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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Estrela


yyyyy
kkkkk
hhhhh
kkkk
kkkk
kkkkkk
kkkkkkk
kkkk
kkkk
kkkk
kkkk
Adeus,
solitária viajante dos países frívolos
deixa que os meus dedos desenhem nas
maças do teu rosto
um beijo e o sinal da cruz,
deixa que os sinos toquem na outra margem
do rio,
por nós,
pela morte das dunas que incendiámos num
Verão de ventos loucos,
pela morte das cegonhas e dos lírios,
adeus,
doce amada do meu céu de Agosto,
deixa que sobre a tua pele de ternura e
fogo e luminosas cinzas,
eu escreva um último verso,
um verso de néctar e ouro,
sobre as páginas vazias do coração.
José Agostinho Baptista, Anjos Caídos, Assírio & Alvim, 2003

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Via-a serenamente, a contar as horas que
faltavam para ele chegar.
Mas ele não chegou,
com o seu manto azul,
àquele pátio onde ela o esperava, todos os dias,
ano após ano,
com o rosário de sal das noivas eternas,
esquecido nas mãos.

Ela tinha tempo, era jovem,
e jovem o seu corpo e o seu coração.

A alma, porém,
navegara os oceanos,
perdera-se em cada porto,
em cada lenço de dizer adeus,
nos labirintos onde conheceu o esplendor das
navalhas,
o sangue que deixava o seu rasto num
umbral e numa esquina.
Era uma vida de açucenas desfeitas.
E ela ia e vinha, sonambulamente, apagando as
estrelas.

Tinha,
na boca entreaberta,
o travo amargo das laranjas doentes,
dos licores de ervas muito verdes que colhera na
infância dos países do mal.

Tinha medo.

Mas, serenamente,
continuava a contar as horas que faltavam
para ele chegar,
para que do seu manto azul se soltassem as
flores sem cor
que vivem na secreta transparência dos corais.

José Agostinho Baptista, Via-a Serenamente
Esta Voz É Quase O Vento

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Porto Santo

(...)
Eu queria uma ilha assim, onde tudo se resume à
evidência dos astros,
ao coração sereno.
A areia aquece as mãos abandonadas.
Prevejo o eclipse, o arco-íris e os teus passos.
Sei que vens, algures, pelas veredas onde o ouro
começa.

Não me procures tão perto das estacas do primeiro
cais.
Estou sempre encostado ao mar.
E as vagas que se erguem afastam levemente a minha
boca
e são como as lágrimas do teu amor.
Quem espreita atrás dos barcos?

As velas passam ao largo das tuas cidades.
Apagas-te devagar, fresca açucena desta saudade.
Inúteis são os búzios da minha loucura porque não
me ouves em outubro
quando a ilha não pertence ao mundo.
Em outubro pensei:
podia acabar aqui, encostado ao mar,
para que se saiba onde acabam os sonhos, onde moram
os assassinos,
onde, da vida já esquecido,
olho perdidamente à volta e sou a ave.
Sou a plumagem que arde. Sou a asa golpeada pelos
raios do teu furor
e não me peçam, não me peçam para cantar.
Na Fonte da Areia baixo a cabeça sobre o peito.
Fecho os olhos.
(...)

José Agostinho Baptista, Porto Santo
Canções Da Terra Distante