Mostrar mensagens com a etiqueta Alejandro Villas-Diego. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alejandro Villas-Diego. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Ensaio
«Na candura dos teus desejos,
Tomei a chuva por minha amante.
Dizias-me que, mesmo de mim distante,
Tu nela estarias...
Em cada pingo,
Em cada beijo.
Mas, procurando agora teu molhado peito,
De ti nada vejo,
Nem sombra, nem ensejo.
Por onde andas?
Por onde repousas?
Sem resposta, nem vestígio,
Apenas resta a memória
Do teu toque; um esquiço.»
Alexandre Villas-Diogo, Ensaio, «Lírica de Inverno»
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Momentos (de #Natal)
"A lareira crepitava, num ritmo lento e compassado, trazendo ao espaço um calor que apenas era comparável àquele que os olhos de Luísa deixavam transparecer. Entre os seus dedos esguios rolava agora um copo de balão, onde um preguiçoso brandy era servido a uns lábios que, nessa noite, apenas conheciam os beijos quentes de uma paixão que tinha encontrado o seu porto de abrigo.
João, não sem algum prazer, notou que mal falavam e que nem disso precisavam. O encontro deles, ali, naquela mesma sala de há uns meses atrás, já falava por si.
Mesmo assim, João arriscou: «Já viste bem o caminho que nos trouxe até aqui?».
Luísa sorriu e respondeu-lhe:«Não foi por culpa minha que ele foi tão longo». Ele sabia que não tinha resposta.
«E agora, Luísa, que se segue?», perguntou João, enquanto lhe afastava uma madeixa de cabelo da testa, beijando-a suavemente.
«O que nós quisermos...» - respondeu ela.
Para esta noite, era tudo o que ele precisava de ouvir. Estavam juntos e o momento, mais um, era de Felicidade."
Alexandre Villas-Diogo, "Momentos"
João, não sem algum prazer, notou que mal falavam e que nem disso precisavam. O encontro deles, ali, naquela mesma sala de há uns meses atrás, já falava por si.
Mesmo assim, João arriscou: «Já viste bem o caminho que nos trouxe até aqui?».
Luísa sorriu e respondeu-lhe:«Não foi por culpa minha que ele foi tão longo». Ele sabia que não tinha resposta.
«E agora, Luísa, que se segue?», perguntou João, enquanto lhe afastava uma madeixa de cabelo da testa, beijando-a suavemente.
«O que nós quisermos...» - respondeu ela.
Para esta noite, era tudo o que ele precisava de ouvir. Estavam juntos e o momento, mais um, era de Felicidade."
Alexandre Villas-Diogo, "Momentos"
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Momentos
«O silêncio reinava no quarto... a dourada penumbra daquela tórrida tarde entrando pelas frinchas das portadas de madeira que permaneciam encostadas.
Luísa sentia-se serena... A primeira vez desde há muito. João dormia, a seu lado, virado para ela. Deliciada, ria-se pelo jeito de miúdo com que ele parecia sonhar. De facto, era em alturas como esta que todos os medos, que todos os receios e barreiras, as mesmas de sempre, se desmoronavam, acometendo-lhe o incauto desejo de se entregar àquele homem que tudo lhe prometia... Mas entre prometer e cumprir, haveria sempre aquele limiar intransponível de uma vida quotidiana que trazia consigo o sabor amargo de uma normalidade incontestada. Talvez, para eles estivesse reservado apenas o melhor, que, por ser único, seria sempre raro ou esparso, ainda precioso.
Luísa sentia-se serena... A primeira vez desde há muito. João dormia, a seu lado, virado para ela. Deliciada, ria-se pelo jeito de miúdo com que ele parecia sonhar. De facto, era em alturas como esta que todos os medos, que todos os receios e barreiras, as mesmas de sempre, se desmoronavam, acometendo-lhe o incauto desejo de se entregar àquele homem que tudo lhe prometia... Mas entre prometer e cumprir, haveria sempre aquele limiar intransponível de uma vida quotidiana que trazia consigo o sabor amargo de uma normalidade incontestada. Talvez, para eles estivesse reservado apenas o melhor, que, por ser único, seria sempre raro ou esparso, ainda precioso.
