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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Ao ouvir as suites inglesas de bach, a humidade
dos campos envolve-me, com uma névoa de rios
e uma auréola de margens. Esta música puxa-me,
pelas suas mãos de som, para o ritmo que o poema
devia encontrar no limite dos teus cabelos; e tu,
contra o portão, nesse contra-luz que te incendeia
o vermelho da túnica sobre o fundo branco dos
muros, roubas ao cravo o seu sorriso profano,
plantando nas suas tevlas um desejo que o jardim
do teu corpo fará florescer. Assim, vens até mim
pelos degraus deste ritmo que bach inventou,
para descrever não se sabe que dança, movimento
de saias com o vento, baloiço vago que se evola
de uma entrega evanescente, num canto de arbusto,
até ao silêncio branco com que o amor se fecha.

Nuno Júdice, Episódio Musical
Poesia no Porto Santo, Antologia 2004
Furo o chão para dar passagem
à toupeira. Ela ascende. Dança com
o fogo. Dou aos animais as vivências
que me sobejam. Reparto com Eurípedes
o pão. Uma parte do todo pertence ao poema
outra à minha voragem. O charco

refresca-me. Está presente. Oscilo
entre o cénico e o lírico. As coisas
que me rodeiam são. Cada uma prepara
a sua transformação. A abstracção que está
próxima da abstracção. Um cansaço apaga-as

O fôlego dos poemas esgota-se.
As pontas das chamas chiam.
Aqui nós somos existentes. Quem passa
no ar? Tiras de nuvens
carbonizadas. Horizonte onde Bóreas
ainda está.

Fiama Hasse Pais Brandão
Poesia em Porto Santo, Antologia 1998

sábado, 16 de agosto de 2008

Desço as escadas de casa
alguma coisa acabou para nós neste lugar
nos espaços mínimos que nos separaram
orgulho-me da tua nobreza

conto teus passos de criança sobre a terra
não sei que manhã virá em auxílio
da graça vulnerável de um amor
tão puro que não precisa
sequer de razões
ponho a mão na boca
para suster um grito

No duelo com certas noites
um coração sai sempre perdedor

Tua voz luzia pelo porto
quase a ponto de perder-se

Não avances tão depressa, minha noite

José Tolentino de Mendonça
(nascido na Ilha da Madeira em 1965)
Uma Casa Em Machico
Poesia no Porto Santo, Antologia 2002
Ver-te é antigo. Ou respirar canela
a bordo do veleiro comedido
aonde erguer a taça é só um gesto
que o vento traz ao vinho

e se prolonga, enquanto que se bebe,
vendo-te imóvel atrás do vidro
e cada vez a taça é só mais gesto
e ver-te mais antigo.

Tão antigo que fico a esta janela
de lágrimas. E digo:
Ah, como cheira a vinho e a canela

vê-la veleiro e pavilhão amigo
entrando. Mas tu ficas séria
e ergues a taça num país antigo.

Fernando Echevarría
Poesia no Porto Santo, Antologia, 2000