
ossos musicais que podiam
ser relva ou bronze

(Casimiro de Brito)

ouves o mar?
e o vento? e as gaivotas?
- É o silêncio.

(David Rodrigues)

Giro o globo
o dedo indicador
perde-se no Pacífico

(Dinis Lapa)

saudade -
e tudo o que tenho
é este búzio

(Lécio Ferreira)

praia matinal -
cheiros distantes regressam
no cheiro das algas

(Leonilda Alfarrobinha)

Onda a onda
O mar
Se anuncia

(Liberto Cruz)

no fundo do mar -
uma concha adormece
sem ruído

(Lucília Saraiva)

No fundo do mar,
passam devagar as sombras
das aves, dos barcos...

(Luís Domingos)

Amendoeiras em flor,
espuma do mar
no novo corpo da deusa.

(Yvete Centeno)


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

tempo saudoso

E agora, que agonizo os dias
na tua saudade; só mesmo por ela
que me lembro o esquecimento.
Penhoro-me a promessas
do teu regresso
invento modos de te ver
nas formas da escuridão,
e angustio os segundos
com que o tempo se fractura
e dilacera entre os momentos.

verão de promessas

e agora, que o sonho se deslumbra
na terra fria, lá onde os pássaros
repousam gravilhas de pasmo,
e eu respondo que entendo o mundo
entre o perplexo de um olhar d'areia
e o mar azul, azul de azul e cor
onde repouso os ombros do cansaço
futuro, onde, cada vez onde
intrigo o espaço que amanhã
traz bagatelas de dúvida
e respiração de sossego: canto
outra vez as promessas antigas,
julho e agosto, mar e lábios
ternuras de porvir

julho. 2010

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O velho que lembrava romances de amor

Num gesto mecânico, apertei o dorso
como quem se abraça num hábito
e o pensamento esbracejou em fumo
até se diluir nos contornos do presente;
era só a saudade, amalgamada
em resíduos de memória
que te inventava nos contornos
onde eu segurava, temerário
ilusionistas ares de realidade:
já te fugiras, sem eu crer
ida nos tempos puídos dum calendário
onde as moças dos pneus
ainda usam corpetes de renda;
oh!, anos de brasa (frios)
- bêbados como na lei seca:
o século há muito partiu
e eu fiquei na grande guerra
perdida, sempre
em invenções de fantasia.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011