Este conto é-te devido, Margarida. Conta quantas estrelas roubámos do céu nas noites claras em que os olhos piscavam de procura. Conta as vezes das vezes que os lábios humedeceram as manhãs, antes da madrugada cantar vitórias. Conta o receio do teu peito, o aprendiz do meu jeito e, um a um, todo o preceito com que violámos as regras. Conta as histórias por contar, roubadas das nuvens de sonhos por poetas famosos. Eram nossas e estão perdidas nas calçadas de basalto que os pescadores salpicam. Mas conta, muito mais que a totalidade do mundo, o que sempre fica por reinventar naquele mês de Neruda além de Dezembro, antes de Janeiro. E o nome da Rosa, que Borges usava a dar-lhe o aroma da cor. O perfume de Eugénio. As raivas de Júpiter, a tentação de Cristo, a figueira de Shidarta. conta que nos teus olhos se via o cristal dos alquimistas, a caverna, as categorias, um beijo de chá no côdo de Novembro. E os atritos do mundo que Ludwig ensinava ser precisão dos passos. talvez te copie um poema de Novalis, um sonho de Rimbaud; que a juventude é modo único de contar.
Mostrar mensagens com a etiqueta dedicoratórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta dedicoratórias. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 16 de março de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Dedicoratória I
Esta história dou-ta, porque é tua, Maria, nome redescoberto de um acto por nascer. São tuas as colinas do Borges (Kodama...) e a dedicatória do Herberto. Também eu sei histórias terríveis, e assombros que guardei nos fundos puídos da memória. Sem um estilo, sequer, podia derrubar todas as esperanças com um gesto de língua e rir-me, sulfúricos, dos cacos do mundo. Mas a história é tua, alegre até ao partir dos dentes nos tremeliques da vergonha diluída. Era uma vez uma guitarra de sexo, onde esfregávamos mãos de contentamento; tardes de um verão tão a sul que desnorteamos os dias, violação de relógios impenitentes, e nos teimamos numa entrega de rojo, suplício de vãs vontades.
Esta história é tua porque o merecimento não existe, só a ânsia. Tua porque ainda me lembro: se perguntarem por mim, diz que voei com os pássaros entre as janelas daquele palácio em ruínas. Tua porque o Cesariny avisou que a fala do olhar, no soletrar da mão, só do teu olhar se lê, e guardo o gosto dum reflexo descaído no seio imóvel do entardecer. E se falasse do mar, deuses!, donde os lábios salgados amassaram estes, hoje condoídos de espera, oxidados no silêncio dos ventos. Era capaz de gritar essa mudez com que abismamos cada retoque da onda, espuma de cristal a burilar projectos.
Não! Esta história é apenas a do teu regaço florido, vivaz da rega de lágrimas que o fim da luz choveu. Foi em setembro de um ano prestes a chegar, mas podia ter sido em qualquer mês, mesmo no passado. Esta história é tua porque assim deve ser. Dedico-ta.
Subscrever:
Mensagens (Atom)