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domingo, 7 de setembro de 2008

Big Apple 3

Atravessas a rua como um peregrino desesperado. Se a salvação não for consolo imediato – advertes-te – será eternamente inglória. Tanto que sabes que é suficiente o que temes: um mero gesto, mesmo um gesto mudo que se confunda a um trejeito do olhar, é o bastante para te mudar o mundo. Por inteiro. Se for dela, é claro. É-te claro, mesmo que só isso o seja. Os pés descompassam em ordens antagónicas, mas avanças. Num relâmpago confias num regresso à serena doçura de antes; tens a glória almofadada em euros e usd’s. Mas sabe que não é nada disso: o relâmpago passou. Sacas do bolsinho um havano de cinco contos, preço antigo de Lisboa. Ele vai ficar deliciado em extravagância. Esticas a oferta, ainda em silêncio.
- Eu não fumo, ó periquito.
Ora glória!
O poder caiu na rua!

domingo, 8 de junho de 2008

Big Apple 2

É a cabeça que te desenha os factos, mas sabes que podem não ser isso. Julgas racionalizar os indícios, com a pretensa qualificação de um cirurgião de pormenores. Renovas o que ela disse, letra a letra, minutos antes de partires para Paris. Como ela desconhece que não chegaste a ir, cuidas ter pontos em favor do que concluis. Repetes o que ele te disse e asseguras-te que não podia estar a ser irónico.
O vagabundo está a fazer-te um sinal, repara. Talvez tenha uma história que console a tua. Talvez um desenlace para o teu novelo. À partida, ele ignora os recatos – perdoa a expressão… - que te diluviam o lar. Tratar-te em abstracto vai dissipar-te a vergonha.
Volta a chamar-te.
Deixa de contar os passos, como uma barata tonta! Ele pode ser um psicólogo caído em desgraça, mas com os saberes intactos.
Agora trocas os olhos com os dele. Boa ideia.
A entrada do 315 continua hermeticamente fechada. Avanças. O homem refaz o assento de cartolina e sorve uma branca num frasco antigo. Espera-te. Vais à consulta.

domingo, 1 de junho de 2008

Big Apple 1

Estás a confundir os passos, a cada passo. Três minutos certos ultrapassaram a uma da noite em Nova Iorque. Contas dez para o lado Norte, contas mais dez para Sul, e só aí tiras as mãos dos bolsos. Dizes cem, duzentos, trezentos, quatrocentos, em vez de um, dois, três, quatro. Ensinaram-te que, assim, há mais precisão na correspondência com os segundos. Respirar fundo na contagem sul e voltas a recolher as mãos. Notas que estão suadas. Trinta segundos. Tens um relógio TAG de 21 quilates. Quando o pensas, pensas em 21 gramas. É um relógio precioso e preciso. Só que não contar ia ferver-te mais os pensamentos.
A meio da rua, no passeio do teu lado direito, está um andrajoso que cobre a noite com plásticos e atenua o frio da laje nos cartões que já enrolaram um frigorífico.
Neste momento, olha-te. Parece-te a ti que faz um subtil sinal de empatia, mas não faz. No engano, és tu quem o olha. Pensas uma certeza, Aquele homem não tem mulher. E apressas o passo, perdendo-te no quatrocentos.
A entrada do 315 continua hermeticamente fechada. É um prédio luxuoso de doze andares. O teu, com uma vista soberba, é o último, o mais alto. O quarto é do outro lado.
A tua mulher é loura, tem um metro e setenta e um e olhos esmeralda. Vale o peso em ouro. Tu tens a certeza – embora te repitas que é impossível ter certezas absolutas – que ela está na cama. E que está na cama com quem bem sabes. Irremediavelmente.
Voltas a olhar a porta e desvias o olhar para o mendigo. Passaram sessenta segundos, se tanto.