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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

carpe diem

Dum loquimur, fugerit invida
Aetas: carpe diem, quam minime credula postero*
mmmmmmmmmmm
Horácio, o poeta nascido a 8 de Dezembro de 65 a. C. e considerado um dos maiores poetas do mundo romano. Morreu em 27 de Novembro de 8 a. C., tendo escrito uns anos antes - não sem razão - que «non omnis moriar» (não morrerei por completo).
lllllllllll
*Enquanto se fala, a idade foge
Goza este dia, não contes com o de amanhã

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O primeiro Augusto

A morte de César, a 15 de Março de 44 a. C., deixara a sua obra inacabada e a vontade de muitos de regressar ao antigo sistema, que tinha o centro do poder no Senado. Cícero e os conjurados pensavam que era suficiente abater o “tirano” para que se regressasse à República. As forças de Roma, no entanto, eram múltiplas e de interesses divergentes, sendo forte o poder do exército, onde trinta e nove legiões tinham prestado juramento a César. Em termos legais, o poder pertencia aos cônsules, estando aí dois “cesaristas”, Dolabella e, em especial, António, que havia sido adjunto do ditador.
Sobrinho-neto por parte da mãe, Ácia (Átia), nascido em Roma a 23 de Setembro, dezoito anos antes, de nome de Gaius Octavius Thurinus, o futuro Augusto, neto de um banqueiro e filho de Caio Octávio, edil e pretor em Roma e, mais tarde, procônsul na Macedónia, tinha sido levado a Espanha pelo tio-avô e tinha recebido a melhor formação de retóricos e filósofos. No início de 44 a. C., o jovem Octávio foi enviado para Apolónia (ponto de partida da rota que conduzia aos Estreitos e, daí, à Ásia). Eis senão quando, depois dos idos de Março, aquando da tomada de conhecimento do testemanto de César por António, se soube que aquele, em acto póstumo, adoptara Octávio e lhe legara inúmeros bens.
Octávio foi aconselhado a aceitar apenas a herança material, permitindo o restabelecimento da República, mas veio a seguir caminho diferente. Começa então a sua busca do poder, decidido a vingar o pai adoptivo e a assegurar sua mais alta posição. Em Brundísio, a Décima Segunda Legião jura-lhe lealdade e, em discurso às tropas, Octávio declara-se filho adoptivo de Júlio César. Em Roma, António pede o controle das tropas de Octávio em troca de protecção e privilégios políticos, mas este recusa; pagou do próprio bolso os legados do testamento e presidiu aos jogos em memória de César; alia-se a Cícero, que o começa a elogiar no Senado, atacando o adversário directo.
Depois do triunvirato e de várias escaramuças a guerra do Áccio colocou frente a frente António e Octávio, quando as forças do primeiro eram, oficialmente, as da rainha Cleópatra, com quem se havia casado, depois de devolver a Roma a irmã de Octávio, Octávia. A guerra durou pouco, com a vitória clara de táctica marítima de Agripa, o comandante da frota de Octávio.
Apesar de assumir o poder, Octávio não aceitou a ditadura, temendo ser vítima da mesma sorte de César. Abdicou solenemente de todos os poderes extraordinários (excepto o consulado) e propôs um regime de compromisso, o principado, que centralizava o poder em torno de si, mas mantinha as formas tradicionais da República romana. Longe de destruir as antigas magistraturas, assumiu-as quase todas e fez-se reeleger cônsul, sem interrupção, até o ano 23 a. C. Na aparência, não passava de um magistrado como os demais, mas era (apenas) o primeiro, ou seja, Princeps. O Senado concedeu-lhe inúmeros títulos e poderes, como o de veto nas assembleias. Em 29 a. C. recebeu o título de Imperator (comandante-em-chefe das forças armadas) e no ano seguinte de Princeps Senatus. A partir de 27 a. C. passou a ser Augusto, que mais tarde se converteu em sinónimo de Imperador. O título passou desde então a identificar seu próprio nome e como Augusto tem sido reconhecido pela história.
Nem a política externa de Augusto, com sucessos vários, nem a reorganização administrativa foram o bastante para assegurar a glória do príncipe. O seu nome ficou ligado ao século em que viveu (ainda hoje se fala do “século de Augusto”) porque esse foi o tempo de Vergílio, de Horácio, de Tito Lívio e de outros e, por eles, considerado o tempo em que o espírito humano atingiu um dos seus pontos mais elevados.

(a partir de Pierre Grimal, O Império Romano)

domingo, 7 de setembro de 2008

Até tu, gaulês!


Refere o Jornal Público (edição de 5 de Setembro de 2008) que uma equipa de cientistas franceses, depois de comparar padrões de prevalência da variante CCR5 – Delta 32 com o modo como actualmente está presente na população europeia, conclui que as áreas onde na Antiguidade houve uma maior penetração romana apresentam maior raridade daquela variante e, assim, uma menor defesa contra o HIV. Depois de espalharem burros e gatos, parece que os conquistadores rarearam algumas defesas. Com o seu sentido prático, não terão cuidado das suas vantagens futuras ou, a não ser certo, serão os gauleses que ainda andam ressentidos.

