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terça-feira, 16 de novembro de 2010

Nam simul cum cathedra creavit Deus tabulam quamdam ad sribendum, que tantum grossa erat quantum posset homo ire in mille annis. Et erat tabula illa de perla albissima et extremitas eius undique de rubino el locus medius de smaragdo. Scriptum verum in ea existens totum erat purissime claritatis. Respiciebat namque Deus in tabulam illam centum vicibus die quolibet et quantiscumque repiciebat vicibus, construebat et destruebat, creabat et occidebat… Creavit namque Deus cum predicta tabula pennam quamdam claritatis ad scibendum, que habebat in se longitudinis quantum posset homo ire in VC annis et tantumdem ex latitudine quidem sua. Et ea creata, precebit sibi Deus ut scriberet. Penna vero dixit: “Quid scribam”? At ille respondens: “Tu scribes sapienciam meam et creaturas omnes meas a principio mundi usque ad finem” - Liber scale Machometi, cap. xx.

(tal como criou seu trono, Deus criou uma mesa para escrever tão vasta que um homem podia caminhar nela mil anos. A mesa era feita de pérolas branquíssimas, as suas extremidades de rubis eo centro de esmeralda. Tudo o que nela escrevia era da mais pura claridade. Deus olhava para a mesa centos de vezes por dia e, de cada vez que a olhava, construía e destruía, criava e matava… tal como criou a mesa, Deus criou uma pena de luz para escrever, tão larga e longa que um homem a poderia percorrer em largura ou comprimento quinhentos anos. E, esta criada, deus ordenou-lhe que escrevesse. Disse a pena: “Que escrevo?”. A ela respondeu: “Escreverás a minha sabedoria e todas as minhas criaturas, desde o princípio do mundo até ao seu fim.” – O Livro da Escada de Maomé, cap. xx).

(in Giorgio Agamben, Bartleby Escrita da Potência, Assírio & Alvim)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sobre o Flirt

Adam Phillips é um psicanalista, conferencista e ensaísta. Dizem que vê na psicanálise uma espécie de poesia prática ("uma linguagem com afinidades com outras linguagens literárias, uma disciplina que instiga as pessoas a celebrarem-se"). O livro são dezanove artigos sobre contingência, memória e esquecimento, culpa, perversão, sucesso ou depressão; sobre figuras emblemáticas como Freud, Erich Fromm, Melanie Klein; sobre livros e também escritores, como O Património de Philip Roth, onde analisa a cena de vergonha entre pai e filho, quando aquele, enfermo e doente, passa por uma triste revolta do corpo que suja tudo: "Enquanto relato da morte do pai, Patrimony é o primeiro dos livros de Roth que o seu pai jamais leria. Roth é o menos sentimental, e, portanto, o menos cínico dos escritores, e Patrimony é notável, entre outras coisas, pela complexidade da afeição que ele sente pelo pai. Naquele momento do livro, ele esforça-se por mostrar ao pai, e agora não apenas ao pai, que não é apenas o facto da sua incontinência que é humilhante: é tentar viver neste mundo tão continente".
E sobre a contingência: "Dada a óbvia contingência de grande parte das nossas vidas - não escolhemos, em nenhum sentido significativo, o nosso nascimento, os nossos pais, os nossos corpos, a nossa língua, a nossa cultura, os nossos pensamentos, os nossos sonhos, os nossos desejos, a nossa morte, e assim por diante -, poderia valer a pena considerar., de um ponto de vista psicanalítico, não só as relações que temos com nós mesmos e as nossas relações com objectos, mas também (como o terceiro elemento do par, por assim dizer) a nossa relação com os acidentes. A psicanálise, afinal, começou com Freud a estabelecer nexos entre vida pulsional e o "acidente" do trauma, com notáveis descrições de vidas sendo vividas com desejos não escolhidos em famílias não escolhidas e guerras não escolhidas."
Sobre o Flirt, Cotovia, 2010, trad. Cid Knipel Moreira