Ao olhar para os seus ombros descobertos, Luísa dava-se conta das marcas da conquista que deixava em João, por cada reencontro... congratulava-se por não se limitar a meros beijos, indo sempre mais fundo, lançando o seu feitiço sobre João.
"Sei que não te tenho, mas promete-me que não te perderás de mim"- disse Luísa num rouco murmúrio.
Sem abrir os olhos, João respondeu-lhe: "Tu nunca me perderás". Logo no instante seguinte, Luísa soube que acreditava em João. Que confiaria nele.
Seriam sempre um do outro...
Fosse de que maneira fosse.»
«Momentos», Alexandre Villas-Diogo
terça-feira, 31 de março de 2009
Momentos
"Saindo do café, João encaminhou-se para a galeria. Esta seria mais uma tarde no meio de paredes que contavam estórias, em tons de um preto e branco que se queria poético, profundo e fiel à realidade captada pela objectiva.
Estórias que não eram dele, que não lhe pertenciam, mas que, ainda assim, se lhe impunham, trazendo o único sal possível para a espuma dos seus dias sempre iguais que, quais ondas, iam apagando os desejos gravados na areia de uma praia só por ele conhecida.
Ao chegar à loja, subiu a grade, abriu a porta e deu-se conta de um envelope no chão. Estava aberto... Dentro dele, (mais) uma fotografia... Uma recordação ainda há minutos recuperada pela saudade... A silhueta de um corpo desnudo à beira de uma janela, que se perdia a contemplar a imensidão de um desejo que, nessa altura, parecia não ter fim.
Lembrava-se bem daquele fim-de-tarde e como a chuva persistia em cair sobre o relvado da pousada onde se encontravam perdidos de tudo e de todos.
No verso, uma palavra apenas: 'Quero-te!'.
Ela tinha voltado."
Alexandre Villas-Diogo, "Momentos"
terça-feira, 17 de março de 2009
Momentos II
«Em movimentos circulares, João mexia o seu copo de brandy, assente sobre a mesa do café, onde se encontrava, perdido numa saudade que o consumia há mais de três meses.
Desde aquele último fim-de-semana passado com Luísa, ainda Inverno, nunca mais tinha tido notícias dela. Era demasiado tempo.
E embora pudesse até pensar que, no final de contas, era como o ditado dizia, o certo é que, neste seu triste caso, a distância apenas lhe trazia um sabor agridoce, juntamente com as recordações dos intensos momentos que partilharam.
João tinha mais que razões para acreditar que ficaria prisioneiro de tais memórias para o resto da sua vida.
A paixão que sentia por Luísa assim o ditava. Sem apelo, nem agravo. Levando o copo de balão à boca, procurou naquele sabor doce e quente o toque desses lábios, agora distantes.»
Alexandre Villas-Diogo, "Momentos"
Desde aquele último fim-de-semana passado com Luísa, ainda Inverno, nunca mais tinha tido notícias dela. Era demasiado tempo.
E embora pudesse até pensar que, no final de contas, era como o ditado dizia, o certo é que, neste seu triste caso, a distância apenas lhe trazia um sabor agridoce, juntamente com as recordações dos intensos momentos que partilharam.
João tinha mais que razões para acreditar que ficaria prisioneiro de tais memórias para o resto da sua vida.
A paixão que sentia por Luísa assim o ditava. Sem apelo, nem agravo. Levando o copo de balão à boca, procurou naquele sabor doce e quente o toque desses lábios, agora distantes.»
Alexandre Villas-Diogo, "Momentos"
Etiquetas:
Alejandro Villas-Diego,
Momentos,
romance
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Romance III
«"E é como lhe estou a dizer, senhor doutor, se a Junta não fizer nada para resolver o problema, não sei como será no próximo Verão..." - queixava-se o senhor Lopes, merceeiro, recentemente auto-proclamado empresário; se as obras de remodelação do espaço o tinham feito gastar as poupanças de uma vida, em nome do progresso e do turismo na terra, algum benefício pessoal, em jeito de consolo, deveria daí poder tirar, que raio! Agora que era proprietário não de uma mercearia mas de uma coisa a que na cidade davam o nome de "média-superfície".