sábado, 6 de setembro de 2008

O sangue dos César

QqqqqEu dizia a Séneca:
qqqqq- Ainda só tem quatro anos, mas já se assemelha a Calígula e Agripina. Será o sangue de César que, à nascença, transforma em feras estes humanos?
qqqqqEu apreciava as respostas comedidas de Séneca.
qqqqqConhecera-o quando servira o imperador Tibério. O seu porte altivo, o rosto que exprimia vontade e virilidade, a eloquência soberana que fazia dele o melhor orador do Senado, o advogado mais célebre, dono de uma retórica de filósofo estóico que defendia a sabedoria e a aceitação daquilo que não podemos dominar nem organizar, haviam-me seduzido.
qqqqqContava cerca de mais quinze anos do que eu e considerava-me um dos seus parentes próximos. Eu tinha, como ele, origens espanholas. Séneca nascera em Córdova, a exemplo dos meus antepassados.
qqqqqCaminhávamos lentamente pelo jardim da sua villa romana. Diziam-no rico e, de facto, eram muitos os escravos que se afadigavam em redor dos canteiros de flores.
qqqqq- O sangue dos César é semelhante ao de todos os homens - epilogava ele. - É tépido e viscoso. Vi morrer nobres romanos, de veias abertas, e o seu sangue tinha a mesma cor do dos escravos mortos à sua volta. Não, Sereno, os homens transformam-se em feras porque não há regras de sucessão no topo do Império. Têm de matar para não serem mortos. As leis da eleição, próprias da República, não são utilizadas para designar o imperador. Prevalece o gládio e não o voto. Quem quiser ser imperador deve fiar-se nos pretorianos e não nos cidadãos; nos generais, nos governadores, e não nos senadores. O tempo da República, o tempo que antecedeu César não voltará.
qqqqq - Então é o sangue? O punhal e o veneno, o assassinato? A soberania ilimitada de um homem que o poder enlouquece... - insurgia-me eu.
qqqqqSéneca pegava-me no braço e, de cabeça baixa, como se falasse sozinho, murmurava:
qqqqq- Importa que o imperador seja um homem sensato que não sucumba à loucura do poder supremo que o iguala a um deus. Importa que governe com comedimento e clemência, no interesse do Império, e que não procure unicamente os prazeres que o poder ilimitado proporciona. Importa que alguns homens à sua volta o chamem à razão, à sabedoria, que se tornem seus amigos, seus conselheiros.
qqqqq- Calígula? - perguntava eu.
qqqqqSéneca olhava à sua volta, antes de concluir:
qqqqq- Só os punhais poderão interromper a sua corrida. Estou certo que já há homens que afiam as lâminas. Não te imiscuas, sereno. Ainda não chegou o nosso tempo, o da sabedoria.

Max Gallo, Os Romanos (II), Nero - O Reinado do Anticristo
(trad. Isabel St. Aubyn, Edições ASA)

Séneca


Filósofo e escritor nascido em Córdova no início da Era, foi levado para Roma muito jovem e aí recebeu o ensinamento dos Estoícos, fonte da sua reflexão filosófica e da austeridade da sua vida. Foi advogado e político. Esteve oito anos deportado na Córsega, sob a acusação de ter mantido relações com uma irmã de Calígula e só a intervenção de Agripina, depois de casada com Cláudio, lhe permitiu o regresso a Roma e o vir a ser preceptor de Nero. Nos primeiros anos de governo deste imperador foi notória a benéfica influência de Séneca, mas esta foi-se progressivamente perdendo, ao mesmo tempo que cresciam as tontarias do governante. Abandonou então a vida política (depois da morte de Burrus, certamente assassinado) e dedicoui-se por inteiro à Filosofia.

A filosofia de Séneca tem sido objecto das mais variadas interpretações, mas é reconhecido como o autor de maior renome do Estoicismo. É tido como um escritor assistemático, às vezes contraditório, a variar entre o péssimismo e o optimismo, ainda que sempre se apresente ecléctico, a aceitar aquilo que de outras doutrinas lhe parece verdadeiro. Valoriza o aspecto prático nos seus pontos de vista, como era tradição dos cínicos e estóicos, agregando ao directo ensinamento de Posídio elementos da doutrina platónica e peripatética. É, entre os estóicos, quem dá mais atenção à ideia de Deus (enquanto princípio consciente da unidade do universo), tendendo a abandonar o panteísmo. Veio a morrer no ano de 65, suicidando-se por imposição imperial.

(a partir de J. M. da Cruz Pontes, Logos)

O sábio

28 de fimdo se"O sábio basta-se a si mesmo." Amigo Lucílio, muita gente interpreta incorrectamente esta máxima, afastando o sábio do mundo que o rodeia e reduzindo-o aos limites do seu corpo. Por conseguinte é imprescindível distinguir bem o que significa, e qual o alcance desta frase: o sábio basta-se a si mesmo para viver uma vida feliz, não simplesmente para viver,na medida em que para viver carece de muita coisa, mas para ter uma vida feliz basta-lhe ter um espírito são, elevado e indiferente à fortuna. Vou citar-te também uma análise apresentada por Crisipo. Diz ele que o sábio não carece de nada, conquanto precise de muitas coisas: "o insensato, pelo contrário, não precisa de nada (precisamente porque não sabe o uso correcto de nada), no entanto carece de tudo". O sábio precisa das mãos, dos olhos, de muita coisa necessária à vida quotidiana, mas não carece de coisa alguma: carecer implica ter necessidade, ser sábio implica não ter necessidade de nada. Por isso mesmo, embora se baste a si próprio, precisa de ter amigos; deseja mesmo tê-los no maior número possível, mas não para viver uma vida feliz, pois é capaz de ter uma vida feliz mesmo sem amigos. O bem supremo não vai buscar instrumentos auxiliares fora de si mesmo; está concentrado em si, reside inteiramente em si, se for buscar ao exterior alguma parte de si, principiará a submeter-se à sorte.
6 de setembro do ano de 20008
Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio (Epistulae morales as Lucilium)
trad, pref. e notas de J. A. Segurado e Campos (F. Calouste Gulbenkian)