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sábado, 18 de outubro de 2008

Sempre que falo à frente de muitas pessoas, parece-me que errei na porta. Algumas mãos amigas empurraram-me, e aqui estou. Metade das pessoas anda perdida entre cenários, árvores pintadas, fontes de lata, e quando julga que encontrou o seu quarto ou um círculo de sol morno, encontra-se com um caimão que a engole ou... com o público, como eu neste momento. E hoje não tenho mais espectáculo que uma poesia amraga, mas viva, que julgo capaz de abrir os seus olhos à custa de chicotadas que eu lhe dê.
Eu disse "um poeta em Nova Iorque" e devia ter dito "Nova Iorque num poeta". Um poeta que sou eu. Claramente e com franqueza: não tenho habilidade nem talento, mas consigo fugir por um bisel embaciado deste espelho do dia, por vezes mais depressa que muitas crianças. Um poeta que aparece nesta sala e quer ter a ilusão de estar no seu quarto, e de que vós... vocês são seus amigos, que não há poesia escrita sem olhos de escravos do verso obscuro, nem poesia falada sem orelhas dóceis, orelhas amigas onde a palavra que brota leva através delas sangue aos lábios, ou céu à fronte de quem ouve.
Nova Iorque num poeta, trad. Aníbal Fernandes

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Los muertos

Y luego aquellas muertes que me hicieron
tanto daño y dolor
como si me golpearan hueso a hueso
las muetes personales
en que tú también mueres.
Porque allí a Federico y Miguel
los amarraron a la cruz de España,
les clavaron los ojos y la lengua,
los blasfemaron y los insultaron,
los hicieron rodar por los barrancos
aniquilados
porque sí, porque no, porque así fue.
Así fueron heridos,
crucificados
hasta en el recuerdo
con la muerte española,
con las moscas rondando
las sotanas,
carcajada y escupo entre las lanzas,
mínimos esqueletos
de ruiseñor
para el aciago osario,
gotas de miel sangrienta
perdida
entre los muertos.

Pablo Neruda, Los muertos, Memorial de Isla Negra (1964)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

FGL. poesia com histórias


A alegria da cidade acabara de desaparecer e era como a criança recém-chumbada nos exames. Tinha sido alegre, coroada de trinos e marginada de juncos até há poucas horas, quando a tristeza que afrouxa os cabos eléctricos e ergue as lajes das arcadas invadira as ruas com o seu ruído imperceptível de fundo de espelho. Comecei a chorar. Porque não existe nada mais comovente que a tristeza nova sobres as coisas festejadas, embora pouco densas, para impedir que a alegria se deixe adivinhar no fundo, cheia de moedas furadas.

Frederico Garcia Lorca, Santa Luzia e São Lázaro
(Anjo e Duende, Assírio e Alvim,
trad. Aníbal Fernandes)