Contudo, ao longo da conversa que estava a ter com o senhor doutor Luís, o senhor Lopes sentiu que algo se tinha passado... Uma leve e súbita mudança na atenção que o seu interlocutor lhe estava a dar.
Um silêncio incómodo e trapalhão tinha-se instalado entre eles. E Luís parecia agora olhar para lá do senhor Lopes.
A verdade é que, num despreocupado relance de canto, Luís tinha sentido um familiar aperto no estômago que antecedia sempre aqueles momentos de verdadeira revelação. A sua primeira reacção foi que não podia ser verdade. Não era mesmo possível... Ele via-se e desejava-se para estar noutro lugar, na companhia dela... Seria normal que os seus sentidos lhe pregassem estas partidas.
Contudo, do mesmo passo, ainda assim, atreveu-se a reparar com maior cuidado... Engolindo em seco, viu... era mesmo ela! Não tinha mudado nada durante aqueles anos todos.
Um breve sorriso pareceu desenhar-se no rosto de Eugénia. Luís estremeceu. Os seus olhos d'agua marinha continuavam a transmitir aquela marítima sensação de serenidade por onde ele já se tinha perdido em tempos... nos mesmos tempos que constantemente recordava e que também agora eram os responsáveis por esta vontade de reencontro concretizado. Eugénia parecia querer dizer-lhe "Eu vim... Estou aqui."
Após despedir-se educadamente do senhor Lopes, ainda incomodado com a aparente desconsideração do senhor doutor, Luís começou a caminhar para Eugénia. À beira do bar, segurando na mão uma contemplativa cerveja, sorria em jeito de desafio e, ao mesmo tempo, de interrogação. Um convite? Luís estaria prestes a descobrir, disso estava certo.
Na última noite de Verão, junto ao mar, todos os sonhos haveriam de voltar a ser possíveis. Os sonhos de um estio há muito esperado.»
Alexandre Villas-Diogo, "Sonhos de Estio"
Etiquetas:
Alejandro Villas-Diego,
Sueños del Estio
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Momentos
«"Tem um bom fim-de-semana", disse-lhe Luísa, num tom entre o desdém e a ironia, mas ainda assim sedutor... Talvez porque, para João, a humilhação que assim lhe era infligida por quem ditava o rumo da sua vida fosse, no final de contas, uma bênção.
"Acreditas mesmo que isso seja possível?" - perguntou.
"Porque é que não havia de ser? Tu voltas à tua vida e eu volto à minha". E com isto, num último olhar, Luísa saiu do quarto, com aquele seu sorriso de menina travessa.
Ela sabia bem que a única pessoa que podia dizer ter uma vida, sem eles juntos, era ela. E isso dava-lhe toda a vantagem... Esmagadora sobre ele.»
"Acreditas mesmo que isso seja possível?" - perguntou.
"Porque é que não havia de ser? Tu voltas à tua vida e eu volto à minha". E com isto, num último olhar, Luísa saiu do quarto, com aquele seu sorriso de menina travessa.
Ela sabia bem que a única pessoa que podia dizer ter uma vida, sem eles juntos, era ela. E isso dava-lhe toda a vantagem... Esmagadora sobre ele.»
Alexandre Villas-Diogo, "Momentos"
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Romance II
"Sentada à mesa junto à janela entreaberta do quarto, este tão estranho para ela quanto aquele da pensão cujos lençóis e a cama tinha afinal deixado imaculados, Eugénia olhava para a taça do gelado com ar pensativo.
No seu íntimo, procurava recordar, até ao mais pequeno pormenor, os acontecimentos da noite anterior.
