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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Consciência e desassossego

Acabado de sair, o novo livro de António Damásio, O Livro da Consciência, escolhe para epígrafe, estas fantásticas palavras do Sr. Soares:
"Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia"

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Depois que o fim dos astros esbranqueceu para nada no céu matutino, e a brisa se tornou menos fria no amarelo mal alaranjado da luz sobre as poucas nuvens baixas, pude enfim, eu que não dormira, erguer lentamente o corpo exausto de nada da cama de onde pensara o universo.

livro do desassossego

domingo, 29 de março de 2009

Desassossego

NNNNNHá muito - não sei se há dias, se há meses - não registo impressão nenhuma; não penso, portanto não existo. Estou esquecido de quem sou; não sei escrever porque não sei ser. Por um adormecimento oblíquo, tenho sido outro. Saber que me não lembro é despertar.
NNNNNDesmaiei um bocado da minha vida. Volto a mim sem memória do que tenho sido, e a do que fui sofre de ter sido interrompida. Há em mim uma noção confusa de um intervalo incógnito, um esforço fútil de parte da memória para querer encontrar a outra. Não consigo reatar-me. Se tenho vivido, esqueci-me de o saber.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Desassossego IV

Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas porque deixou que a Vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não podia viver senão acarinhado, porque deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevenido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da visa adulta que passa usam-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração.

Bernardo Soares

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Desassossego III

Ninguém compreende outro. Somos, como disse o poeta, ilhas no mar da vida; corre entre nós o mar que nos define e separa. Por mais que uma alma se esforce por saber o que é outra alma, não saberá senão o que lhe diga uma palavra - sombra disforme no chão do seu entendimento.
Amo as expressões porque não sei nada do que exprimem. Sou como o mestre de Santa Marta: contento-me com o que me é dado. Vejo, e já é muito. Quem é capaz de entender?
Bernardo Soares

segunda-feira, 9 de junho de 2008

senhor Soares



Já aqui se tem falado do senhor Soares, um predilecto do amigo, Sr. Nogueira. Agora, na pena hábil de Mário Cláudio surge este "Boa Noite, Senhor Soares".

E faltam quatro dias para os 120 anos do nascimento do Sr. Nogueira.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Pensaste já...?

Pensaste já, ó Outra, quão invisíveis somos uns para os outros? Meditaste já em quanto nos desconhecemos? Vemo-nos e não nos vemos. Ouvimo-nos e cada um escuta apenas uma voz que está dentro de si.
As palavras dos outros são erros do nosso ouvir, naufrágios do nosso entender. com que confiança cremos no nosso sentido das palavras dos outros. Sabem-nos a morte, volúpias que outros põem em palavras. lemos volúpia e vida no que outros deixam cair dos lábios sem intenção de dar sentido profundo.
A voz dos regatos que interpretas, pura explicadora, a voz das árvores onde pomos sentido no seu murmúrio - ah, meu amor ignoto, quanto tudo isso é nós e fantasias tudo de cinza que se escoa pelas grades da nossa cela!
Bernardo Soares

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Desassossego II

Abandonar todos os deveres, ainda os que não nos exigem, repudiar todos os lares, ainda os que não foram nossos, viver do impreciso e do vestígio, entre grandes púrpuras de loucura, e rendas falsas de majestades sonhadas... Ser qualquer coisa que não sinta o pesar da chuva externa, nem a mágoa da vacuidade íntima... errar sem alma nem pensamento, sensação em si mesma, por estrada contornando montanhas, por vales sumidos entre encostas íngremes, longínquo, imerso e fatal... Perder-se entre paisagens como quadros. Não-ser a longe e cores...

Bernardo Soares

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Desassossego

Que serve sonhar com princesas, mais que sonhar com a porta da entrado do escritório? Tudo que sabemos é uma impressão nossa, e tudo que somos é uma impressão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos construímos nossos próprios espectadores activos, nossos deuses por licença da Câmara.
(...)
Olho, como uma extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.
Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da pouca luz do cárcere a que se habituara.

Bernardo Soares

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

ora aí está!

Claro que não podia consentir aquela nobreza inglória de arruinar as contabilidades. O cavalheiro tem um gosto hirto, parece um pêndulo quando deixa cair os olhos nas somas e nas diferenças! Dito isto, avançou o Sr. Nogueira a descoberta metafísica: o homem, sim obstante, tinha um peculiar decaimento para vasculhar o oco do ser e, como o oco se sonoriza, pintava um eco a cada observação. Tinha de o escolher, concluiu veemente. O VG? – atrevi-me. Paciência, ripostou o Sr. Nogueira: cada Soares tem o seu VG, tal como todos temos um Vasques, na maioria nem damos por tal! Está contratado? – renovei. Contratado; contratado, mas não deixo de lhe deitar a mão ao embaraço: o rapaz é novo… burilando os inícios do Guedes e com umas cinzeladas minhas acho que chega a guarda-livros; se se desassossegar, bem entendido. Bem entendido, terminei eu, como se entendesse.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

teimoso

Ainda assim, aí mesmo afastando hipóteses de um encontro olhos nos outros, teimou-me que o seu lugar estava seguro. Pensava mesmo – imaginem! – convencer VG a ceder-lhe o quarto na Rua dos Douradores; aí aplicaria uns cortinados mais distintos e disporia uns sofás mais fundos e confortáveis. A caligrafia dos números – elogiou-se – transformara em museu os livros de deve e haver. E terminou o relatório ao som de um peito em brasa: “Vais receber concludentes cá do Soares!”

ora essa!

Cá a mim, apeteceu gritar-lhe que tivesse juizo! Afinal, é justamente o que o Sr. Nogueira exige que se tenha para não ser contratado. Mas o moço é fino: ainda chega a guarda-livros. Por enquanto, só lhe digo que, nos tempos que correm, ainda ninguém se chama Bernardo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

o Soares não pode ouvir nada!

Entretanto, o Soares desconfiou da queixa e disse-me que nem pensasse em falar com o Sr. Nogueira. Ele, Soares, era muito mais inquieto, quase inquietado. Se fosse nos dias de hoje, acrescentou-me, teria sido uma criança hiperactiva. Se verá...

domingo, 17 de fevereiro de 2008

solidário com VG

Que andava desassossegado com a escrita, foi a queixa do Guedes, há dias, quando afazeres me deslocaram a Lisboa. Não era só a falta de vontade, era o patrão – todos temos um Vasques, segredou-me – que pretendia contratar um tal Soares para lhe aprimorar as contabilidades. Não encontrava motivos para esta desconsideração, justamente ele que sempre se demonstrou suficientemente inquietado; a mais, receava que o novo ajudante desse andamento ao livro de insossegos que já lhe roubara noites imensas de insónia, ali no quartinho da baixa, mobilado no preceito de confortar o tédio. Ouvi-o, mas pouco havia a acrescentar: desalento já ele o tinha. Disse-lhe só que se pudesse daria uma palavra ao Sr. Nogueira. Compreendam que o Vicente sempre foi meu amigo.