Mostrar mensagens com a etiqueta dela II. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta dela II. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

No centro d'ouro

No desacerto dos gestos pareço
redesenhar um compasso
passo a passo - se mereço? -
circulo em redor do teu apego
sem pavor, ainda a medo
enovelo nos cabelos de alecrim
(também a mim, ao vê-lo
me pareciam assim)
fios d'ouro e linho
onde adivinho tesouro,
palavras floridas em Setembro.
Ainda lembro
o beijo e o olhar:
solfejo de cantar
rimas e sinas de cigano;
pró ano hei-de voltar
mais inquieto.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Cálculos temerários

Conheço a distância exacta
entre os nossos peitos,
que numa álgebra de lábios
calculei em vírgulas de filigrana.

Há um instante futuro
que abre uma brecha imperceptível.
Mas tão futuro, tão futuro
que até lá te aperto, eternidade toda.

(9.06.09)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

revolta

revolto-me
quando deixas em passados
as palavras prometidas
- declaro-me credor de expectativas.
confundo as promessa
mas sem razão.
podia dizer
"vou com os pássaros"
mas as asas da frase
gastaram-se
nos imberbes voos da contumácia.
abusadas de repetição
trocaram o sentido à ousadia
e assim tolham
o modo de aceitar
um beijo silencioso.
sim,
tu não voltaste com as palavras d'outrora.

sábado, 18 de julho de 2009

Naquele (perdido) tempo...

lá longe
substituíamos as horas
pelos beijos futuros nunca dados
perdidos à porta da condescendente vergonha.
foi o diabo que nos afiançou
sempre haver tempo
prometendo grandezas
se evitássemos gestos.
sabia de cor as linhas do tabliê
muito melhor que os riscos das sebentas
e de saber sem sabor
faltou o gosto dos teus lábios
- embora de tanto os sonhar humedecidos
possa chorá-los nas gotas da memória.
(5.02.2009)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

quando olhei o espelho
reparei que tinhas esquecido o rosto
ao despedir do mundo
os teus desejos de conquista
quis Deus que se ausentou contigo
lembrar-te esse esquecimento
para menos eu esquecer tua lembrança
(18.05.09, sobre um poema de Luís Falcão)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Quadratura do círculo onde me cercas

o som que zune nos retábulos
da minha memória
carrega uma incomodação desusada
porque se estatela em partículas
que são lascas de um espelho
onde permaneceu a tua figura angélica;
cada pedaço revela
o teu particular,
e a tua unidade,
e o grito de luz
escolhe as expressões mais enigmáticas.
para que eu resolva uma equação impossível,
tradução de quem és.
(21.05.2009)

domingo, 5 de julho de 2009

precisava

precisava de te aconchegar o ouvido
com estes lábios
que guardam a palavra mágica
e, assim, em silêncio,
esperar a tua inteira
compreensão do mundo,
ditongo de perdão,
dedos que fazem de abraço
em rodeio de amor.
(27.04.2009)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

como um matemático

divido a cama ao meio
como um matemático
querendo alcançar a liberdade da geometria.
ocupo a minha área
e simulo-te no restante mundo.
conto gazelas
divorciado do gosto dos carneiros.
chega-se o bulício da terça
antes que a imagem
preencha por inteiro o teu espaço.
revolto-me contra o espelho
- teima em ser só eu quem o olha -
e aviso-o que o eu
era o quem estava ali ao lado
toda a noite com
a donzela de olhos coloridos de amêndoa.
(21.02.2009)

a contra-luz

deito-me a contra-luz
esperando os gestos do teu regresso
e as horas renovam
as aflições do mundo. é
sempre tarde quando chegas
e invento fantasias que te desculpem. a
meio da noite é já a sombra
quem se passeia na glória da solidão. e
eu derroto-me contra a almofada
onde
há dias
tinha nascido uma lágrima tua.
(21.02.2009)

domingo, 31 de maio de 2009

não via, lembrava

não era o teu seio que via
mas a lembrança da maternidade

um fio de cabelo, nada mais

não tenho olhos que te olhem
como os teus me deixam
e no silêncio partilho-te
tudo o que ficará por dizer
o som e o gesto
o mundo e a ave
um fio de cabelo
que no teu rosto já não é meu
(21.02.2009)

a elegância da ave

o verbo caminha
com a elegância da ave
e vem pousar
no teu olhar comprometido.
queria dizer a palavra certa
mas eu aceito o mundo
com erros maiores que os teus.
basta-me o que não diz
coisa nenhuma
e ficaremos a olhar o dia
até que o dia volte
e o verbo voe de novo,
elegante como a ave.
(21.02.2009)