Já alta a Lua e depois de ter arriscado a sua sorte na quermesse (onde ganhou alguns bordados e rendas), tinha-se decidido a entrar no salão de baile, onde o artista local, virtuoso das teclas, num misto de melancolia e saudade, tocava e cantava a balada da despedida do Verão. Um mote simples, supostamente inspirado no melhor do rock 'n roll.
'... E na praia do meu coração/Sopra já o vento da separação', esta uma das estrofes, em pobre rima, que prenunciava uma qualquer intempérie, pouco desejada por todos os amantes dos dias grandes, ali presentes.
Ao aproximar-se do bar improvisado em ripas de madeira e com uma tosca cobertura de folhas de videira e louro, desejosa de um bom, mas ali impossível, gin tónico, Eugénia avistou Luís à conversa com alguns daqueles que seriam os homens bons, importantes, da terra. Possivelmente comerciantes e caciques locais. Ao contemplá-lo longamente, Eugénia deu-se conta de que ele tinha envelhecido um pouco, mantendo, no entanto, aquele enigmático ar que desde a primeira vez a tinha seduzido... O sorriso a três quartos do lábio e o olhar fixo que procurava sempre prescutar o íntimo do seu interlocutor, deixando-o no mínimo embaraçado, confuso e, por fim, rendido a quaisquer que fossem os seus argumentos.
De súbito, reparou que Luís olhava na sua direcção. A sua atitude tinha mudado, constatava ela. Os seus olhares cruzaram-se e logo ali sentiram um certo desconforto, imperceptível para os demais convivas que lhes estavam próximos.
Eugénia sentia agora um adocicado aperto no peito, um típico peso no estômago e um rubro calor na face. Luís encaminhava-se para ela, deixando para trás a sua enfadonha tertúlia, esta ainda a tentar perceber o porquê do abrupto 'até já' com que ele se despediu.
A sorte deste reecontro estava prestes a ser ditada..."
"Sonhos de Estio", Alexandre Villas-Diogo
No seu íntimo, procurava recordar, até ao mais pequeno pormenor, os acontecimentos da noite anterior.
Já alta a Lua e depois de ter arriscado a sua sorte na quermesse (onde ganhou alguns bordados e rendas), tinha-se decidido a entrar no salão de baile, onde o artista local, virtuoso das teclas, num misto de melancolia e saudade, tocava e cantava a balada da despedida do Verão. Um mote simples, supostamente inspirado no melhor do rock 'n roll.
'... E na praia do meu coração/Sopra já o vento da separação', esta uma das estrofes, em pobre rima, que prenunciava uma qualquer intempérie, pouco desejada por todos os amantes dos dias grandes, ali presentes.
Ao aproximar-se do bar improvisado em ripas de madeira e com uma tosca cobertura de folhas de videira e louro, desejosa de um bom, mas ali impossível, gin tónico, Eugénia avistou Luís à conversa com alguns daqueles que seriam os homens bons, importantes, da terra. Possivelmente comerciantes e caciques locais. Ao contemplá-lo longamente, Eugénia deu-se conta de que ele tinha envelhecido um pouco, mantendo, no entanto, aquele enigmático ar que desde a primeira vez a tinha seduzido... O sorriso a três quartos do lábio e o olhar fixo que procurava sempre prescutar o íntimo do seu interlocutor, deixando-o no mínimo embaraçado, confuso e, por fim, rendido a quaisquer que fossem os seus argumentos.
De súbito, reparou que Luís olhava na sua direcção. A sua atitude tinha mudado, constatava ela. Os seus olhares cruzaram-se e logo ali sentiram um certo desconforto, imperceptível para os demais convivas que lhes estavam próximos.
Eugénia sentia agora um adocicado aperto no peito, um típico peso no estômago e um rubro calor na face. Luís encaminhava-se para ela, deixando para trás a sua enfadonha tertúlia, esta ainda a tentar perceber o porquê do abrupto 'até já' com que ele se despediu.
A sorte deste reecontro estava prestes a ser ditada..."
"Sonhos de Estio", Alexandre Villas-Diogo
Etiquetas:
Alejandro Villas-Diego,
Sueños del Estio
Subscrever:
Mensagens (Atom)